O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, inaugurou no último dia 10 de outubro a mina de ouro de Amulsar, na província de Vayots Dzor, perto da cidade turística de Jermuk, e classificou a abertura como uma “história de sucesso”. É um dos maiores projetos de investimento estrangeiro já feitos no país, parado desde 2018 em meio a protestos ambientais.
A mina é operada pela Lydian Armenia, braço local de um grupo cujo controle passou a firmas de investimento dos Estados Unidos e do Canadá. A empresa detém 75,5% do empreendimento, e o governo armênio, 12,5%. A construção começou em 2016, mas foi paralisada em junho de 2018, quando manifestantes bloquearam o acesso ao local, temendo que o uso de cianeto na extração do ouro contaminasse os rios Arpa e Vorotan e, por consequência, o lago Sevan, a maior reserva de água doce da Armênia. A Lydian sempre negou o risco, alegando seguir padrões internacionais e citando o estudo de impacto ambiental e social que encomendou em 2016.

O bloqueio começou no contexto da Revolução de Veludo de 2018, que levou Pashinyan ao poder, e seu governo evitou removê-lo à força, posicionando-se na prática ao lado dos manifestantes. A paralisação só terminou durante a guerra de Nagorno-Karabakh, em 2020. Um novo estudo, encomendado pelo governo à consultoria ELARD e divulgado em 2019, apontou falhas e omissões na avaliação ambiental da Lydian, mas concluiu que a mina não prejudicaria a ecologia local nem as águas subterrâneas. Depois disso, Pashinyan afirmou, em 2021, que a mina poderia abrir. Em 2024, o governo deu sinal verde e, em fevereiro de 2025, garantiu o pagamento de US$ 150 milhões em empréstimos tomados em bancos armênios para concluir as obras.
Na cerimônia, à qual chegou de helicóptero, Pashinyan apresentou a abertura sem protestos como um modelo a ser seguido em outros projetos de investimento. “Os recursos minerais que hoje se transformaram em ouro diante de nossos olhos pertencem à Armênia e são propriedade do povo armênio”, afirmou.
O governo destacou os números do projeto. Segundo o ministro da Economia, Gevorg Papoyan, a mina deve gerar cerca de US$ 130 milhões por ano em impostos, taxas e royalties e elevar o PIB do país em torno de 1,5%. “Não é apenas uma história de investimentos. É também uma história sobre padrões”, disse. A Lydian prometeu criar ao menos 700 empregos permanentes e produzir cerca de 210 mil onças de ouro por ano. As comunidades de Jermuk, Vayk e Sisian devem receber de US$ 7 milhões a US$ 9 milhões anuais, e a empresa se comprometeu a destinar US$ 5 milhões à criação do Parque Nacional de Jermuk. “Temos uma mina de classe mundial”, disse Hayk Aloyan, principal executivo da Lydian na Armênia.
No mesmo dia, representantes da sociedade civil condenaram o lançamento, classificando-o como ameaça à segurança ambiental e às obrigações internacionais do país, e pediram a suspensão imediata da operação, uma nova avaliação de impacto ambiental e a revisão do apoio estatal ao projeto. Eles lembraram que a abertura ocorre às vésperas da COP17 da biodiversidade, marcada para 19 a 30 de outubro em Yerevan. Em 2020, organizações armênias e a rede CEE Bankwatch haviam recorrido à Convenção de Berna, que recomendou a interrupção do processo, e uma ação movida em 2015 por moradores da aldeia de Gndevaz foi parcialmente acolhida pela Justiça em 2024. Antigos ativistas explicaram nas redes sociais que pararam de protestar por cansaço e razões pessoais, depois de anos de desgaste. A Lydian, por sua vez, já processou parlamentares, ativistas, advogados e até um ministério por se manifestarem contra a mina.
Críticos fazem ainda uma ressalva econômica. Para eles, ao impedir a abertura prevista para 2018, o próprio governo afastou investidores ocidentais, o que levou a Lydian a buscar empréstimos na Armênia com garantias estatais, parte dos acionistas chegou a levar o governo a um tribunal internacional.