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Entrevista de Serj Tankian para a série “Where I’m From”

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Um dos maiores canais de televisão independentesnão-comerciais dos EUA, o KCET (canal 28 de Los Angeles), publicou recentemente uma entrevista com Serj Tankian (cantor e vocalista da banda System of a Down).

A entrevista – produzida por Juan Devis para o coletivo de artistas do Artbound’s (Southern Califórnia Cultural Journalism) – faz parte da série “Where I’m From“.

Segundo a Artbound’s, a série busca aprofundar a paisagem cultural do sul da Califórnia através de entrevistas em profundidade com músicos, artistas e criadores de outras culturas. Por meio desses retratos, espera-se obter insights exclusivos para a interação entre o local e a imaginação.

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Tradução: Michelle Magarian Mekhalian

Você poderia descrever de qual contexto cultural você veio da sua experiência em mudar para Los Angeles e como isso ajudou a formá-lo como pessoa e como artista?

Meus pais e eu migramos para cá (Los Angeles) em 1975, durante o início da Guerra Civil Libanesa. Houve uma grande quantidade de armênios do Líbano que saíram e vieram para os EUA ou que foram para outros países. Obviamente, existe uma grande comunidade armênia aqui. Então, eu cresci em uma comunidade armênia de Los Angeles, estudei em uma escola armênia até o final do colegial, e, depois, fui para a California State Northridge, aonde me formei. Eu acho que, crescer em uma comunidade armênia e perceber o tipo de hipocrisia que é negar um genocídio muito conhecido, dentro de uma democracia muito conhecida colaborou para me tornar ciente de outras coisas, isso fez de mim um ativista. Eu disse para mim mesmo “quantas outras coisas existem, e são negadas por razões econômicas ou conveniências políticas e escondidas da população porque atingem uma determinada classe de pessoas neste país ou em qualquer outro lugar do mundo?”. Este tipo de pensamento me abriu para muitas causas, sejam elas de direitos humanos, ambientais, em relação aos animais, causas trabalhistas, desigualdades, injustiças. Por isso, algo grande para mim, para a minha vida, é sempre procurar maneiras de criar justiça – pois acredito que isso trás uma beleza nova para o mundo, uma nova cultura.

Como você caracterizaria a cultura da diáspora armênia aqui de L.A.? Existe uma cultura específica que possa ser definida?

A diáspora armênia de Los Angeles veio de diferentes partes do mundo. Muitos dos armênios imigraram para cá vindos da própria Armênia, mas, também, existem armênios vindos de diferentes partes do Oriente Médio, como Irã, Líbano, Síria, Jordânia e Kuwait, assim como da Europa. Existem armênios em Fresno, no norte da Califórnia, que estão aqui ha um século ou mais, como, por exemplo, William Saroyan, conhecido escritor daquela região e daquela era. E, também, existe uma grande comunidade armênia em Watertown (Massachusetts) que fica próxima a Boston.

Os armênios possuem coisas que os mantém unidos. Uma delas é a injustiça que foi perpetrada contra nosso povo, com os 600 anos de opressão sob o julgo do Império-Otomano, que hoje é a Turquia, com o Genocídio Armênio, que foi cometido pelos turcos, etc. Mas, você sabe, tem a comida, a música, as artes, os eventos e uma maneira de viver, um estilo de vida, e um jeito de fazer as coisas.

Como esta experiência influênciou ou definiu a música do System of a Down? Como você acha que ela foi recebida pela sua comunidade  aqui em L.A.?

Eu penso que, com certeza, existe uma infusão de melancolia na música do System desde o princípio, e isso é um traço muito armênio. Sabe, ela não é muito bem definida, em outras palavras, ela é muito bem digerida. Nenhuma das músicas pelas quais somos influenciados é ‘cuspida’ diretamente. Ela é mais bem formada, para depois ser apresentada. Mas eu acho que, com certeza, existe um aspecto disso nas músicas do System. Em termos de tema, nas letras escritas por mim, a injustiça tem, certamente, um papel enorme na composição.

Eu acho que quando o System se apresentou pela primeira vez, todos levaram um tempo para entender o que nós estávamos fazendo, seja a comunidade armênia, ou a comunidade de música de L.A.,em geral. Nósentramos pela esquerda. Nós não estávamos, de qualquer forma, realmente dentro do cenário musical, nós só estávamos preparando o nosso próprio experimento no Valley, e, de alguma forma, construindo-o. Nós tínhamos um armazém como este, e costumávamos convidar alguns amigos para os ensaios e para pequenas festas, e assim construindo o interesse das pessoas. E então, quando tivemos nosso primeiro show, nós realmente tocamos no Roxy in Hollywood, na Sunset Blvd. Eu estava pensando, hoje, no carro, no caminho para cá, quantos músicos em diferentes cidades do mundo tem a habilidade para tocar em um lugar como o mundialmente famoso Roxy, e independente de serem descobertos ou sem serem descobertos, ou qualquer coisa do tipo. Eu acho que algo muito especialem Los Angeles é que nós temos uma herança de música rock, de música em geral, de locais anos 60, e tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, o centro de entretenimento do mundo, tanto em termos de música quanto de filmes, o que é muito importante. Todas as parcerias que faço, são mais fáceis de ser feitas em L.A., porque existem muitos músicos, e tantos outros músicos excelentes. Eu trabalhei com músicos de orquestra em L.A. que são fenomenais porque fazem vários trabalhos para filmes de Hollywoood, e também com músicos de jazz e roqueiros. É um local incrível para este tipo de parcerias e produções. 

Vamos voltar ao System e à influência da diáspora em sua música. Existe alguma letra de música que, em particular, se destaca, em sua opinião?

Não existe uma letra específica que se destaque para mim. Eu acho que elas são o resultado de vários fatores. E, para ser honesto, a música do “System” nunca foi politicamente unilateral ou embasada socialmente. Sabe, nós temos várias músicas humorísticas, outras com elementos dadaístas, filosóficas e com histórias pessoais misturadas. Então, cada uma delas é uma combinação de muitas destas coisas. Mas, como não são muitos os artistas que envolvem política em suas músicas, que escolhem lados de maneira decidida e como a maioria deles quer andar no centro, como políticos, para que assim não percam nada de seu eleitorado, o que artistas não deveriam ter, artistas deveriam ter fãs e amigos, não eleitorado. Eu acho que nós sempre tomamos uma posição e fizemos o que tínhamos que fazer. Isto é, o que acreditamos é o que está em nossos corações, e é o que nós estamos fazendo. Se você gosta, ótimo, e se você não gosta, ótimo! 

Então vamos falar um pouco mais sobre a parte da herança que você falou. De uma hora para outra, você passou a fazer parte desta herança. Existem pessoas em meio a esta herança musical, ou deste tipo de entretenimento que se destaquem como uma influência em sua trajetória?

Tem algumas bandas em que tocamos aqui em L.A., depois que nós passamos a fazer parte do cenário e descobrimos o que todos os outros estavam fazendo. Nós éramos aqueles caras loucos, entrando em cena, pensando “o que? o que diabos estes caras estão fazendo? O que eles são?”. As pessoas pareciam estar ‘gravitando’ em nossa direção, vindo, e nós vendemos um monte de shows por toda L.A., em locais como o Roxy, o Whiskey e o Coconut Teazer, que na época ainda existia. Nossa influência, nossa mensagem, e nossa música começaram a crescer, e foi neste ponto que as grandes marcas comecaram a aparecer. Nós assinamos com a American Columbia, na época a marca era de Rick Rubin. Ele foi uma grande influência, porque ele produziu nosso primeiro álbum. E eu acho que isso teve um impacto enorme na indústria e na mídia. Nós éramos das ruas, e tivemos muita sorte de encontrar um grande produtor que acreditava no que fazíamos. Este foi, definitivamente, um ponto muito importante da trajetória da carreira de nossa banda. Existem, obviamente, muitas pessoas com quem trabalhamos, desde agentes, bons advogados, assim como outros músicos com quem saímos em turnê. É difícil incluir todos eles.

Se você olhar para o passado, talvez exista um grupo de pessoas ou algumas pessoas – um produtor de filmes, por exemplo -. E sempre há aqueles dois, três filmes ou documentários, que assisti e que realmente deixaram uma marca em mim.  

Veja bem, eu não sou deste jeito. Eu tenho vários produtores de cinema favoritos. Tenho vários artistas favoritos. Cresci ouvindo música armênia, árabe, grega, italiana, francesa. Quando vim para os EUA, ouvi músicas Disco, anos 70, Soul, Early Soul, Gótica, New Wave, e então, Metal, Punk, Rock, Hip-hop, Death Metal, Noise, e então Jazz, Música Clássica. Então, não posso nomear, especificamente, as pessoas por quem fui influenciado, seja na indústria da música, ou na indústria do cinema.

Vamos falar sobre o Serj, depois do System of a Down. O que aconteceu com você depois daquilo? Você trabalha muito de maneira dinâmica. Como foi a experiência de tocar ‘solo’?

No aspecto musical, uma das melhores coisas que já fiz foi tocar sozinho, fazendo do meu jeito. Eu sempre digo, todo mundo faz carreira solo antes de entrar em uma banda porque se você não tiver nada a oferecer, você não vai entrarem uma. Obviamentesou conhecido por ter feito parte do System of a Down, mas como compositor, lancei três álbuns, e um CD/DVD ao vivo, com uma orquestra.

(Assista abaixo):

Viajei o mundo em turnê com a minha banda “reserva”, assim como com outras 12 ou 13 orquestras diferentes ao redor do mundo. Compus outros 3 ou 4 álbuns que serão lançados entre este ano e o próximo, desde rock até jazz, eletrônica, e minha primeira sinfonia, que é chamada “Orca”. Minha confiança como compositor aumentou muito e foi além do que era com o System. No System, eu era conhecido, principalmente, como o responsável pelas letras e como vocalista principal, pelo que eu recebi muitos elogios, pelos quais sou muito grato. Mas eu não podia me expressar muito como compositor, porque são vários (integrantes) na banda. Então, eu acho que isso realmente alavancou, e estou muito feliz com isso. Agora, estou fazendo vídeos, e começando a me aproximar do projeto de um filme, que é, provavelmente, a coisa que mais desejo fazer neste ponto da minha vida. Tenho um novo álbum saindo e tudo mais, mas estou gostando, também, da turnê com o System. Esta é a parte bonita. Nós estamos novamente na vida um do outro depois de um hiato de seis anos. Nós viajamos três continentes no último ano, e tocamos melhor e mais próximos do que nunca e houve uma explosão. Eu gosto de poder ter tudo! Gosto de tocar com o System, com orquestras, com os caras da minha banda, de fazer um projeto de jazz com Tigran Hamasyan e alguns outros amigos do álbum de jazz que estou fazendo e que se chama “Jazz-Iz-Christ”, o que provavelmente irá irritar algumas pessoas, mas é bom! Então eu me sinto ótimo, me sinto criativo.

Você chegou aqui em 1975. Como você vê a comunidade armênia agora, quase 40 anos depois?

Em 75, existia uma comunidade armênia muito pequenaem Los Angeles. Agoraela  cresceu para, não sei o número exato, mas é muito grande. Sabe, há armênios em Glendale, Little Armenia em Hollywood, e por todo o Valley, em todo lugar. É provavelmente a maior, se não a segunda maior diáspora armênia fora da própria Armênia. Estas são mudanças, e, obviamente um aumento massivo da população traz consigo mais mudanças. Nos anos 70, eu nunca relacionei Glendale com os armênios, por exemplo, isso porque não havia muitos armêniosem Glendale. Agora, claramente existem! Muitas mudanças ocorreram na comunidade, mas especificamente o que? Esta é uma pergunta difícil de ser respondida.

Quando eu estava com Tigran ano passado, o lugar estava cheio e eu disse “Nossa, você encheu a casa. Isso é fantástico!”. E ele disse, “Sim, mas tem muitos armênios”. Isso me fez pensar de uma forma diferente, que ele não queria ser rotulado como o pianista armênio, ele só queria ser visto como um pianista. Isso ficou claro quando ele fez um comentário como “É ótimo ter meus fãs armênios, mas…”

Você já se pegou remoendo esta mesma questão?

Na verdade não! Isto é, as pessoas tiram conclusões, às vezes, quando me encontram:  “ah! Você é de Glendale!”, e eu digo “Não, na verdade não.” Mas, por outro lado eu nunca remoí muito essa questão porque na época em que os armênios entenderam o que o System of a Down realmente era, o mundo todo já havia entendido o que o System era, de uma maneira ou de outra. Eu não quero me referir ao que pode ser o caso do Tigran, nem fazer hipóteses. Mas os armênios têm muito orgulho do System of a Down, mais do que em termos de fama de uma banda que decolou, mas como uma banda que representou (e representa) os interesses de justiça do povo armênio. Relacionado com o reconhecimento do Genocídio Armênio. 

Você acha que as novas gerações de jovens armênios que estão crescendo aqui – você percebeu – que foram ou estão sendo, de alguma forma, inspirados por você?

Definitivamente. Recebo pedidos o tempo todo para ir dar palestras e coisas do tipo nas escolas e universidades, armênias ou não. De vez em quando, eu vou, embora eu não queira ser um orador por si só. Eu gosto de conversar, mas não de falar a partir de um púlpito. Dizem-nos, a mim e ao System, que nós fomos uma inspiração tremenda para os jovens armênios. Pessoas que passaram por um holocausto ou genocídio são tão inseguras quanto ao estilo de vida dos seus filhos que desejam que eles sejam profissionais, algumas vezes correta e outras incorretamente. O povo armênio é muito artístico e a nossa herança tem muita música, arquitetura, pinturas, e todos os grandes músicos, compositores, arquitetos do Império Turco-Otomano eram armênios. Nós lembramos a juventude e a comunidade armênia daqui que isso é uma de nossas heranças, e que está tudo bem em fazer este tipo de coisa, e que nem todo mundo nasceu para ser médico ou advogado.  Isso é muito interessante também, além da questão do reconhecimento do genocídio, o System tem sido uma inspiração interessante para a juventude armênia.

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