Em 28 de junho de 2026, o gabinete de Israel aprovou, por unanimidade, uma resolução que reconhece como genocídio o massacre de armênios cometido pelo Império Turco-Otomano a partir de 1915. O ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, autor da proposta, resumiu-a em uma frase: “nunca é tarde demais para fazer a coisa certa”.
O problema não está na frase, mas em tudo o que ela omite. Israel conhecia os fatos históricos há décadas (Sa’ar mesmo admitiu que não há disputa real sobre o que ocorreu) e, ainda assim, escolheu, ano após ano, não reconhecê-los. A verdade não mudou entre 1915 e 2026. O que mudou foram os interesses de Israel.
Praticamente toda a cobertura internacional interpretou o gesto da mesma forma. O Le Monde o descreveu como uma represália à Turquia, a NPR, como reflexo da deterioração das relações entre os dois países. Sucessivamente, governos israelenses evitaram o reconhecimento justamente para preservar sua aliança com Ancara, que, por muito tempo, foi um dos parceiros estratégicos mais importantes de Israel na região.
Essa aliança ruiu após outubro de 2023, com a guerra em Gaza. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tornou-se um dos críticos da ofensiva israelense, comparando líderes do país a oficiais nazistas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu revidou chamando-o de “ditador antissemita”. Foi nesse ambiente de hostilidade aberta que a “obrigação moral” centenária subitamente ressurgiu.
O detalhe mais revelador está na própria resolução do gabinete. Sob o título “decisões anteriores do gabinete sobre o assunto”, consta uma única palavra: nenhuma. Cento e onze anos e um milhão e meio de mortos sem que jamais houvesse uma decisão prévia, não por ignorância, mas por uma política deliberada que tratava a verdade histórica como instrumento de diplomacia, e não como um fato moral independente.
Ainda em abril de 2025, questionado sobre o tema, o próprio Sa’ar afirmava que a posição da chancelaria não havia mudado e falava em “tragédia”, não em genocídio. Enquanto negava reconhecimento ao genocídio de um século atrás, Israel foi o principal fornecedor de armas ao Estado que conduziu a limpeza étnica dos armênios atualmente.
Segundo dados de institutos de pesquisa sobre comércio de armas, Israel foi responsável por cerca de 69% das importações de armamento do Azerbaijão entre 2016 e 2020. Munições e mísseis israelenses foram documentados na guerra de 2020 e na ofensiva de setembro de 2023, que esvaziou Artsakh (Nagorno-Karabakh) de mais de 100 mil habitantes em poucos dias. O mesmo país que agora se comove com 1915 municiou o despovoamento de Artsakh em 2023.
Já o Azerbaijão (aliado de Israel e “estado-irmão” da Turquia) emitiu uma reprimenda pública ao parceiro, classificando o reconhecimento como “distorção dos fatos históricos” e pedindo que Jerusalém voltasse atrás. O petróleo azeri, entretanto, segue fluindo para os tanques israelenses.
A carga simbólica do episódio é imensa justamente porque Israel nasceu das cinzas do Holocausto, que encontrou raízes e precedentes no Genocídio Armênio. Uma semana antes de invadir a Polônia, em 22 de agosto de 1939, Adolf Hitler encerrou o discurso em Obersalzberg com uma pergunta: “Quem, afinal, ainda fala hoje do extermínio dos armênios?”
O gesto foi recebido com frieza na Armênia. Em Yerevan, o primeiro-ministro Nikol Pashinyan afirmou não ver necessidade de resposta, dizendo que não interessa à Armênia transformar o genocídio em uma arma política.
Serj Tankian, vocalista do System of a Down e neto de sobreviventes, acusou o governo israelense de hipocrisia por reconhecer o genocídio de seus avós enquanto comete outro em Gaza. “Usar nossa história, nosso genocídio, nossa dor como vantagem política foi a pior coisa que poderiam ter feito aos armênios”, disse o músico. Na comunidade armênia de Israel, as reações oscilaram entre o alívio histórico e o desconforto: “Por um lado, já era hora. Por outro, é triste e bastante cínico”, resumiu Cristina Movsesyan, presidente da União dos Armênios em Israel.
A resolução do gabinete é uma posição do Executivo, reversível por qualquer governo futuro. Para virar política de Estado, precisa ser ratificada pelo Knesset. Em 2019, um debate ministerial sobre o tema foi adiado a pedido de Netanyahu, sob o argumento de que poderia ajudar Erdogan a vencer uma eleição.
Sem a votação do parlamento, a posição de Israel não pode ser chamada de reconhecimento definitivo do Genocídio Armênio. O gesto atual não nasce do entendimento da verdade histórica, mas da conveniência de um momento em que defendê-la passou a ser conveniente.
Veja a declaração completa de Serj Tankian:
“Durante muitos anos, o governo de Israel usou o AIPAC para pressionar o Congresso dos EUA a não reconhecer o Genocídio Armênio, impedindo que o Congresso o reconhecesse devido à sua relação com a Turquia, ao compartilhamento de informações de inteligência com a Turquia, etc.
Hoje, o gabinete de Netanyahu decidiu reconhecer o Genocídio Armênio de 1915, um genocídio que levou Hitler a pensar que poderia fazer o mesmo que fez aos judeus nas décadas de 1930 e 1940.
O fato deste governo, que já está cometendo genocídio em Gaza e no Líbano, ter decidido reconhecer o genocídio dos meus avós é a pior coisa que poderiam ter feito aos armênios. Usando nossa história, nosso genocídio, nossa dor para obter vantagens políticas.
Vão se f****.”


