A Armênia registrou em 2025 um número recorde de pedidos de cidadania: mais de 32 mil, o maior em toda a história da república, impulsionado sobretudo por armênios étnicos que vivem na Rússia. Segundo o vice-ministro do Interior em exercício, Armen Kazaryan, o total superou 20 mil em cada um dos dois anos anteriores, contra 7 mil a 8 mil nos períodos mais antigos.
Para as autoridades, a principal motivação dos solicitantes é obter um documento que facilite viagens. “Observamos certos desdobramentos, em particular a eclosão das hostilidades na Ucrânia e as restrições de viagem impostas a cidadãos russos. Depois disso, vimos o aumento nos pedidos de cidadania armênia”, afirmou Kazaryan, acrescentando que a maioria dos cidadãos russos que recorrem ao passaporte armênio é de origem étnica armênia.
Kazaryan rejeitou a ideia de que o processo seja complicado para esse grupo. Segundo ele, as exigências para armênios étnicos são “zero”, limitando-se a eventuais dificuldades administrativas, como a falta de documentos que comprovem a ascendência. Essa ausência de requisitos, porém, é vista como um problema pelo próprio vice-ministro, que considera que ela esvazia a instituição da cidadania. O governo prepara um projeto de emendas legislativas sobre o tema, ainda sem detalhes divulgados. Uma proposta semelhante chegou a ser formulada em 2022, exigindo que armênios étnicos tivessem passado ao menos 60 dias no país nos dois anos anteriores, mas nunca foi levada ao parlamento.
Nem todos os beneficiados, contudo, são o que se costuma chamar de “compradores de passaporte”. A maioria das 14.770 pessoas que receberam a cidadania no primeiro semestre de 2026 era formada por refugiados de Artsakh (Nagorno-Karabakh), segundo a chefe em exercício do Serviço de Migração e Cidadania, Nelli Davtyan.
Os números vêm acompanhados de uma virada migratória histórica. Em 2025, pela primeira vez desde 2010, a Armênia registrou saldo positivo entre entradas e saídas de seus cidadãos, de 8.660 pessoas. No primeiro semestre deste ano, esse saldo já era positivo em 1.347, com 871.409 entradas e 870.062 saídas, algo que Davtyan classificou de “excepcional”, já que a diferença costuma melhorar apenas no segundo semestre, quando retornam os trabalhadores sazonais. Nos mesmos períodos de 2025 e 2024, o saldo havia sido negativo em 20.065 e 22.893, respectivamente. A Rússia, antes principal destino da mão de obra armênia, perde atratividade, enquanto muitos migrantes voltam para casa ou buscam oportunidades na Europa.
A mudança levou o país a deixar de ser apenas exportador de migrantes para se tornar também receptor. O Serviço de Migração e Cidadania recebeu 9.534 pedidos de autorização de residência temporária de um ano, dos quais 6.059 foram aprovados, quase o triplo em relação a anos anteriores. Os pedidos de residência de três anos também cresceram, de uma faixa de 1.500 a 1.700 para 2.085 no primeiro semestre.
No plano externo, a Armênia avança no processo de liberalização de vistos com a União Europeia, iniciado com o diálogo aberto em setembro de 2024 e o plano de ação entregue por Bruxelas em novembro de 2025. O país recebeu em maio de 2026 seu primeiro relatório de avaliação, considerado positivo. Das 53 recomendações apresentadas pela UE, um grupo de trabalho armênio derivou uma lista de 117 ações, mais da metade já concluídas. Essa primeira etapa abrange apenas legislação e formulação de política, a avaliação de sua implementação é esperada para o início de 2027 e, se o resultado for positivo, terá início a segunda fase.
A mesma população de armênios radicados na Rússia que hoje impulsiona os pedidos de cidadania esteve também no centro de uma disputa política interna recente. No último dia 3 de julho, o parlamento aprovou uma lei que dificultou o voto de cidadãos residentes no exterior, em meio a relatos de que Moscou tentaria usar armênios que vivem na Rússia para influenciar as eleições de junho.