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Armênia: Um quarto de século que representa 4 mil anos de história

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[EDITORIAL] 21 de setembro de 2016

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Muita gente não sabe, mas os armênios são um dos povos mais antigos ainda em existência no planeta.

A Armênia é povoada desde os tempos pré-históricos. O país está localizado no planalto ao entorno da montanha bíblica do Ararat, que segundo a tradição judaico-cristã foi o local onde a Arca de Noé encalhou após o Dilúvio.

O Navasart, o Ano Novo pagão Armênio, lembrou os 4509 da existência do povo armênio em 2016. Até os extintos sumérios mencionam as terras armênias, bem como seu planalto e seu povo, em inscrições que datam períodos anteriores a de 2 000 a.C.

Porém engana-se quem pensa que foi obra do acaso ou do destino uma nação da antiguidade chegar até os dias atuais. Muitos dos séculos que compõe essa história milenar da Armênia foram marcados por sofrimento, perseguição e dominação estrangeira de persas, bizantinos e, por fim, dos otomanos.

O Genocídio Armênio, um crime contra a humanidade perpetrado pelo Império Otomano contra o povo armênio em 1915, sem dúvida foi um dos capítulos cruciais do povo armênio em toda essa trajetória. O plano de extermínio completo dos armênios levado a cabo pelos Jovens Turcos que governavam o Império Otomano, vitimou um milhão e meio de armênios inocentes e deixou um incontável número de sobreviventes.

Após anos de sofrimento e morte com o genocídio, além das doenças que assolavam a época, eis que a Armênia se reergue, pela força e no seio de seu povo, e consegue de forma surreal proclamar a sua primeira república, em 28 maio de 1918.

Ainda que  efêmera, a Primeira República da Armênia foi vital por vários motivos, dentre os quais o principal; Se não fosse por esse fato, provavelmente a Armênia não existiria nos mapas da atualidade. A Armênia de hoje possui aproximadamente 20% do tamanho da Armênia Histórica (ocidental), que hoje faz parte principalmente da República da Turquia. Além disso, o maior símbolo armênio, o Monte Ararat, hoje está dentro das fronteiras turcas.

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A República declarada em 1918 é dissolvida três anos mais tarde, em 1921, pelos russos. Como é de praxe, houve grande resistência por parte do povo armênio, mas ainda assim, em 1922, a Armênia é declarada uma república socialista soviética, vindo a se tornar o menor de todos os estados subordinados à União Soviética.

A Armênia passa quase 7 décadas sob domínio do bloco soviético e se torna a primeira ex-república socialista soviética a proclamar a independência, no dia 21 de setembro de 1991.

Assista vídeo da proclamação:

 

Foram os símbolos de 28 de maio de 1918 , o Mer Hayrenik (hino nacional) e a bandeira tricolor, que voltaram com a independência de 1991 quando do fim da URSS. O “Mayis 28” (28 de Maio) veio do seio do povo armênio, da gente que lutou pela Armênia. Ele é a expressão mais límpida da liberdade. Página heroica que não pode ser esquecida jamais, quando um país destruído por um genocídio venceu o exército de um dos maiores Impérios do mundo e retomou a liberdade tão desejada. E por essas e outras temos o que comemorar hoje, em 2016.

Comemoramos hoje os 25 anos de independência da República da Armênia, o maior período de liberdade de sua história nos últimos 600 anos. Comemoramos também a volta da liberdade. Comemoramos a existência de uma nação, a existência de um povo, que mesmo passados mais de cem anos do Genocídio Armênio, aquelas corajosas vítimas que se salvaram conseguiram dar origem a uma das maiores diásporas mundiais, com cerca de 10 milhões de armênios espalhados aos quatro ventos, fato mais do que essencial para a existência dos armênios em pleno século XXI.

A República da Armênia hoje pode ser referida como “a Armênia mais recente “. Tendo em mente os vários antigos e medievais reinos, dinastias e alianças, bem como a efêmera república 1918 e até mesmo a filiação Soviética. Com isso, o número de “Armênias” na história pode variar de cinco a dez.

Foi um sonho tornado realidade para os armênios em todo o mundo voltar a ter a Armênia no mapa. A Armênia Soviética era um país muito fechado, e as relações entre a República Socialista Soviética Armênia e a Diáspora Armênia eram limitadas. Embora o intercâmbio cultural e educacional, bem como o turismo, eles sempre foram ofuscados pelas restrições impostas pelo Kremlin.

Um grande ponto de virada para a mudança foi o devastador terremoto de 07 de dezembro de 1988, que atingiu o norte da Armênia, causando forte dano em torno das cidades de Spitak, Gyumri (então Leninakan) e Vanadzor (então Kirovakan). A resposta humanitária ao terremoto foi o primeiro grande ato de abertura realizado pela URSS. A ajuda chegava de governos e instituições de caridade no Ocidente, a diáspora armênia se unia para descobrir um país que, antes de tudo, precisava de ajuda, mas também um país com o qual a maioria não tinha tido quaisquer conexões reais e profundas desde o Genocídio (ou mesmo antes, no caso de algumas comunidades).

Isso tudo sem mencionar Artsakh e a luta de todo povo armênio contra o desrespeito ao direito da autodeterminação dos povos. Artsakh é uma região historicamente armênia recuperada pelos armênios em 1992, durante a Guerra de Nagorno Karabakh contra o Azerbaijão. O conflito teve um cessar-fogo assinado em 1994, mas convive com agressões diárias (sim, há mais de 20 anos) do exército do ditador Ilham Aliyev, que enriquece às custas de seu povo e de seus petrodólares cheios de sangue e que não deixa o povo armênio viver em paz em suas terras, vide as covardes agressões contra os armênios em abril passado.

Quanto à política e direitos humanos, tem sido um desafio enorme para os armênios desde 1991. A maioria das eleições aconteceram em circunstâncias que eram menos do que livres, com suborno como prática comum. A violência política, tenha ou não a ver com eleições, lançou dúvidas sobre a legitimidade das autoridades em Yerevan mais de uma vez ao longo das últimas duas décadas, como o tiroteio na Assembleia Nacional em 27 de outubro de 1999, e a repressão que se seguiu eleições presidenciais de 01 de março de 2008, ambos os incidentes resultando em mortes.

Apesar desses e outros problemas, a República da Armênia é considerada o lar nacional para os povos armênios dispersos – o ponto de encontro para todos os grupos, facções e diversos representantes de armênios em todo o mundo. Projetos da diáspora na República variam de investimentos empresariais ao trabalho voluntário, a assistência do setor público e infraestrutura, para não falar de atividades artísticas e culturais e laços religiosos.

Parabéns Armênia querida, pelo povo determinado e crente na liberdade e justiça. Que venham mais 4 mil anos de história. Getsé!

 

Armen Kevork Pamboukdjian
Jornalista e Editor Chefe
Portal Estação Armênia

 

 

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