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EDITORIAL: Vidas sacrificadas e o desespero dos indígenas

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Armênios - Indígenas

Meses atrás o Portal Estação Armênia se posicionou claramente contra a injustiça que atingiu as famílias da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos. Expulsos de suas casas e jogados ao desterro, eles também foram vitimas de um crime como o povo armênio, massacrado durante o genocídio de 1915 perpetrado pelo governo turco.

Na última semana, meios de comunicação e redes sociais, divulgaram amplamente a trágica situação dos índios Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul. De forma trágica, a justiça decretou o despejo desse povo das terras que eles ocupam, para dar espaço a grileiros inescrupulosos.

Em uma carta desesperada, os índios afirmam que somente sairão dessas terras todos juntos e mortos, fato que chamou a atenção da mídia, já que se trata de mais um povo que vai desaparecer. Nos últimos 15 anos, somente desse grupo, foram 555 índios que se suicidaram pelo desespero em ver suas terras usurpadas por invasores. O maior número de suicídios entre os indígenas brasileiros.

O Portal Estação Armênia se coloca ao lado dos indígenas e se solidariza com o povo guarani por essa tragédia. Nós (de origem armênia) não podemos aceitar tal situação, já que atingidos por um genocídio, tivemos antepassados que sofreram com o desterro e da mesma forma entes queridos que foram impelidos ao desespero do suicídio.

Essas histórias que sempre nos entristeceram nossos lares, foram estudadas em um importante artigo de 1992 dos pesquisadores Donald E. Miller e Lena Touryan Miller. Eles buscaram as narrativas de filhos sobreviventes do genocídio sobre o suicídio de suas mães nas caravanas para o Der El Zor. Esse artigo está no livro “The Armenian Genocide:History, Politics and Ethics” editado pelo internacionalmente reconhecido Professor Richard Hovannisian.

Mães armênias se jogando nas correntezas do Rio Eufrates para que seus filhos não tivessem que dividir o pouco alimento com elas. Mães armênias que se jogavam em precipícios para chamar atenção das tropas turcas e permitir que seus filhos fugissem. Mães armênias que corriam para cima das baionetas turcas apontadas contra seus filhos.

Não podemos aceitar essa situação. Hoje a Causa Armênia é a mãe de todas as causas humanitárias. Aqueles que lutam pelo reconhecimento do genocídio o fazem também para evitar que outras tragédias como essas ocorram. Todo apoio e solidariedade ao povo Guarani-Kaiowá.

Abaixo leia a carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil:

Nós, (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.

Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.

Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira.

A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós.  Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.

Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.

Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para  jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.

Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.

Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay


Comment(3)

  1. lamentavel o editorial sobre o tal de pinheirinho.um total desconhecimento da justiça,por parte de quem escreveu tao desinformativo que e´.o articulista demonstrou um total desconhecimento das noçoes basicas do direitol de propriedade..parece ser engajado em movimentos sociais de cunho comunista.encampados pelos lulopetistas de plantao . o portal estaçao armenia deve analisar profundamente em todos os aspectos.para nao perder a credibilidade que todos nos almejamos

  2. Ótimo editoral!!!
    E, além do descaso com os indígenas, o caso do Pinheirinho foi outra vergonha…. concordo plenamente com o Portal!!!
    o direito de propriedade de 1 só homem, que já possui inúmeros bens e propriedades, poderia muito bem ser sopesado na ponderação em prol de inúmeros outros direitos fundamentais como direito à moradia, à saude e à dignidade humana (o maior de todos e a base de toda nossa CF).
    Com todo o respeito ao comentário acima, mas no Direito de hoje em dia, não se pode mais aceitar o direito à propriedade como um direito absoluto (foi-se o tempo do Liberalismo absoluto da Revolução Francesa ou do início dos EUA), hoje vivemos o Neoconstitucionalismo, onde o principal princípio, como já abordado, é o da dignidade da pessoa humana.
    O governo tinha muitos outros mecanismos para contornar a situação, como desapropriar o prédio para as famílias de 3 mil pessoas, que construíram tudo lá e hoje ainda estão sem lar para morar (a Defensoria Pública em São José dos Campos luta em nome de todas essas pessoas), e conceder uma indenização para o Sr. Nahas que com todos os seus inúmeros imóveis e patrimônio não tem ideia do que é passar um dia na pele de uma dessas pessoas (repito: ainda sem lar para morar, muitas nas ruas).
    E essa opinião não se trata de qualquer opção político-partidária, mas sim de um senso racional, de justiça e bom senso, embasado no que diz nossa CF.
    Enfim, quis somente deixar o meu comentário e parabenizar o Portal Armenia mais uma vez!!!
    Obrigado!

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