Armênia dá passo histórico rumo à União Europeia e se afasta de Moscou

28 de agosto de 2026

A Armênia anunciou a intenção de solicitar formalmente a adesão à União Europeia. Falando ao parlamento no último dia 24 de agosto, durante a apresentação do programa de governo para 2026-2031, o primeiro-ministro Nikol Pashinyan afirmou que o país começará em breve o processo de submissão do pedido oficial, num prazo que descreveu como “futuro próximo”.

Pashinyan detalhou uma sequência cuidadosamente calculada. Primeiro, Yerevan apresentará a candidatura, depois, aguardará a resposta de Bruxelas, em seguida, negociará o roteiro de adesão, e só então levará a questão a um referendo nacional. Segundo o premiê, a consulta popular não marca o início do processo, mas um marco intermediário, a ser realizado quando houver clareza sobre a viabilidade concreta da entrada no bloco.

Em março de 2025, o parlamento armênio aprovou, com 64 votos a favor e sete contra, a lei que instituiu formalmente o início do processo de adesão à UE.

Membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), a aliança militar liderada pela Rússia, a Armênia foi pressionada meses atrás a escolher entre permanecer no bloco ou seguir seu próprio caminho rumo à Europa. Pashinyan, que antes considerava prematuro decidir, agora disse que ficaria satisfeito caso a própria organização decidisse excluir a Armênia, pois isso ao menos a libertaria do dilema de sair ou não. Por ora, contudo, o país permanecerá na CSTO até que a escolha “se torne inevitável”.

O premiê traçou um balanço amargo da relação com Moscou. “Por dois séculos”, afirmou, “o entendimento era de que a Rússia seria a garantidora da segurança do povo e do Estado armênios. Mas os acontecimentos de 2021, 2022 e 2023 mostraram que a Federação Russa pode enfrentar sérias limitações para cumprir esse papel.”

O distanciamento apareceu também no terreno prático. Pashinyan pediu a Moscou que renuncie à concessão monopolista das ferrovias armênias para que o país possa integrar sua malha ferroviária a redes internacionais, com o Cazaquistão ou os Emirados Árabes Unidos entre os possíveis investidores.

A resposta russa foi imediata. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, advertiu que o alinhamento da Armênia aos padrões europeus pode desencadear o que chamou de “profundas contradições comerciais” que prejudicariam, antes de tudo, a própria Armênia. Sobre uma eventual saída da CSTO, Peskov afirmou que, se Yerevan já não considera a aliança importante para sua segurança, é livre para tomar a decisão correspondente e deixá-la.

O órgão russo de vigilância agrícola, o Rosselkhoznadzor, restringiu uma lista crescente de produtos armênios, barrando praticamente todos os vegetais a partir de 12 de junho. A Rússia chegou a retirar seu embaixador da capital armênia.

Em declaração conjunta assinada em Astana, em 29 de maio, os líderes de Rússia, Belarus, Cazaquistão e Quirguistão, sócios da União Econômica Eurasiática (UEEA), alertaram que os preparativos armênios para aderir à UE representavam sérios riscos à segurança econômica do bloco. Vladimir Putin, que em telefonema pressionou por um referendo o quanto antes, lembrou que a crise na Ucrânia começou justamente com a aproximação de Kiev à Europa.

Do outro lado, a União Europeia tem sinalizado apoio incomum. Em maio de 2026, Yerevan sediou a primeira cúpula UE-Armênia da história. Poucas semanas depois, no início de julho, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, visitou o país e anunciou um conjunto de medidas para ajudar a economia armênia a resistir ao que descreveu como “coerção econômica” russa.

O pacote incluiu apoio financeiro que elevou o total do bloco a cerca de 288 milhões de euros, além de uma proposta de Medidas Comerciais Autônomas que liberalizariam quase 80% das exportações armênias ao mercado único europeu, isentando-as de tarifas. A ideia é permitir que a Armênia redirecione ao mercado de 450 milhões de consumidores da UE os produtos antes voltados à Rússia. “Vocês podem contar conosco”, disse von der Leyen ao lado de Pashinyan, acrescentando que nenhum país deveria ser pressionado por uma escolha soberana.

A permanência simultânea na UEEA e na UE é considerada incompatível pelo próprio Kremlin, e a economia armênia ainda depende fortemente da energia e da infraestrutura russas. O resultado do futuro referendo é incerto, e o corredor TRIPP enfrenta a oposição frontal do Irã, que vê com apreensão a presença de empresas norte-americanas em suas fronteiras.

O próprio Pashinyan procurou moderar expectativas: o processo de adesão à UE é notoriamente longo, e o país seguirá, por enquanto, dentro da aliança russa.

Fontes :
Armenpress, Euronews, Al Jazeera
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Co-criador do Portal Estação Armênia, engenheiro mecânico e baterista nas horas vagas. Foi a descoberta tardia da própria ascendência armênia que o levou a se dedicar à produção de conteúdo online para a comunidade. Escreve de Toronto.

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