A cena drag clandestina de Yerevan que desafia as autoridades

23 de setembro de 2026

Por: France 24, ENTR e Pulitzer Center (reportagem de Kal Berjikian, Renée Bertini e Malvina Raud)

Em Yerevan, capital da Armênia, uma cena drag underground vive um momento de expansão, com festas clandestinas que reúnem centenas de pessoas. O crescimento, porém, convive com batidas policiais frequentes e com a violência que ainda atinge a comunidade LGBT+ do país, alvo comum de rejeição familiar e de agressões.

Em uma noite de meados de junho, durante o mês do orgulho, centenas de pessoas se reuniram em um clube da capital para assistir a um espetáculo de drag queens. Por segurança, os detalhes do evento haviam circulado apenas de boca em boca e por stories privados no Instagram. No meio da apresentação, uma das organizadoras interrompeu tudo e pediu que o público deixasse o local: uma das artistas havia passado mal e, embora tivessem chamado uma ambulância, os organizadores temiam que a polícia chegasse junto com o socorro. Batidas repetidas já fecharam vários clubes na cidade. “O drag é mais político na Armênia porque somos obrigados a isso. É uma questão de sobrevivência”, diz Leo, um dos principais organizadores.

Molly, como Molly Tok, apresenta-se em Yerevan, Armênia. Imagem de ENTR.

O cenário legal é dos mais hostis da Europa. No Rainbow Map de 2026, da organização ILGA-Europe, a Armênia aparece em 45º lugar entre 49 países, quatro posições acima da Rússia, que fecha a lista. A leve subida na classificação, porém, deve-se à queda de Belarus, e não a avanços internos: a pontuação do país está estagnada há três anos, refletindo, segundo a entidade, a omissão do governo diante de graves violações. A Armênia não tem lei antidiscriminação nem legislação de crimes de ódio que mencionem orientação sexual ou identidade de gênero.

Em 2023, Adriana, uma mulher trans de 28 anos, foi brutalmente assassinada em casa, e seu apartamento em Yerevan foi incendiado. Em 2018, um grupo de cerca de trinta pessoas atacou nove integrantes da comunidade LGBT+ em Shurnukh, vilarejo do sudeste do país, entre eles ativistas e funcionários da Pink Armenia, a maior organização LGBT+ da Armênia. E, em 2012, o DIY, bar que era símbolo das noites queer da capital, foi alvo de um ataque incendiário. A dona, Armine Oganezova, deixou o país após ameaças e se estabeleceu na Suécia. Esse episódio, lembra Leo, “me deu vontade de me esconder… de verdade”, pelo medo de que assumir-se publicamente pudesse custar a vida.

Ainda assim, a cena drag cresceu. Parte da mudança é atribuída à chegada de dezenas de milhares de russos desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Um estudo da Universidade Stanford de 2024 estima que entre 500 mil e um milhão de russos deixaram o país, na maior onda de emigração russa desde 1917. Muitos fugiram da mobilização militar e das sanções, outros são refugiados políticos ou queer que saíram após as leis antiLGBT+ de Moscou. Como a Armênia integra a União Econômica Eurasiática e permite a entrada de russos sem visto, Yerevan tornou-se um destino acessível. Estimativas do economista Aleksandr Gevorkyan, da St. John’s University, apontam que entre 35 mil e 55 mil exilados russos permaneceram no país.

Molly, de 26 anos, foi uma delas. Drag queen na Rússia antes da guerra, ela deixou o país depois que Moscou classificou o “movimento internacional LGBT” como organização “extremista”, o que levou a uma batida no bar onde se apresentava. “Sabíamos havia cerca de uma semana que algo iria acontecer, porque as batidas já tinham começado em outras cidades”, conta. “Contratamos seguranças a mais, instalamos walkie-talkies no camarim, e nossos guardas vestiram coletes à prova de balas.” Ela foi detida durante a operação e depois liberada, mas fugiu do país ao saber que ainda poderia ser indiciada. Parte dos presos naquela noite responde a processos até hoje, mais de dois anos depois.

A chegada dos russos, porém, teve efeito duplo. Para Leo, se tornou socialmente mais aceitável ser visivelmente queer em público, e muitos recém-chegados adotam estilos associados à comunidade, como cabelos coloridos. Mas a tolerância tem limite: “É aceitável se você é russo, mas, se você é armênio e faz isso, envergonha o seu povo”, afirma. Mamikon Hovsepyan, ex-presidente da Pink Armenia, conta que russos tentaram criar seus próprios clubes e eventos, mas a comunidade reclamou da falta de segurança.

O bar Portal, onde Leo se apresentava, ilustra a fragilidade da cena. Aberto em outubro de 2023, fechou oito meses depois. Segundo a dona, Mari Muradyan, vizinhos chamaram a polícia ao ver uma drag queen de saltos altos na porta. “Homem de saia é estranho na Armênia. Para eles, tudo isso é perversão”, diz. A polícia fez uma batida, prendeu dois homens, depois soltos, e o bar acabou fechado a pedido das autoridades. Embora o drag não seja ilegal no país, Muradyan afirma que a polícia costuma revistar esses locais sob o pretexto de buscar drogas. Ela também deixou a Armênia e mudou-se para os Países Baixos.

O fluxo de exilados trouxe ainda um custo econômico. Os aluguéis triplicaram ou quadruplicaram, e proprietários passaram a preferir inquilinos russos, com mais dinheiro em caixa. Sem conseguir sair da casa dos pais, muitos jovens LGBT+ ficam mais expostos à violência doméstica. A Pink Armenia registrou 10 casos em 2022, 22 em 2023 e 38 em 2024, e afirma que o número real deve ser bem maior, já que muitos casos nunca são denunciados. A maior visibilidade também tem levado alguns pais a “detectar” comportamentos e expor os filhos, segundo Hasmik Petrosyan, advogada e ativista da organização.

Apesar de tudo, a cena prospera. Os artistas são tratados “como estrelas” pela comunidade, diz Leo, e os bailes reúnem de 250 a mais de 450 pessoas. O medo, porém, não desapareceu: em 13 de junho, do lado de fora do clube, um grupo de homens assediou espectadores, e uma drag queen foi seguida até em casa por um homem armado com uma faca, escapando ilesa. Leo se diz otimista. “Talvez isso nos torne ainda mais fortes”, afirma. “Não dá para viver o tempo todo com medo, em casa, dentro do armário. É preciso ter coragem e viver de acordo com quem se é.”

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