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Ataque à armênios em Istambul aumentam as suspeitas de um complô

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Por Ipek Üzüm, via Today’s Zaman, – 

Photo: Today's Zaman, Mustafa Kirazlı
A violência contra os armênios em Samatya tem assustado os moradores do bairro. (Photo: Today’s Zaman, Mustafa Kirazlı)

Quatro idosas armênias foram agredidas nos últimos dois meses no bairro de Samatya, distrito de Fatih em Istambul, aumentando as suspeitas de um plano sombrio orquestrado para perturbar a paz entre as comunidades turcas e armênias que vivem na região.

Sultan Aykar, uma idosa de 80 anos, foi atacada na última terça-feira por um homem encapuzado em Samatya, deixando-a gravimente feriada. No dia 06 de janeiro, outra idosa foi agredida enquanto caminhava para a igreja local. Graças à ajuda dos transeuntes, a mulher foi salva das mãos de três agressores. Maritsa Küçük, 85, que vive sozinha em Samatya foi atacada em seu apartamento no dia 28 de dezembro de 2012. Ela foi brutalmente assassinada com várias facadas. Seus objetos de valor foram levados. Ainda, no começo de dezembro, uma mulher armênia de 87 anos também foi atacada em Samatya, em seu apartamento onde também vivia só. A exemplo de Küçük, essa idosa também teve seus objetos roubados e como resultado da agressão, ela perdeu a visão de um dos olhos.

Garo Paylan, um ativista que trabalha para uma organização social civil armênia, declarou para o Today’s Zaman que quando o primeiro incidente aconteceu, o grupo acreditou que tivesse sido um caso isolado. Mas quando os ataques se repetiram, eles começaram a pensar que havia mais do que simples atos de violência. Ante aos fatos, a entidade acredita agora que os ataques são parte de um esquema organizado e Paylan acusa a polícia de ter sido muito lenta na investigação dos incidentes.

“É impossível que um departamento policial não encontre os perpetradores dos crimes apesar da presença de diversas câmeras de segurança no bairro. Nós estamos convencidos que esses incidentes são crimes organizados almejando os armênios. É por isso que a polícia deveria estar mais atenta para esses três ataques. O fato é que nenhuma ação concreta foi tomada para prender os agressores o que nos faz por em dúvida a sinceridade da polícia”, frisa o ativista.

O editor do semanário turco-armênio Agos, Aris Nalcı, disse ao Today’s Zaman que não acredita que os sucessivos ataques que acontecem em Samatya são incidentes isolados. “A polícia diz que os ataques não tem relação entre eles, mas normalmente eles dizem coisas assim para não alarmar as pessoas. Eu acho que há um clima de medo instalado no bairro”.

Nalcı também declara que os criminosos são remanescentes do Plano de Ação “Operação Jaula” (Kafes), um recém-descoberto complô que visava as comunidades não-muçulmanas e alevi, sobre o qual os promotores ligaram com o grupo terrorista Ergenekon – uma organização clandestina escondida dentro do Estado que é suspeita de tentar derrubar o governo democraticamente eleito.

Provocações pelo Facebook

Nalcı disse que uma conta no Facebook foi criada logo após o ataque na terça, contra Aykar. Ele afirmou: “Eu vi uma conta de facebook que foi aberta com o nome de Sultan Aykar. A foto do pertil da conta chamava a atenção e era muito provocativa. A foto era um texto branco em um fundo preto no qual se podia ler: ‘Ela está fora’. O que chama mais atenção é que a conta tinha 177 seguidores. A polícia pode seguir essa conta e descobrir quem fez esse perfil facilmente ou se a conta do facebook tem alguma ligação com os ataques ou não”.

Nalcı também reclamou da lentidão do trabalho da polícia, adicionando que há uma filmagem que mostra o agressor de Aykar. “Ele é visto fumando em frente do prédio onde Aykar foi atacada na terça. A polícia tem um retrato falado do criminosos. Se ele for pego, os outros crimes serão também esclarecidos. Se os ataques foram organizados ou isolados, isso poderá ser determinado no interrogatório do agressor se a polícia pudesse achá-lo”.

O turco-armênio, Vartkes Hergel, falou com o Today’s Zaman e afirmou que os incidentes não podem ser simplesmente assaltos. “Eu ouvi que uma cruz foi marcada no peito de Küçük, que foi brutalmente assassinada no seu apartamento em 28 de dezembro de 2012. Eu conheço pessoalmente alguns parentes de Küçük e por isso eu tive a oportunidade de perguntar se isso é verdade. Eles também confirmaram. Por que um ladrão faria algo assim? Essas coisas nos lembram dos eventos de 6 e 7 de setembro”, disse ele, se referindo aos ataques organizados que foram dirigidos primeiramente contra a minoria grega de Istambul mas também atingiu outros grupos não-muçulmanos em 1955.

Armênios de Samatya vivem com medo

As pessoas que vivem em Samatya estão em pânico com os quatro ataques consecutivos. Em entrevista para o Today’s Zaman, Antranik Yontan – um armênio que vive nesse bairro – disse que os armênios lá tem evitado falar em armênio desde que o primeiro ataque aconteceu no começo de dezembro do ano passado.

“Pessoas de meia-idade e idosas estão com medo de irem a igreja do bairro. Há alguns pensando em se mudar para outro lugar. Um clima de medo prevalece na vizinhança. Os armênios que residem em outros lugares de Istambul também estão preocupados com os ataques. Esses armênios que vivem em outros bairros estão evitando visitar parentes em Samatya. As crianças estão psicologicamente afetadas pelos acontecimentos. Elas também estão com medo”.

Um turco, vizinho de Küçük’s, que pediu para ter sua identidade mantida em segredo, disse ao Today’s Zaman que os turcos do local tem vivido em paz com os armênios por anos sem nenhum tipo de problema. A mesma pessoa afirmou que os recentes ataques tem como objetivo criar hostilidade entre turcos e as famílias armênias e agora os moradores turcos vivem com medo e preocupados com os vizinhos armênios. “Nós não queremos que nada de mal aconteça com qualquer um de nossos vizinhos armênios e sentimos muito pela mulher armênia que foi alvo de tamanha violência em nosso bairro”, lamentou o morador.

O ultranacionalismo turco ressucitou

O diretor da Associação de Direitos Humanos e Solidariedade aos povos oprimidos (MAZLUM-DER) Ahmet Faruk Ünsal, descreveu os ataques como atos “racistas”.

“Esses ataques contra os armênios são parte de uma tentativa de reviver o ultranacionalismo turco, que sofreu uma grande derrota depois do início do novo processo de paz [entre o líder preso do PKK e o governo]”, disse ele, acrescentando: “O governo deveria estar muito atento à esses ataques e deveria investigá-los de forma minuciosa”.

Reação Internacional

Os ataques em Samatya também repercutiram nas organizações armênias dos EUA que enviaram uma carta ao Departamento de Estado requisitando que o governo norte-americano esteja alerta para esses incidentes. A Anistia Internacional também soltou uma nota pedindo atenção para os incidentes.

Associação de Direitos Humanos de Istambul também se pronuncia

A representação em Istambul da Associação de Direitos Humanos publicou na última sexta-feira um relatório sobre os ataques em Samatya. O relatório indica que os ataques não foram meros atos de violência envolvendo assaltos. A Associação também afirmou que os ataque poderia ser parte do que eles chamaram de uma campanha de “limpeza étnica”. O grupo disse que os perpetradores deveriam ser capturados imediatamente e que isso deveria estabelecer os elos do grupo com outras organizações ilegais. O relatório foi enviado para o Ministério de Relações Interiores com o pedido para que os casos sejam solucionados o mais rápido possível.

Comentando sobre o relatório, Rober Koptaş – atual editor-chefe do Agos – disse que é muito cedo para falar dos ataques de forma tão específica e que ainda não há evidências concretas que sugiram que os atos de violência foram parte de um esquema. Entretanto, ele também afirmou que “nenhum político ou órgão governamental lançou algum comunicado ou declaração, o que aumenta a preocupação dos armênios de Samatya. O ministro do interior, o prefeito de Istambul ou o chefe de polícia deveriam dar informações detalhadas para o público sobre os incidentes. As pessoas precisam de tais explicações vindas do alto escalão para ficarem calmas. Agora, as pessoas estão com medo. O ministro do interior deveria estabelecer uma comissão e conduzir uma investigação muito detalhada”, afirmou Koptaş.

[Nota da redação: O Partido “Congresso Popular Democrático” (HDK) organiza uma manifestação contra a violência em Samatya para amanhã, dia 27, as 13 horas (horário de Istambul).]

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