Por Ani Avetisyan / OC Media
Na Armênia, o serviço militar é obrigatório, mas, para os armênios LGBTQIA+, a convocação vem carregada de perigos. Diante de um sistema que os classifica como doentes mentais e, ao mesmo tempo, nega e ridiculariza sua existência, não parece haver um caminho fácil.
Para Artak Adam, a ameaça do serviço militar pesava à medida que o aniversário de 18 anos se aproximava. Sendo queer, Artak já conhecia as opções: receber o rótulo de doente mental por causa da identidade e obter a dispensa à força, enfrentar discriminação e violência dentro das Forças Armadas, ou esconder quem era e viver com medo de que isso fosse descoberto.
“Dispensaram-me do exército como pessoa com transtorno mental”, afirma Artak, no café barulhento onde combinamos o encontro. Aos 23 anos, é uma das pouquíssimas pessoas dispostas a falar abertamente sobre a discriminação e a violência que jovens armênios queer enfrentam no caminho até o serviço militar, ou na busca pela dispensa.
“Transtorno de personalidade”
A falta de tolerância com pessoas queer na Armênia não é novidade. Um relatório da ILGA-Europe divulgado no início de 2026 colocou o país entre os mais homofóbicos da Europa, ao lado de Rússia, Turquia e Azerbaijão. O documento apontava a baixa tolerância à população queer, sobretudo em instituições fechadas, como o exército.
Ainda que a violência e a discriminação passem despercebidas pela maioria da população, para quem é queer e para a comunidade as consequências podem ser graves.
O artigo 8 de um decreto do Ministério da Saúde de 2018 isenta pessoas com “transtorno de personalidade” dos dois anos de serviço militar obrigatório a todos os homens armênios acima de 18 anos. É de conhecimento geral que esse rótulo costuma ser aplicado não a quem tem o diagnóstico, mas a pessoas LGBTQIA+.
Embora reconheçam que a prática é errada nos planos legal e ético, ativistas e grupos de direitos humanos da Armênia não combatem a regra: a isenção pode ser o único modo de poupar jovens queer da discriminação e da violência dentro do exército.
Muitos, porém, querem ingressar nas Forças Armadas ocultando a identidade. Alguns desejam servir ao país; outros precisam do “passaporte militar” (documento de quem serviu ou ainda serve) para seguir certas carreiras, no funcionalismo público ou na polícia, por exemplo.
O que os espera no quartel, no entanto, é incerto. Não há estatísticas públicas sobre quantas pessoas LGBTQIA+ servem ou foram isentadas em razão da orientação sexual. Dados sobre casos de violência e discriminação no exército, contra pessoas queer ou em geral, são quase impossíveis de obter, já que o Ministério da Defesa mantém em sigilo uma ampla gama de informações.
Segundo rumores nunca comprovados nem oficialmente desmentidos, conscritos que assumem a homossexualidade durante o serviço obrigatório seriam transferidos para uma unidade militar separada, destinada aos considerados “diferentes”. Muitas dessas pessoas, assim como as que seguem em outras unidades, preferem não denunciar a discriminação que sofrem, para evitar escândalo ou retaliação.
Luiza Vardanyan é advogada da Pink Armenia, uma das principais organizações de defesa dos direitos LGBTQ+ do país. Ela diz ter motivos para acreditar nos rumores sobre uma “brigada queer” no exército armênio. A ausência de informação pública sobre a unidade e sobre o número de soldados servindo, afirma, impede que as organizações compreendam melhor o tratamento dado a essas pessoas.
Segundo Vardanyan, os casos atendidos pela Pink Armenia se concentram em duas etapas: a do alistamento e a do período dentro do exército. “Os casos mais comuns [durante o alistamento] são de discriminação por parte de médicos”, diz ela. “Os conscritos são questionados sobre sua vida sexual, sua orientação e suas preferências.”
Há relatos de maus-tratos a pessoas queer até nos hospitais psiquiátricos para onde os conscritos são encaminhados a fim de obter a isenção. “Houve casos em que conscritos foram obrigados a passar a noite no hospital, ou em que [a equipe] tentou mantê-los ali à força”, conta Vardanyan, lembrando que o exame psiquiátrico é apenas verbal, o que torna a internação injustificável.
“Em outro caso, uma mulher trans procurou a comissão militar para retirar o passaporte militar depois de ter servido como homem, mas foi rejeitada e humilhada. Disseram que o documento não poderia ser entregue porque a equipe ‘não entendia se a pessoa era homem ou mulher’.”
A situação só foi resolvida com a intervenção da Pink Armenia e um apelo ao Ministério da Defesa. Segundo Vardanyan, o ministério trata esses episódios estritamente como violações de direitos humanos, sem considerar a perspectiva de gênero.
Em um dos casos, a Pink Armenia recorreu a um tribunal de Yerevan por violência contra uma pessoa queer discriminada por sua identidade enquanto servia no exército. O tribunal arquivou o processo e, em 2022, a organização levou o caso à Corte Europeia de Direitos Humanos.
Na falta de dados oficiais ou de declarações públicas, o único modo de a Pink Armenia e outras entidades enxergarem como pessoas LGBT são tratadas no exército é quando as próprias vítimas as procuram. Nem sempre as tentativas de ajuda dão certo: Vardanyan conta que um ex-soldado a procurou após ter sido vítima de violência sexual dentro do exército durante a Segunda Guerra de Artsakh (Nagorno-Karabakh), em 2020. Tempos depois, ele rompeu o contato.
“Tratam a gente como tratariam um assassino”
Artak nasceu numa cidade pequena no leste da Armênia. Sabendo que passar pelos exames médicos obrigatórios num lugar “onde todo mundo se conhece” renderia escândalo e abusos contra si e contra a família, decidiu fazê-los em Yerevan.
Os exames médicos dos conscritos começam alguns anos antes do início do serviço militar. Ao longo desse período, eles passam por uma série de procedimentos voltados a identificar qualquer coisa capaz de “comprometer” o serviço militar, inclusive uma orientação sexual “não tradicional”.
Artak conta que a família era relativamente acolhedora, o que ajudou muito. “Mas tenho um pai paradoxal”, diz, sorrindo. Embora ele às vezes fosse violento com a família, foi também com ele que Artak teve “as melhores conversas” sobre a própria sexualidade.
Ainda assim, os problemas familiares e o comportamento do pai deixaram marcas psicológicas, e Artak diz ter dificuldade de se relacionar com “homens armênios tradicionais e patriarcais”. “Eu não conseguia imaginar como falaria com os rapazes [no exército], como comeria na mesma mesa que eles. Achava que iam zombar de mim… que iam me estuprar”, relata.
Para Artak, essa homofobia tão enraizada também é comum em outras instituições, como as prisões. “Em instituições fechadas, ser LGBT não é uma questão de orientação, e sim um status”, afirma, acrescentando que mesmo homens levemente “femininos” viram alvo de discriminação.
Artak sabia desde o começo que não queria entrar no exército: os modos, o jeito de falar, qualquer detalhe da identidade bastava para virar alvo de violência. Aos 18 anos, decidiu que a melhor tática era “não demonstrar fragilidade” diante de possíveis agressores.
A decisão funcionou, diz. Os laços com ONGs e advogados armênios, somados às “ameaças” de tornar tudo público, ajudaram a reduzir as zombarias e o assédio. “Cheguei a dizer aos médicos que abriria uma ONG voltada justamente para proteger os direitos dos conscritos”, conta. “E abri, mais tarde. Mas não sei por que disse aquilo naquele momento”, acrescenta, sorrindo.
Depois que o advogado de Artak entrou em cena, os funcionários da comissão passaram a ser bem mais respeitosos. “Começaram a usar os termos certos comigo, a me tratar bem”, diz Artak, observando que vale registrar o episódio, pois mostra que as instituições são capazes de tratar bem as pessoas queer.
“O problema”, emenda, “é que costumam ver as pessoas LGBTQ como cidadãos de segunda classe. Tratam a gente como tratariam um assassino.”
O exame médico de Artak não envolveu violência física, mas houve maus-tratos psicológicos. Recusando-se a conversar a portas fechadas, os médicos obrigaram Artak, então com 18 anos, a falar sobre a própria identidade sexual com a porta aberta, permitindo que outros conscritos olhassem e escutassem do corredor. “Provavelmente achavam que iam se contaminar se a porta estivesse fechada”, diz, brincando (em partes).
A história não é única entre conscritos queer. Um relatório de 2022 da DiverCity (a organização feminista e LGBTQ+ que Artak prometera criar) registrou vários casos de conscritos ridicularizados ou forçados a falar sobre a vida sexual enquanto outros ouviam, expondo-os a abusos e perseguições depois de deixar a sala de exame.
“Me perguntaram se eu era ativo ou passivo nas relações sexuais”, relatou uma das pessoas entrevistadas pela DiverCity. “Mandaram examinar meus hormônios. […] Minha mãe me obrigou a fazer terapia hormonal por cerca de oito meses: fui injetado com hormônios masculinos.”
Na avaliação final, o assédio continuou. O chefe da comissão fez comentários homofóbicos sobre as roupas coloridas que Artak usava, acusando Artak de vesti-las como “provocação deliberada”.
“Você aprende a esconder a própria identidade”
“Ficou claro desde o primeiro instante que você viveu dezoito anos no seu próprio mundo e, de repente, está num lugar onde te tratam como um objeto”, diz Davit (nome fictício), de Yerevan, sobre o tempo que passou no exército. “E não é só sobre mim.”
Davit escondeu a homossexualidade durante os dois anos de serviço, mas testemunhou o que acontecia com homens queer quando eram expostos. Diz que o medo e a cautela definiram aquele período: precisou ocultar tudo o que o caracterizava: a voz, os modos, os assuntos de que gostava.
O motivo era claro: se fosse descoberto, sua vida nunca mais seria a mesma. Um soldado LGBTQIA+ que servia ao lado de Davit e também tentava esconder a identidade foi exposto por outros pouco depois de se alistar.
“No dia seguinte, reuniram toda a unidade para assistir [à humilhação]. […] O comandante o xingou, insultou e amaldiçoou”, lembra Davit. “Havia cerca de 1.200 soldados ali.” Pouco depois, o soldado foi enviado a um hospital psiquiátrico e dispensado. “A vida dele se partiu em duas.”
Davit conta que era angustiante estar naquele ambiente, sobretudo nos dias seguintes ao episódio. “É como se quisessem mostrar domínio, masculinidade. Você sente medo… Não importa se aconteceu com você, com outra pessoa, ou por qual motivo. As piadas, o bullying […] fazem você se sentir péssimo.”
“Você aprende a esconder a própria identidade. Aprende a ser mais cauteloso e atento.”
Aos 27 anos, Davit diz que não é só no exército que precisou se esconder: a sociedade armênia tampouco é muito acolhedora. Para ele, impedir a entrada de homens queer nas Forças Armadas não é solução, a resposta estaria em mudar mentalidades e educar as pessoas.
“Há pessoas [queer] que realmente querem servir no exército. Elas precisam ter essa chance.”
Reportagem de Ani Avetisyan, publicada originalmente pela OC Media em 8 de agosto de 2023. Adaptada para o português.
