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"A Bala", um conto sobre Ruanda

Os leitores do Portal Estação Armênia já se acostumaram a encontrar por aqui textos, reportagens e entrevistas que abordam o genocídio armênio por diversos prismas, de modo a compreender a complexidade deste terrível crime contra a humanidade e suas implicações no tempo presente.

Um dos principais desdobramentos do genocídio armênio foi  servir de modelo para outras práticas semelhantes: judeus, ciganos, cambojanos, bósnios, tutsis, dentre muitos outros, infelizmente. Nesse sentido, na semana que marca o 20º aniversário do genocídio em Ruanda, o Portal Estação Armênia tem o prazer de compartilhar com os leitores o conto A Bala, redigido pelo jornalista e fotógrafo ruandês Ubaldo Rafiki. A leveza da escrita do autor contrasta com a dureza da história/estória do genocídio em Ruanda que destruiu famílias inteiras e dividiu um país, mas que consegue se reerguer graças ao reconhecimento, justiça, punição e educação.

A tradução para o português é de Vivian Ribeiro Vieira e o original em inglês pode ser encontrado clicando aqui. O conto faz parte de uma coletânea.

Boa leitura!

A BALA

Meu pai morreu outro dia, na hora do almoço. Um tiro na cabeça. Caminhou através dos milicianos e sussurrou alguma coisa. Depois, deu um passo para trás e cuspiu na cara de um deles e gritou alguma coisa que não escutei muito bem. O miliciano o encarou por um momento, levantou o rifle e disparou dois tiros. Dois. Duas vezes. Na cabeça. Meu pai se sentia bem aí, no parque de jogos. E me pergunto o que meu pai teria dito ao miliciano.

Depois, alguns senhores, homens mais velhos como meu pai se dirigiram ao miliciano. “Atire na gente também! Atire!”. Um ofereceu dinheiro. Outros suplicaram.

O miliciano continuou parado ali, em silêncio, em frente ao corpo do meu pai, observando os senhores se afastando um a um, suplicando que lhes disparassem. Um deles disse: “você pode ter minhas duas filhas essa noite se você atirar em mim”.

“Velho estúpido. Você sabe que eu odeio essas brincadeiras. O que você vai fazer por mim?”

O senhor não disse nada. O miliciano o encarou fixamente. O senhor olhou para baixo.

O miliciano disse: “Você sabe muito bem que eu poderia dormir com elas quando quisesse. Não preciso da sua autorização.”

Podiam-se ler os olhos do homem. Ele devia ter chorado. Embora seus olhos não estivessem molhados. Tampouco o escutei chorar. Os homens de Ruanda não choram. Só as mulheres e as crianças choram.

Outro idoso ficou na frente do miliciano, suas gordas barrigas quase se tocavam. O senhor disse: “Então, Vincent disse que você é um cachorro? Que sua mãe deve ser ter visto muitos homens em sua vida?”

O miliciano o golpeou.  O homem caiu perto do corpo do meu pai. Ele olhou pra cima e disse: “Ele te chamou de cachorro, não é mesmo? Porque você é um cachorro imundo. Sim, você é.”

“Mzee”, o miliciano se inclinou e sussurrou: “As regras não mudaram. Só usamos o facão.” E então, ele disparou no ar. “Aí está a sua bala, velho estúpido. Está feliz agora?” O miliciano riu. “Agora, saia da minha frente!”

Todos saíram, um a um, e voltaram a seus quartos. Primeiro fecharam as portas, e depois as cortinas.

Sentia-se o silencio por todo o lugar. Nenhum ser se movia. O vento parou de soprar.  O campo de jogos estava vazio. Para onde foram todos os refugiados?

E uma voz vinda do Oeste: “Ei, você. Sim, você, garoto… Saia daqui.” Foi um miliciano. Ele ainda estava ali, plantado no mesmo lugar, em frente ao cadáver do meu pai. Eu estava na mesma posição que quando dispararam no meu pai. Minhas mãos soltaram alguma coisa que caiu no chão. Bateu numa pedra e soou. Foi a pequena tigela que tinha o almoço do meu pai. Senti como se voltassem meus sentidos. Olhei para o meu pai prostrado no chão e, em seguida, ao miliciano parado com sua arma e um sorriso no rosto. Assustado, corri.

Fui ao meu quarto e me sentei aí. Não sei o que fiz. Fiquei com o olhar parado. Olhei para o nada. Num primeiro momento, as lágrimas caíram lentamente. Depois, comecei a soluçar. Mas eu tinha que encontrar a mãe para dizer a ela o que havia acontecido. Limpei minhas lágrimas e estava pronto para sair. Então, eu vi que minha mãe estava ali. No meu quarto.

“Há quanto tempo estava aí?”. Sua presença me incomodou. Não sei por quê.

“A bala foi para ele?”, perguntou. Não disse nada.

“Sei que era para ele, não é? Não vejo a bolsa nem a tigela. Assim que sei.”

Desde o dia em que chegamos aqui tem sido uma grande operação levar o almoço ao meu pai. Ele ficou na parte do campo de refugiados reservado aos homens. Eu fiquei na parte reservada às mulheres e a seus filhos. Nunca nos encontramos como uma família. Os pais raramente veem os filhos deles. As mulheres nunca veem seus maridos. Mas meu pai precisava do seu almoço. Ele tinha uma doença terrível no estômago e ele sempre tinha que ter um almoço especial.

Minha mãe cozinhava como sempre fazia em casa. Mas agora nós estávamos em um acampamento de refugiados. As coisas mudaram.

Eu podia ver o rosto da minha mãe enquanto cozinhava o almoço do pai. Ela estava sempre perdida em pensamentos ou algo assim. Imagino que ela se perguntava se e quando terminaria a dor. Ou talvez, ela estivesse pensando sobre o dia em que morreríamos. Eu não sei. Nunca perguntei pra ela. Tenho pensado muito sobre isso.

Assim, a cada hora de almoço, eu tinha que ir através da grande cozinha do campo de refugiados. Era constrangedor. Todos os cozinheiros me olhavam parecendo dizer: “Você menino especial, com um almoço especial para um pai especial”. Depois de todos os olhares, eu continuava através da grande biblioteca, atravessava o enorme e empoeirado campo de jogos, e em seguida, atravessava o cheiro dos sanitários danificados e todo o caminho até a outra extremidade da pequena capela, onde meu pai e outros homens estavam vivendo nesse campo de refugiados, este acampamento que tinha sido não há muito tempo, uma escola.

Enquanto comia seu almoço, meu pai e eu conversávamos. Ele estava chateado. Continuava me perguntando se eu tinha dormido bem.

Eu dizia: “Sim”.

Ele perguntava como minha mãe estava passando. E eu dizia: “Ela está bem”.

Eu nunca perguntei nada dele.

Todas as vezes que eu voltava, minha mãe fazia o mesmo tipo de perguntas. “Como está seu pai? Ele gostou do almoço? Ele disse alguma coisa sobre ele?”

Um dia meu pai me disse que sentia falta de estar com a gente, as crianças. “Eu sinto saudade da sua mãe também”, disse ele. Quando eu contei pra minha mãe, ela sorriu. Isso a fez bem. O sorriso. Foi agradável.

Agora, enquanto eu contava pra ela o que havia acontecido com meu pai, ela escutava, em silencio. Em seguida, ela olhou para mim e disse: “Agora, você é um homem. Não chore de novo.” Ela se inclinou sobre mim e começou a sussurrar: “Agora me escute com atenção. Seja lá o que for que tenha visto não saia dizendo para seus irmãos e irmãs. Diremos que seu pai foi sequestrado ontem à noite e não sabemos o que aconteceu com ele.”

“Mas mãe”, eu levantei a voz.

“Mantenha sua boca fechada e me escute”.

“Mas você sabe que era o seu aniversário de 50 anos. Enquanto eu levava o almoço pra ele, todo mundo me dizia que desejasse felicidades. Todo mundo! Inclusive você. O que vai fazer com isso? E as roupas boas que você passou e que pensava que ele deveria ter com ele para se sentir bem no dia do seu aniversário? Que eu vou dizer? E sobre a tigela?”

“Ouça-me. Você não vai dizer nada. O que você viu é agora entre você, seu pai e eu. Não me importa o que você pensa. Eu estou te dizendo, você não vai dizer nada.”

“O que eu vou dizer?”

Ela parou por um momento, depois olhou para mim. “Espere aqui.” Ela pegou a chave, fechou a porta atrás dela, e saiu.

Eu fiquei lá determinado a não chorar de novo.

Quando ela voltou, me diz que tudo estava resolvido. “Esta história é passado. Você não precisa dizer nada de novo.”

“Por quê?”

“Mugabo, não seja estúpido. Você sabe que todo mundo vai perguntar como você sabe disso.”

Eu olhei pra ela.

“Você não percebe que todo mundo que é pego pela milícia reza para que não seja cortado até a morte como uma vaca? As pessoas aqui rezam pela bala. Seu pai teve sorte. Eu fico feliz por ele. Mas a maneira como ele morreu é uma maldição para nós. Se tivesse desaparecido como qualquer outro homem, nós teríamos sabido em uma manhã qualquer que ele se foi. Morto como qualquer outro dos casos que escutamos todo o tempo. Deveríamos escutar está noite sobre sua morte como escutamos de todos aqueles outros que são abatidos”.

Eu quase chorei, mas consegui ser um homem como ela me disse para ser. Talvez ela tivesse que me dizer para ser uma mulher, como ela. Ela não chorava.

Ela disse: “Nós deveríamos usar aquelas terríveis horas da noite para tentar reconhecer sua voz, como as outras famílias estão fazendo todas as noites. Nós deveríamos ser como todos os outros. Mas agora todos saberão que seu pai tem a bala. Nós seremos isolados. Eu não quero que nesse acampamento falem da gente. Então, vamos manter uma pedra sobre essa história e as pessoas compreenderão que nós sabemos quanta sorte tivemos. Eu espero que o silêncio ajude as pessoas a entender que compartimos com suas próprias perdas. Eu desejo que cada viúva entenda que cada homem que perdemos todas as noites, que a voz de cada homem que escutamos no meio da noite é também o meu homem.”

Ela acariciou meu ombro. “Mas vamos encarar a realidade. Vamos ser vistos como sortudos. Lembre-se de suas tias dizendo o quanto eu tinha sorte por ainda ter um marido. Como se teu pai não fosse o irmão dos seus maridos. Agora dirão que eu tive sorte que ele tenha recebido um tiro. Elas sempre se queixarão disso. Você entende por que deve ficar com boca fechada?”

Fiquei ali sentado, escutando-a. Eu não sei se eu estava triste. Não tenho certeza. Mas sabia que minha mãe disse que era importante e eu prometi a ela manter minha boca fechada. Sim. Fechada.

Meu pai está morto. Nunca o verei de novo. Não sei o que aconteceu com o seu corpo. E não sei o que minha mãe disse para meus irmãos e irmãs. Tenho que esperar para que possa perguntar. Mas eu sou um homem agora. E os homens de Ruanda não choram. Pergunto-me se minha mãe chora. Dizem que as mulheres de Ruanda choram, mas ela não é uma mulher. Não sei o que fazem as viúvas de Ruanda.

Rafiki Ubaldo

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