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Empresa que constrói transformadores elétricos no Canadá transforma vida de refugiados

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Refugiados sírios sendo recebidos pelo Primeiro-ministro canadense Justin Trudeau.

O Canadá é conhecido internacionalmente por receber refugiados do mundo inteiro e, com a crise na Síria, o Primeiro-ministro Justin Trudeau facilitou ainda mais a vinda de refugiados para o país, que até hoje já recebeu 40,081 pessoas.

Mas mais do que recebê-los, demostrar para essas pessoas que elas podem e irão efetivamente fazer parte da sociedade canadense, também é um dos esforços não só de Trudeau, mas da sociedade canadense no geral.

Vindo de armênios, não poderia ser diferente, mas não é só a nossa história que nos obriga a se solidarizar com a temática dos refugiados, os sentimentos de compaixão e amor ao próximo sempre farão parte da essência do armênio e é esse sentimento que inspira não-armênios à se solidarizarem com a causa.

É transmitindo esse sentimento que os canadenses vem demonstrando para o mundo o que muitos países já deveriam ter aprendido, quando bem recebidos, os refugiados só irão contribuir para o país.


Via CBC.CA


Empresa que constrói transformadores elétricos em Vaughan transforma vidas de refugiados

Os co-proprietários da Rex Power, Simon e Levon Hasserjian. Os Irmãos Simon e Levon Hasserjian geraram US$ 60 milhões em receita na Rex Power Magnetics em 2016. O objetivo não foi o crescimento, não tanto quanto a criação de empregos para refugiados sírios-armênios. (Mary Wiens / CBC)

Apenas um ano e meio depois de chegar ao Canadá, Levon Markarian sente-se em casa na área da fábrica do Rex Power Magnetics. Na Síria, Markarian era dono de uma pequena fábrica de ferramentas. Em Toronto, ele está construindo transformadores elétricos e reconstruindo sua vida na fábrica Rex em Vaughan.

A empresa, com quase 300 funcionários, prosseguiu um plano de expansão agressivo em 2016, aumentando as vendas em dez por cento para US$ 60 milhões. A expansão foi baseada em boas práticas comerciais, diz Levon Hasserjian, um dos co-proprietários da planta com seu irmão, Simon, mas o objetivo não foi o crescimento por sua própria causa.

Ao invés disso, era principalmente criar novos empregos para a onda de refugiados que chegavam da Síria.

Traições do campo de batalha

Na zona de guerra em Alepo, a fábrica de Markarian estava na linha de frente e as traições eram comuns. Markarian diz que um de seus antigos clientes que se juntou ao lado dos militantes assumiu a fábrica, forçando Markarian a voltar para a fábrica para terminar uma linha de produção iniciada quando a guerra estourou. Era o preço que Markarian tinha que pagar pelo retorno seguro de sua família ao outro lado de Alepo.

Na área de produção da Rex Power Magnetics, Markarian não tem planos para iniciar outra empresa própria.

“Por que planejar o amanhã? Aqui é diferente”, diz Markarian. “Porque você não tem toda a responsabilidade sobre seus ombros – para sair. Aqui, você apenas trabalha e vai para casa. O próximo dia é novo”.

O novo funcionário da Rex Power, Levon Markarian.
Poucas semanas depois de chegar ao Canadá como refugiado, Levon Markarian (centro) encontrou trabalho que pretende fazer pelo resto da vida. Ele diz que seus novos chefes, irmãos e donos de fábrica, Levon Hasserjian (à esquerda) e Simon, são “como grandes irmãos ou tios” para mim. (Cortesia de Ara Hasserjian)

Nos últimos dez anos, a Rex Power Magnetics trabalhou com a COSTI, a maior agência de assentamentos de imigrantes de Toronto, empregando recém chegados do mundo todo – das Filipinas e do Vietnã à Índia, Paquistão e Sri Lanka e agora da Síria.

“Não conheço outra empresa que tenha chegado a esse nível”, diz Mario Calla, diretor executivo da COSTI.

As contratações mais recentes são os armênios sírios, patrocinados pela comunidade armênia de Toronto, que conquistou milhares de refugiados.

Um modelo para empresas canadenses

Para o COSTI, a parceria com a Rex é um modelo para outras empresas canadenses.

“A Rex Power é uma empresa que se adaptou à realidade dos recém-chegados e é retribuída muito bem por eles”, diz Calla.

Como muitas de suas últimas contratações, os irmãos Hasserjian cresceram em Aleppo. Sua família era sobrevivente do que o Canadá e alguns outros países reconhecem como o Genocídio Armênio. Estima-se que 1,5 milhão de armênios, muitos dos quais foram transferidos para o deserto da Síria pelo governo do antigo Império Otomano, morreram.

Genocídio armênio
Armênios mortos durante o Genocídio Armênio, por volta de 1915. (Wikipedia Commons)

Alguns sobreviventes chegaram a Alepo, uma cidade que Simon lembra como um lugar acolhedor e tolerante.

“Lembro-me de que as igrejas estavam ao lado das mesquitas. Em feriados religiosos, quando era feriado cristão, todos os comerciantes muçulmanos fechariam suas lojas e vice-versa”.

“Nós nunca olhamos para eles como refugiados”

A meio quilômetro de distância havia um campo de refugiados cheio de crianças armênias. A família Hasserjian tinha sua própria casa, mas os irmãos frequentemente visitavam seus colegas de jogo no campo de refugiados.

“Nós nunca olhamos para eles como refugiados”, acrescenta o irmão Levon. “Apenas pessoas que viveram em condições mais precárias”.

Para a família Hasserjian, a educação era uma prioridade. A entrada nas universidades sírias era cara e restrita, então, quando Simon tinha 19 anos e Levon apenas 16, seus pais enviaram-nos para o Canadá para se juntarem à sua irmã mais velha em Toronto. Ambos os irmãos estudaram engenharia na Universidade de Toronto – Simon, engenharia elétrica e Levon, engenharia mecânica.

Hoje, a casa onde eles cresceram em Alepo desapareceu – demolida na guerra – assim como os prédios de apartamentos que abrigavam os recém-chegados da Síria, agora trabalhando na área de produção da fábrica em Vaughan.

Procurando mais vendas

O objetivo dos irmãos para 2017 é perseguir outro aumento de cinco por cento nas vendas e gerar pelo menos mais 15 posições para os refugiados.

“Não apenas armênio-sírios”, diz Simon. “Nós gostaríamos de contratar outros refugiados sírios também” com o conjunto de habilidades certo.

Vrej Adjoydan (centro) escapou por pouco de Alepo. Seu chefe, Simon Hasserjian (à esquerda), apresenta o ex-designer gráfico à Mary Wiens, da CBC, na Rex Power Magnetics. (Cortesia de Ara Hasserjian).

 

Como parte da estratégia para gerar empregos extras, os irmãos reduziram o tempo extra para sua força de trabalho regular.

“Nossos funcionários são parte de como esta empresa funciona”, diz Levon. “Então, OK, vamos fazer mudanças para acomodar esse caminho de crescimento e acomodar mais empregos”.

Em Alepo, Vrej Adjoydan era um designer gráfico e contador, enquanto na Rex ele trabalha na linha, envolvendo bobinas de alumínio e cobre em torno dos núcleos de aço de transformadores elétricos. Como outros colegas de trabalho sírios, ele se sente sortudo por ter escapado com sua vida. A empresa gráfica onde trabalhou foi saqueada por militantes poucos dias antes de escapar. Ele ainda carrega a bala de um atirador que não acertou sua cabeça.

Houri Saraidarion, por outro lado, estudou engenharia elétrica na Síria e, na Rex, conseguiu seu primeiro emprego fora da universidade como engenheira elétrica no campo escolhido.

Simon, seu novo chefe, diz: “até mesmo nos primeiros minutos da entrevista, você poderia dizer que ela seria boa”.

Houri Saraidarion, Rex Power Magnetics
A engenheira elétrica Houri Saraidarion não conseguiu acreditar em sua boa sorte, desembarcando para o seu primeiro emprego no Canadá, como refugiada, na profissão que escolheu, na Rex Power Magnetics. (Mary Wiens / CBC).

Na fábrica, os trabalhadores criam transformadores elétricos para converter energia de uma corrente para outra, alimentando condomínios, hospitais e fábricas em toda a América do Norte – uma metáfora adequada para pessoas cujas próprias vidas foram quase destruídas, transformando o brutal poder da guerra em uma nova corrente na área de produção de uma fábrica em Vaughan.

“São as Nações Unidas aqui”, diz Adjoydan. “Eu tenho muitos amigos aqui. Comemos juntos, nos encontramos juntos, vamos ao restaurante Tim Hortons, tudo. “

Maria Carolina Chaves Indjaian Colaboradora. Carioca da gema que viveu em Curitiba desde criança e agora mora em Toronto. É advogada, formada em Direito pela Universidade Positivo e aficcionada por Direitos Humanos. O coração e o sangue sempre falam mais alto no que diz respeito à Armênia.

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