Cultura

Dentro do Matenadaran: Como especialistas restauram manuscritos armênios antigos

No Matenadaran, o Instituto de Pesquisa de Manuscritos Antigos Mesrop Mashtots, em Yerevan, Anna Khaninyan restaura livros raros que pedem cuidados urgentes.

Seu projeto atual é o lecionário da Igreja Apostólica Armênia, conhecido como Jashots Girk, uma compilação de passagens bíblicas lidas durante as celebrações litúrgicas. O volume à sua frente, de 1785, está danificado: faltam partes da encadernação de madeira, os fios que ligam a capa às páginas se romperam e o couro está gasto.

O Jashots Girk foi publicado pela primeira vez em forma de livro em Veneza, em 1686, e desde então passou por várias edições e revisões.

“Cada livro tem um problema diferente: um foi danificado por insetos, outro pelo tempo, outro pelas pessoas”, diz Khaninyan, que se mudou da Rússia para a Armênia há três anos.

O departamento de restauro do instituto é a última parada dos livros que precisam de reparo e renovação. Eles chegam do depósito e vão primeiro ao laboratório bioquímico, onde biólogos os examinam de perto. Sobre as bancadas, esses volumes de séculos viram “pacientes” à espera de um diagnóstico cuidadoso.

Os biólogos retiram uma amostra para descobrir se o livro está infectado por fungos ou bactérias e que males carrega. Quando algum perigo é detectado no campo microscópico, o volume segue para uma etapa mais profunda de desinfecção.

A parada seguinte é a sala de remoção de poeira e desinfecção. Com pincéis finos, os especialistas retiram o pó acumulado ao longo dos séculos. Depois, os livros são colocados num armário especial, onde o vapor de um líquido à base de plantas penetra nas páginas e limpa o que não se vê. As receitas desses líquidos vêm de manuscritos e livros de medicina antigos.

Amalya Apresyan trabalha no Matenadaran desde 2011. Diz ser uma das felizardas que não apenas veem de perto o patrimônio escrito, mas também podem tocá-lo e trabalhar com os livros todos os dias. É dela a tarefa de organizar os volumes no cofre, limpá-los do pó e levá-los até o departamento de restauro.

“Não consigo descrever o que sinto. Nem todo mundo tem o direito de vê-los assim, tão de perto. Eu cuido deles e os limpo. Temos um patrimônio tão belo e tão rico. É um prazer trabalhar aqui”, conta.

Os livros parecem voltar à vida durante a desinfecção. Só depois de passar por essas etapas é que chegam à mesa do restaurador. Os profissionais costumam se apegar a determinados volumes, a ponto de a despedida ser difícil.

O restauro começa pela pesquisa. Cada livro, impresso ou manuscrito, é examinado. Avalia-se o estado de conservação e define-se o que precisa ser feito.

As partes de madeira que faltam na encadernação são refeitas, papéis rasgados e trechos perdidos das páginas são recompostos com papel japonês importado. O trabalho é minucioso. Os restauradores manuseiam com extremo cuidado as folhas e o couro gastos, preservando todos os fios da costura. As partes restauradas precisam se distinguir claramente do original, para que fique evidente o que foi refeito. Os trechos perdidos do texto não são preenchidos, no lugar cola-se papel japonês da espessura adequada.

Durante o trabalho, os especialistas lidam com vários materiais: papel, madeira, couro, linha e, às vezes, metal. Como nenhuma instituição de ensino na Armênia oferece uma formação em restauro profissional, a equipe do Matenadaran é composta sobretudo por pintores e ourives, gente que ama o trabalho de detalhe.

Muitos manuscritos têm páginas ilustradas, coloridas e douradas. Esses pedem um cuidado ainda maior, às vezes apenas com limpeza a seco, sem água nem outros materiais, com uma esponja macia, para não os danificar.

As páginas danificadas são limpas de colas antigas, usadas anos atrás para “salvar” o livro. Há volumes restaurados décadas atrás que precisam ser refeitos, porque os trabalhos anteriores foram de qualidade inferior.

Os livros impressos também são lavados. Em vez de danificar o papel, a água ajuda a fortalecê-lo, reduz a fragilidade e remove o amarelado. Depois de lavadas, as páginas são secas e, se necessário, alisadas sob prensa, antes de começar a remontagem e a costura. Sobre a mesa, o livro vai aos poucos recuperando a forma original. O tempo de restauro depende da extensão do dano, do tamanho e da espessura do volume, e pode variar de alguns meses a vários anos. Em geral, os especialistas trabalham em vários livros ao mesmo tempo.

O Matenadaran também conta com um laboratório dedicado ao restauro de manuscritos árabes. Quem cuida deles é Karineh Abelyan. Por causa da guerra na Síria, ela deixou Damasco e mudou-se com a família para Yerevan em 2021, abandonando tudo: a casa, a loja e o trabalho.

Em Damasco, fazia o mesmo no departamento de restauro do Museu Nacional. Ao chegar à Armênia, candidatou-se ao Matenadaran e, por falar árabe e dominar a técnica, recebeu a missão de restaurar os manuscritos árabes.

Há anos o Matenadaran usa papel japonês artesanal de alta qualidade para restaurar manuscritos e livros impressos. Como é caro, os especialistas guardam até os menores retalhos e tentam reaproveitá-los.

Arthur Petrosyan e Artavazd Ayvazyan passaram anos estudando diferentes espécies de árvore para descobrir se seria possível obter papel da mesma qualidade com matéria-prima armênia. Em pesquisas feitas com parceiros estrangeiros, encontraram uma espécie de cítrico a partir da qual se pode produzir papel de restauro.

O sonho se concretizou em 22 de maio de 2025, com a inauguração da oficina armênia de papel de restauro no próprio Matenadaran. Ela já produz o papel necessário para conservar o patrimônio escrito do país.

A produção começa no inverno, quando as árvores estão dormentes. Os galhos finos são recolhidos, a casca é separada e os ramos passam por etapas de fervura e processamento até virarem uma massa fibrosa. Essa massa é colocada na água, sobre telas especiais, onde começa a se formar o novo papel.

Petrosyan e Ayvazyan pretendem ampliar a produção para que o Matenadaran possa, no futuro, exportar papel a outros países.

Fontes :
Matérias Relacionadas
Da RedaçãoTudo

Igreja armênia em Van é aberta para visitação

Via News.Am – A Igreja Armênia de São Bartolomeu, localizada na região de Baskale, na…
Leia mais
Da RedaçãoGenocídio Armênio

Livros franceses de História ensinam sobre o Genocídio Armênio

Livros de história franceses recém publicados incluem material contando a história do Genocídio…
Leia mais

Deixe um comentário