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De desobediência civil a violência armada: os acontecimentos políticos na Armênia

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De Armine Ishkanian para o Open Democracy, publicado originalmente em inglês no dia 19 de julho

Artur Esayants / RIA Novosti. All rights reserved
Artur Esayants / RIA Novosti. All rights reserved

No domingo, 17 de julho, um grupo de homens armados autointitulados Sasna Dzrer [em alusão ao herói mítico David de Sassun] tomaram a base da polícia de Erebuni em Yerevan e fizeram vários policiais de reféns. Até o dia da publicação deste texto [19 de julho], a ação continuava, mas havia sido feita pouca análise adequada do porquê da ocorrência desse evento.

De acordo com um pronunciamento feito pelo Sasna Dzrer no domingo, a “exigência primária” é a renúncia do presidente armênio Serzh Sargsyan e o estabelecimento de um novo governo. Demandas adicionais incluem a libertação do colega e camarada-em-armas Jirair Sefilyan, além de outros presos políticos.

O cerco atual a base da polícia em Erebuni está conectado com o recente conflito de quatro dias em Karabakh – o grupo acusa as autoridades de “por em risco a segurança” do país. Eles reivindicam que as formas pacíficas de protestos e mobilização falharam e por isso eles concluíram que “a única forma de salvar o futuro da nação [armênia] e da pátria-mãe é por meio da revolta popular e rebelião armada”.

Não é surpreendente que o governo armênio, políticos da situação e alguns analistas políticos tenham condenado veementemente as ações, tendo alguns rotulado-as, bem como a seus organizadores, de terroristas.

Para ser bem clara, eu não estou de forma alguma aprovando o uso da violência. Entretanto, como uma acadêmica da sociedade civil e dos movimentos sociais, que tem estudado os movimentos da sociedade civil e organizações na Armênia por muitos anos, meu objetivo neste artigo é oferecer um contexto mais amplo e análise dos desdobramentos dos acontecimentos e dos seus fatores causais.

Em outras palavras, eu questiono: porque isso está acontecendo agora e como isso está relacionado com os acontecimentos políticos passados e a mobilização civil/política na Armênia?

 

Quem são o Sasna Dzrer?

A maioria dos homens do grupo do Sasna Dzrer envolvidos no cerco são membros, simpatizantes ou tem ligação com o grupo Parlamento Fundador. O grupo, que era conhecido anteriormente como Movimento Pré-Parlemento, surgiu do movimento Sardarapat em 2012. Desde então, tem defendido mudança no regime e a renúncia de Serzh Sargysan.

Enquanto o Parlamento Fundador inclui pessoas de diferentes trajetórias de vida e de diversas profissões, muito dos Sasna Dzrer são ex-soldados, ou como são conhecidos localmente “guerreiros da liberdade” (azadamardikner) que lutaram na primeira guerra de Karabakh nos anos 1990. Jirair Sefilyan, um dos criadores do Parlamento Fundador, foi preso pelas autoridades em 23 de junho de 2016, acusado de compra, transporte e porte ilegal de armas. Sefilyan é armênio-libanês que se mudou para a Armênia há mais de 20 anos e foi comandante militar na Guerra de Karabakh. Apesar de viver na Armênia por mais de duas décadas, seus pedidos de cidadania armênia tem sido constantemente rejeitados.

Além de mais outros 90 outros ativistas da sociedade civil e políticos, minha equipe de pesquisa e eu entrevistamos Jirair Sefilyan como parte da pesquisa sobre sociedade civil e movimentos sociais na Armênia (2011-2015). Por isso, eu tenho conhecimento em primeira mão de sua visão sobre a situação política na Armênia e o papel do ativismo cívico e político. Entretanto, como todas as nossas entrevistas foram feitas com base nos padrões éticos da London School of Economics (LSE) que garantem anonimato aos entrevistados, não é possível citá-lo aqui.

Dito isso, eu poso identificar algumas das mesmas ideias que ele expôs em discursos públicos. Sefilyan tem sido sempre franco com suas críticas às autoridades, frequentemente pedindo mudança no regime. Junto com a sua equipe no Parlamento Fundador, ele organiza atos e protestos nesse sentido. Foi após um desses atos em 4 de maio de 2015, quando Sefilyan, junto com outros membros do Parlamento Fundador,  Garegin Chukaszyan, Varuzhan Avetisyan, Pavel Manukyan e Gevorg Safaryan, foi preso.

Em resposta a essas prisões, em 6 de maio de 2015, a Human Rights Watch divulgou um comunicado no qual “expressa preocupação que membros do Parlamento Fundador têm sido perseguidos por suas crenças políticas pacíficas e filiações e que as acusações eram intencionadas para interferir no direito de pensamento, expressão e reunião, tal como protegido pela Convenção Internacional de Direitos Civis e Políticos e pela Convenção Europeia de Direitos Humanos, das quais a Armênia é signatária.”

O comunicado vai além ao dizer que o panfleto e propaganda do Parlamento Fundador para o ato pedia “desobediência civil e mudança política pacífica”. Dos cinco, dois desses homens, Sefilyan e Safaryan, ainda estão presos, o paradeiro de Chukaszyan é desconhecido, enquanto Avetisyan e Manukyan estão envolvidos no cerco do Sasna Dzrer a base da polícia em Erebuni. É válido notar que as marchas pacíficas mais recentes organizadas pela libertação de Sefilyan e Safaryan aconteceram em 7 de junho de 2016.

 

Simbolismo e significados

O nome Sasna Dzerer vem do conto épico armênio David de Sassun, cujas origens estão entre os séculos XVIII e X.

A epopeia conta a história de como quatro gerações de homens de uma família lendária, que incluía os irmãos Sanasar e Baltazar, Velho Mher, David de Sassun e o Pequeno Mher, lutaram contra o jugo despótico para libertar os armênios. Essa história é muito popular na cultura armênia e os heróis da epopeia são guerreiros destemidos, que são também ligeiramente loucos ou furiosos (dzour), daí o nome dzerer. Ao invocar essa alcunha, o grupo escolhe um nome que é cheio de simbolismo e carregado de significado. Ao se autoproclamarem Sasna Dzrer, eles pretendem criar ligações com a herança armênia de lutas por libertação e, quiçá, legitimar o uso de armas.

Enquanto armênios tem usado o Facebook para debater se os Sasna Dzrer são heróis ou terroristas, se nós nos distanciarmos um pouco, não poderemos dizer que esses homens parecem personificar o estereótipo do homem ideal ou real na sociedade armênia?

De acordo com esse estereótipo, um homem armênio real é (hiper)masculinizado, heterossexual, protetor destemido e defensor dos fracos (leia-se: mulheres, crianças e velhos). Ao promover esse estereótipo, não tem sido fácil para as autoridades desacreditar esse grupo de homens como eles faziam ao criticar defensores de direitos humanos, grupos LGBTs e feministas.

Enquanto os primeiros usam a língua do nacionalismo e orgulho nacional, os últimos, que falam em direitos humanos e democracia são frequentemente apresentados pelas autoridades e pela imprensa armênia como “arrecadadores de dinheiro” que promovem valores e normas ocidentais/estrangeiros.

 

Contextualizando o cerco

Nos últimos seis anos, houve um grande número de de iniciativa civis na Armenia que demandavam maior democracia e justiça, desafiando o que viam como um regime oligárquico reinante e criticando abusos dos direitos humanos e da lei. Esses protestos e mobilizações civis nos últimos anos foram sobre mineração e questões ambientais, a tomada ilegal de espaços públicos por negócios privados, aumento das tarifas de eletricidade e transportes, privatização de pensões, etc.

As iniciativas civis ganharam apenas, além de significado simbólico, vitórias isoladas. Ademais, graças ao posicionamento abertamente anti ou apolítico de alguns ativistas, esses movimentos fizeram pouco para alterar as desigualdades estruturais e padrões de governança no país. Hoje, 35% dos armênios vivem abaixo da linha da pobreza e há uma ampla desigualdade de renda, enquanto oligarquias continuam a dominar com impunidade e violência.

Lendo o pronunciamento do grupo e assistindo as entrevistas publicadas pelo parlamentar oposicionista Nikol Pashinyan, pode-se perceber algumas demandas similares dos Sasna Dzrer àquelas levantadas pelos ativistas pacíficos, democráticos e legalistas.

Por exemplo, o pronunciamento dos Sasna Dzrer termina com as seguintes frases: “Chegou o tempo de liberdade, dignidade e justiça. Nós somos os donos do nosso país.” A última frase foi cunhada e popularizada por jovens ativistas civis. Esses últimos falavam de democracia e direitos humanos, mas tais discursos estão notadamente ausentes (ao menos no que há publicado) em pronunciamentos em entrevistas dos membros do Sasna Dzrer.

Enquanto rejeitam duramente o uso da violência e armas, julgando a partir de discussões no Facebook, parece que alguns ativistas pró-democracia e direitos humanos discutem que eles conseguem entender a frustração e raiva que guia aqueles homens. Isso é, em parte, porque eles mesmos se levantam contra autoridades insensíveis e abusivas. No dia 19 de julho, um grupo de ONGs de Direitos Humanos da Human Rights House Armenia publicou uma declaração condenando o uso da força, prisão e detenção de “cidadãos pacíficos” que se reuniam nas ruas e praças de Yerevan. Eles pedem um cenário político pacífico afirmando que o uso da força por qualquer lado é “inaceitável”.

Quando minha equipe de pesquisa e eu analisamos os protestos que surgiram na Armênia e no mundo desde 2011, nós analisamos as demandas, motivações e slogans de diferentes movimentos. Nós descobrimos que dignidade, justiça social e democracia foram objetivos amplamente compartilhados por movimentos ao redor do mundo, da Praça Tahrir a Syntagma.

Mas também descobrimos que os protestos tinham falhado sonoramente em alcançar seus objetivos e frequentemente foram ao encontro de governos apáticos que responderam com violência, coerção, penalização e criminalização dos protestos e marginalização das demandas da oposição.

Cientistas socais têm analisado há tempos movimentos sociais e mobilizações, tanto pacíficas quanto violentas, para entender porque tais eventos ocorrem e como eles se desenvolvem ao longo dos tempos. Eles descobriram que nas últimas décadas, assim como hoje, movimentos escolhem diferentes táticas e estratégias. Violência é apenas uma delas.

A questão que permanece é porque esse grupo de homens escolheram usar a violência nesse momento em especial e, mais importe, qual serão as consequências dessa ação violenta para todos aqueles que estão lutando para criar uma Armênia mais democrática, pacífica e justa.

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