Home Da Redação 30 anos após o Terremoto de Spitak, tragédia ainda está viva na memória Armênia

30 anos após o Terremoto de Spitak, tragédia ainda está viva na memória Armênia

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O tempo parou em 7 de dezembro de 1988 na Armênia

O relógio da cidade marcava 11:41 da manhã, do dia 7 de dezembro de 1988, quando um terremoto de 7,2 graus na Escala Richter atingiu a cidade de Spitak e parcialmente a de Leninakan (atual Gyumri), no norte da Armênia, além de diversos outros vilarejos. O tempo parou ali, mas quatro minutos mais tarde veio o segundo abalo, derrubando as construções que ainda resistiam em um perímetro de 50 km do epicentro (Gyumri). Segundo estimativas governamentais, o tremor deixou mais de 30 mil vítimas fatais.

As baixíssimas temperaturas do rigoroso inverno armênio aliadas a demora no socorro (já por conta do declínio da União Soviética) foram pontos cruciais e impiedosos do resgate, assim como o fato de 80% dos profissionais de saúde da região terem perdido suas vidas durante a queda dos edifícios.

Na época, eu tinha 8 anos de idade e minha família era frequentadora assídua da SAMA – Clube Armênio em São Paulo. Uma das poucas coisas que me recordo em relação a isso era que as pessoas conversavam desoladas sobre o desastre. Mas não só isso! Me lembro também das “montanhas de mantimentos” e roupas que ali se juntavam para serem enviadas de alguma forma à Armênia. Os armênios do mundo todo se uniram, como de costume no que tange nossas questões. Hoje tenho noção e dimensão exata disso.

 

Após o terremoto, o ícone armênio e cantor francês Charles Aznavour (que faleceu recentemente) foi um dos primeiros a se movimentar. Ele reuniu vários artistas da França para gravar o álbum “Pour Toi Arménie” (Por Você Armênia), que teve sua renda revertida para os sobreviventes do sismo. Ele realmente foi um dos grandes armênios até o fim da vida.

Ainda no meio musical, uma curiosidade: um álbum de músicas chamado Rock Aid Armenia foi organizado com diversas bandas do mundo todo para angariar fundos que ajudariam a reconstruir a área. Entre os artistas que participaram do álbum, estão Emerson, Lake & Palmer, Black Sabbath, Asia, Rush, Deep Purple, Bon Jovi, Iron Maiden, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen, Yes, Whitesnake e outras. Uma das músicas lançadas na época e que fizeram parte do projeto era a hoje clássica “Smoke On The Whater”, composta pela banda Deep Purple, e gravada por diversas vozes (veja abaixo).

Os anos posteriores ao terremoto não foram fáceis. Com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas desabavam também as sete décadas de domínio soviético sobre os armênios e suas terras. A milenar Armênia voltava a ser independente e a caminhar com suas próprias pernas. Na outra ponta, para defender sua autodeterminação em Artsakh, o povo armênio entrou em guerra contra o Azerbaijão pela região de Nagorno-Karabakh (encerrada com um cessar-fogo em 1994 com vitória armênia).

Dias difíceis para o povo armênio que mais uma vez, assim como após muitos infortúnios em sua história (perseguições, genocídio, territórios usurpados), mas apegados a fé, superaram as dificuldades e “deram a volta por cima”, como se diz aqui no Brasil.

Passadas 3 décadas da tragédia, o mundo todo ainda se lembra do Sismo de Spitak, como ficou conhecido o episódio. Hoje, programas documentais como os do canal Discovery Channel, falam dos mais devastadores terremotos do mundo, e lá está o Sismo na Armênia como um dos mais mortais da história. A fragilidade das construções armênias foi crucial e determinante para que número de vítimas dessa catástrofe fosse tão grande.

 

Hoje a Armênia está se modernizando cada vez mais, e não só em sua capital, Yerevan. A cidade de Gyumri vem até hoje se reconstruindo a partir das cinzas, e muito se deve ao empenho de seus cidadãos. Ela é a segunda maior cidade da Armênia e a região é considerada um centro cultural, conhecida como a ‘Capital da Arte’. Gyumri possui um povo orgulhoso e feliz, mas que jamais esquece os dias de sofrimento. Em frente a Catedral de São Salvador (Surp Amenapãrguitch), foi erguido um memorial em homenagem aos que padeceram no terremoto.

Em 2018, o cineasta russo Alexander Kott, lançou um longa-metragem baseado nos eventos de Spitak, sem previsão de lançamento no Brasil. O filme conta ainda com trilha sonora composta pelo músico e vocalista do System of a Down, Serj Tankian (veja trailler abaixo).

Intitulado “Spitak“, o longa é a submissão oficial da Armênia à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para concorrer na categoria de “filmes estrangeiros” do Oscar 2019.

Termino essa publicação com um trecho do texto do blog da minha querida amiga e companheira de lutas Nairi Zadikian, que hoje vive em Yerevan, que todavia se encantou com Gyumri assim que colocou seus pés lá.

Esta pequena cidade do noroeste da Armênia abriga pessoas de uma sensibilidade sem igual. O gyumretsi (cidadão de Guymri) parece estar 24 horas por dia numa conexão intensa com nossa própria história. Um povo que dá muito valor à cultura, à dança, à música, à poesia, à dramaturgia, ao esporte. Um povo hospitaleiro e gentil, que até guarda um quê de inocência em seu sotaque e palavreado “interiorano”. Acima de tudo, Gyumri é grata por ter o que tem hoje e por ser quem é hoje. Apesar do triste episódio do terremoto, que devastou a cidade e amargou o coração de muitas famílias, as pessoas são felizes por ser exatamente quem elas são e por pertencerem a este local.”

Catedral de São Salvador (Surp Amenaprguitch) hoje reconstruída

 

Armen Kevork Pamboukdjian Editor-chefe e redator do site Estação Armênia. Nascido na capital paulista, é formado em Jornalismo pela Universidade Nove de Julho, em skate pela faculdade das ruas e em causa armênia pela escola da luta e resistência.

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