A Armênia e o Azerbaijão discutem uma possível troca de enclaves e exclaves ao longo de sua fronteira, como parte do processo de paz, embora autoridades armênias ressaltem que nenhum acordo foi fechado. Em declarações nesta semana, o primeiro-ministro Nikol Pashinyan defendeu que o tratado de paz não deixe “enclaves ou exclaves de nenhum dos lados da fronteira”, com os dois países trocando áreas de tamanho equivalente para formar uma linha contínua.
Pela ideia em discussão, a Armênia manteria Tigranashen (Karki, em azerbaijano), um exclave azerbaijano hoje sob controle armênio, enquanto o Azerbaijão ficaria com Artsvashen (Bashkend), uma aldeia armênia sob controle azerbaijano desde 1992, em vez de devolvê-los aos donos da era soviética. Pashinyan apontou como territórios em questão os exclaves azerbaijanos situados em solo armênio, Tigranashen, Barkhudarlu, Sofulu e Askipara, e o exclave armênio de Artsvashen.

Esses enclaves surgiram nos anos 1920, quando as autoridades soviéticas traçaram as fronteiras internas da Federação Transcaucasiana segundo a composição demográfica, e não a geografia. Com o fim da União Soviética, em 1991, algumas aldeias acabaram isoladas dentro do território do país vizinho. O presidente azerbaijano, Ilham Aliyev, já havia exigido a devolução dos exclaves de maioria azerbaijana.
O secretário do Conselho de Segurança da Armênia, Alen Simonyan, afirmou no último dia 16 de outubro que há conversas sobre trocar Tigranashen por Artsvashen, mas que “não há acordos sobre enclaves e exclaves”. Ele garantiu que o território internacionalmente reconhecido da Armênia, de 29.743 quilômetros quadrados, permaneceria inalterado e que nenhuma terra armênia foi ou será cedida, observando que Artsvashen é um pouco menor que os enclaves azerbaijanos dentro da Armênia somados. O chanceler Ararat Mirzoyan disse que a questão dos enclaves não é obstáculo para assinar o tratado já rubricado e que há um entendimento geral entre as partes, enquanto o vice-primeiro-ministro Mher Grigoryan, principal negociador da demarcação, afirmou que nenhum acordo foi alcançado e não quis detalhar as propostas.
Pashinyan disse ter tido uma “impressão preliminar” de que há uma oportunidade de avançar, a partir de seus contatos com Aliyev no Turcomenistão, onde ambos participaram de uma cúpula ambiental em 9 de outubro. Os dois não tiveram reunião oficial no país, e o gabinete do premiê negou relatos da imprensa russa sobre um encontro à margem com o presidente Vladimir Putin. Pashinyan acrescentou que o trânsito entre os dois países não deve se limitar à Rota Trump (TRIPP).
A proposta gerou reação na oposição. Artur Khachatryan, secretário da bancada da aliança Armênia, classificou a troca como “mais perigosa do que a situação atual”, argumentou que ela poderia deixar a Armênia em pior posição do que simplesmente transferir Tigranashen e exigiu que o governo explicasse sua autoridade legal para negociar tais mudanças. Críticos lembram ainda que, em 2024, a Armênia entregou áreas no norte da região de Tavush ao Azerbaijão depois que Grigoryan havia negado que a pauta de demarcação estivesse em discussão; até agora, o governo não divulgou um mapa, a extensão exata das terras envolvidas nem como o arranjo afetaria as comunidades próximas. O Azerbaijão não se manifestou publicamente sobre as declarações.
As conversas ocorrem após a cúpula de Washington de 2025, intermediada pelos Estados Unidos, que reuniu Pashinyan, Aliyev e o presidente Donald Trump e resultou na rubrica, mas não na assinatura, de um tratado de paz. A demarcação da fronteira e o destino dos enclaves seguem entre os últimos passos antes da assinatura.
