Por Adam Wilby
Desde a adoção do cristianismo pela Armênia, em 301 d.C., os mosteiros do país tornaram-se o centro de suas tradições de fé. Após 17 séculos, esses locais — hoje reconhecidos pela UNESCO — continuam sendo pilares profundos da comunidade, ao mesmo tempo espelhando e moldando a cultura da primeira nação cristã do mundo.
Mosteiro de Geghard – Armênia Central
Embora a igreja original do século IV dedicada a São Gregório fosse uma modesta capela em uma caverna, hoje o Mosteiro de Geghard se ergue como um impressionante Patrimônio Mundial da UNESCO. Parcialmente talhado nas falésias de basalto do desfiladeiro de Azat e parcialmente construído com pedra local, o mosteiro fica a apenas 30 quilômetros de Yerevan.
O nome Geghard significa literalmente “a Lança” e faz referência à Lança do Destino, que teria perfurado o lado de Cristo na cruz. O mosteiro já guardou essa relíquia, hoje preservada em Etchmiadzin, a primeira catedral da Armênia. No século XIII, três de suas capelas foram diretamente esculpidas na rocha sob a direção do arquiteto Galdzak. Essas capelas rupestres são célebres por sua acústica extraordinária, palco de apresentações hipnóticas de coros armênios tradicionais. A solista Ana Navasardian afirmou em uma entrevista à Radio Free Europe: “A acústica aqui parece abraçar você — é algo único.”
Na capela rupestre de Avazan, a água sagrada brota diretamente da pedra. Visitantes observam os entalhes e as obras religiosas, incluindo a inscrição humilde de Galdzak: “Lembrem-se de mim às vezes, por favor” — um eco humano silencioso vindo de séculos atrás.
Mosteiro de Tatev – Sul da Armênia
De Geghard, a jornada segue rumo ao sul, para as terras altas, onde a paisagem se torna mais selvagem. O trecho final até o Mosteiro de Tatev já é uma aventura: o acesso é feito pelo Wings of Tatev, o teleférico reversível mais longo do mundo, que sobrevoa o profundo desfiladeiro do Vorotan.
Atualmente na Lista Indicativa da UNESCO, Tatev — localizado a cerca de 240 quilômetros de Yerevan — foi construído no século IX em homenagem a São Paulo e São Pedro. Situado na borda do desfiladeiro, tornou-se rapidamente um centro de aprendizado e cultura. Nos séculos XIV e XV, abrigou uma das primeiras universidades da Armênia, onde monges estudavam filosofia, ciência e arte.
Hoje, suas muralhas de pedra âmbar, entalhes desgastados e afrescos do século XIV brilham em cores vibrantes. As pinturas retratam santos armênios, cenas bíblicas e benfeitores locais — oferecendo aos visitantes uma rara janela para a vida espiritual e artística da Armênia medieval.
“Tatev é mais do que um mosteiro do século IX; é um lugar vivo,” diz Anna Arshakyan, do Centro de Informações do Mosteiro de Tatev. “Os visitantes ficam em nossas casas, tomam café conosco e conhecem nossa cultura. O turismo traz prosperidade, sim, mas também reforça os laços entre moradores e viajantes. E no coração de tudo isso está o padre Mikayel. As pessoas vêm de longe só para conhecê-lo. Sem sua devoção, Tatev não seria o que é hoje.”
O padre Mikayel representa o elo humano que conecta o sítio milenar de Tatev ao presente. Visitar um mosteiro que ainda pulsa de vida é muito mais do que fazer turismo: é testemunhar a continuidade de uma fé viva.
Mosteiro de Noravank – Sul da Armênia
Ao norte de Tatev, cerca de 120 quilômetros ao sul de Yerevan, o dramático desfiladeiro de Amaghu abriga o Mosteiro de Noravank, um dos mais impressionantes da Armênia. Emoldurado por falésias vermelhas, o local é especialmente mágico ao nascer e ao pôr do sol, quando a luz dourada reflete nas rochas e nas pedras claras das construções.
Atualmente na Lista Indicativa da UNESCO, as estruturas principais datam do século XIII e exibem um estilo arquitetônico armênio característico. O destaque é a escadaria externa de pedra que leva ao salão de orações do andar superior. Segundo a lenda, a Verdadeira Cruz de Cristo teria sido guardada ali, embora a documentação histórica comprove o papel de Noravank como importante centro religioso, cultural e educacional nos séculos XIII e XIV.
Visitantes mais aventureiros podem explorar trilhas que sobem os morros ao redor do mosteiro, de onde se tem vistas panorâmicas do desfiladeiro e das cruzes de pedra — os khachkars — espalhadas pela encosta.
Mosteiros de Sanahin e Haghpat – Norte da Armênia
A paisagem espiritual da Armênia se estende por todo o país. Ao norte, encontram-se os mosteiros “irmãos” de Sanahin e Haghpat, do século X, dispostos em lados opostos do desfiladeiro de Debed. Juntos, formam outro Patrimônio Mundial da UNESCO, que reflete o legado duradouro da fé, do conhecimento e da maestria arquitetônica armênia.
Fundado por um rei, Sanahin, e por uma rainha, Haghpat, os dois locais mantêm uma rivalidade amistosa. Diz-se que o nome Sanahin significa “este é mais antigo que aquele”, enquanto Haghpat significa “muro enorme”, fazendo alusão às fortificações monumentais do mosteiro. Na Idade Média, ambos se tornaram centros de aprendizado: Haghpat ressoava com estudos de filosofia, lógica e ciências, enquanto Sanahin era conhecido por sua música e pelos monges calígrafos e iluminadores.
O estilo eclesiástico bizantino desses mosteiros revela semelhanças marcantes. Pátios com arcadas de pedra conduzem a khachkars esculpidas com incrível precisão. A arquitetura de ambos reflete uma tradição monástica compartilhada e um período de grande florescimento cultural.
Para os aventureiros, antigas trilhas ainda conectam os dois mosteiros pela Rota do Patrimônio Mundial, um percurso linear de 10 quilômetros (cerca de quatro horas de caminhada), sinalizado por marcos de pedra instalados pela Associação de Caminhantes da Armênia. Caminhar por essa rota histórica oferece uma conexão tangível com os monges que faziam esse mesmo trajeto séculos atrás durante cerimônias e festivais religiosos.






