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O conflito no Oriente Médio já não é bilateral; transpassa as fronteiras e as questiona

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No dia 03 de agosto, em sua edição impressa, o jornal argentino La Nacion publicou importante entrevista com Khatchik Derghougassian, PhD em Relações Internacionais e professor na Universidade Americana de Yerevan e na Universidade San Andrés em Buenos Aires.

O espaço aberto no veículo foi mediado pela jornalista Astrid Pikielny, que colheu os esclarecimentos de Derghougassian sobre aumento das tensões no conflito do Oriente Médio.

Veja abaixo, na tradução de Adriana Nazeli Topalian (clique aqui para ler o original).

 

“O conflito no Oriente Médio já não é bilateral; traspassa as fronteiras e as questiona”

 

Especialista em temas internacionais afirma que a ideologia expansionista do islamismo e a “direitização” israelense são eixos de uma disputa cuja solução territorial é chave, mas está longe.

Por Astrid Pikielny  | Para LA NACION

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Foto: LA NACION / Silvana Colombo

 As imagens da Faixa de Gaza se multiplicam, obscenas, a cada dia, todos os dias, faz três semanas, e tornam esse pequeno território num campo bélico, um verdadeiro inferno e uma zona de desastre humanitário: o 50% da população tem menos de 15 anos e o 75% das vítimas são civis, mulheres, crianças e deficientes que morrem n os bombardeios a escolas, hospitais e mercados.

Os bombardeios não descriminam. Em Gaza, a maioria da população é civil e , portanto, a maioria das vítimas são civis. Há que pensar o que é Gaza: também não há refúgios, eles não têm aonde ir. Isto provoca trauma, ressentimento, e é uma caldo de cultura para recrutar e dar continuidade ao conflito“, assegura Khatchik Derghougassian, professor na Universidade de San Andrés, especialista em temas de segurança internacional e Oriente Médio, para quem “o maior perigo nessa região hoje é islamismo e suas ideologias expansionistas“, que postulam uma “interpretação dogmática do Islã”.

Derghougassian -doutor em Estúdios Internacionais pela Universidade de Miami- explica por que a comunidade internacional não pode intervir no conflito de Gaza, e sim os próprios atores interessados, e afirma que para que exista um processo de paz deve haver um governo de unidade palestino, a aceitação desse governo por parte de Israel e o reconhecimento do Estado palestino por parte dos atores mais imediatos: Israel, EUA e os países europeus. Porém, a solução parece longe, não só por o que denomina a “direitização” da política israelense: “O fracasso do processo de paz e as crises internas dos países de Oriente Médio provocaram um conflito que traspassa as fronteiras as questiona. Esse é o problema”, disse.

-Pode se pensar que a origem da guerra na Faixa de Gaza foi o sequestro dos três adolescentes israelenses?

-Não, cada vez há mais evidências de que o sequestro dos três adolescentes foi nada mais que a oportunidade, o argumento ou a desculpa. Desde o primeiro momento, a Autoridade Palestina colaborou para encontrar os responsáveis, mas o discurso do primeiro ministro Netanyahu foi muito taxativo. Disse: “Hamas é o responsável”. De fato, até a policia israelense disse que foi outro grupo extremista, e não Hamas. E, em geral, se for pensar nos conflitos de Oriente Médio, e especialmente si envolvem um processo militar, as causas iniciais depois desaparecem. Salvando as distâncias, é como a Primeira Guerra Mundial com o assassinato do arquiduque Francisco Fernando. Neste caso também: Gaza é uma fixação para Netanyahu e, por outra parte, Hamas também está disposto a reagir em qualquer oportunidade. Então, há uma espécie de acordo tácito de que si se apresenta uma oportunidade, vai haver o que no jargão internacional se chama de “o jogo de galhinha”, ou seja, uma prova na que se ve quem cede primeiro ou quem aguenta mais. Não acredito que este tenha sido o argumento inicial. A escala de violência chega a tal ponto que as causas desaparecem, como si não existissem.

-Quais são os objetivos primordiais de Israel? Ocupar esse território, demonstrar poder, eliminar a Hamas?

-Segundo a declaração de Netanyahu é a desmilitarização de Gaza, e em definitiva, a eliminação de Hamas. O problema é que é um objetivo maximalista que nunca se poderá cumprir-se. Descarto a ocupação de Gaza, porque o custo seria muito alto. Hamas não vai entregar as armas nem vai abandonar Gaza. Portanto, acredito que o mais sincero das declarações de Netanyahu é chamar se preparar para uma guerra longa, uma continuidade do que vimos assistindo há 10 anos. Nos últimos anos, é a quarta ou quinta tentativa de invasão em Gaza. Em qualquer momento há uma trégua ou um cessar fogo, mas enquanto não se resolva o tema fundamental, que é o tema dos dois Estados, não seria estranho que isto se repita a outra escala, em outras circunstâncias. Aparentemente, a estratégia é conter este conflito em Gaza, mas nunca se sabe quando isto pode se extravasar.

-A comunidade internacional condena o conflito, o rejeita e se escandaliza. Mas, que ferramentas tem para poder interceder e freá-lo?

-O conceito de comunidade internacional é muito abstrato e não se sabe bem a que refere. Muitas vezes, pode emitir um juízo moral e ético sobre o que está acontecendo, mas não ajuda a entender e a enxergar uma solução. Os organismos internacionais não intervêm: os que intervêm são os atores e Estados interessados em intervir. Neste caso, a capacidade de intervenção é muito menor que em outros conflitos e depende dos atores envolvidos: Israel, Hamas e a Autoridade Palestina. Além destes atores, evidentemente os EUA é fundamental para qualquer solução imediata ou em longo prazo. Há três países na região com a capacidade e o interesse para intervir. Um deles é o Egito, um ator fundamental, porque não se pode imaginar uma solução sem que o Egito facilite a Gaza essa conexão com o mundo exterior. O outro é Qatar, porque tem um ativismo diplomático. E a Turquia, mesmo que aspire a fazê-lo, sua tentativa tem a ver mais com a intenção de captar alguns votos no seu próprio país. Se não intervêm estes atores, o que façam ou digam os organismos internacionais não vai ter relevância. O que me parece que eticamente se deve pensar, não só no caso de Gaza, é como chegar a essas zonas de desastre humanitário e às populações mais vulneráveis nos conflitos.

– Quem tem liderança moral para fazer algo assim?

-Arrisco-me a olhar Sul América. Arrisco-me a olhar ao Brasil, à Argentina e Chile. Sul América poderia desempenhar um papel nesta perspectiva, não se envolvendo nos conflitos, mas sim atendendo ao problema de desastre humanitário nas zonas de conflito.

-Quanto há de errado nas perspectivas de “bons e maus”, de “culpas e responsabilidades” que se ouvem em algumas análises?

-Não gosto de falar nesses termos, porque lhe tira credibilidade à análise. Não existem culpas, mas você pode ter uma postura favorável a determinados princípios. E um deles, no caso do conflito Israel-Palestina, é o dos dois Estados e direito a existência, em fronteiras com segurança, de Israel. Esse é um princípio sobre o qual se tem que construir o futuro processo de paz em Oriente Médio. Hoje, o maior perigo em Oriente Médio é o islamismo -não o Islã- e suas ideologias ou visões expansionistas, que rejeitam a presencia do outro e que pela força das armas e por determinada capacidade de recrutamento se impõem e servem aos interesses de quem quer culpar o Islã. É um setor que rejeita absolutamente toda presencia que não seja a sua interpretação dogmática do Islã. E repito que isto é diferente de outros contextos islâmicos, onde, pelo contrário, a proteção dos povos do livro-cristãos e judeus-, e determinada apertura cultural é o que caracteriza o Islã. Esta interpretação fechada do Islã, entre outras coisas, lhes nega aos judeus a existência de Israel.

-E nega o Holocausto.

-Logicamente. E eles têm o discurso para avançar com estes temas. Com Ahmadinejad também havia questionamentos sobre o Holocausto e esse discurso anti-Israel. Hoje, há que dizer que, a população mais vulnerável, menos protegida, mais ignorada no mundo são os cristãos em Oriente Médio e o que estão padecendo em Síria, em Iraque. Em Mosul, por exemplo, os cristãos têm três opções: pagar um imposto elevado, converter-se ao Islã ou enfrentar a morte. E mais ainda, estes setores do islamismo não têm respeito nenhum pelo valor cultural do patrimônio da humanidade: destruíram estatuas de Buda em Afeganistão, locais sagrados em Mosul e não têm problema algum em dinamitar mesquitas xiitas.

-Que futuro imagina para Oriente Médio?

-Sinceramente é muito difícil enxergar o futuro neste contexto. Nos anos 90 você podia.

-Por que é mais imprevisível agora que nos anos 90?

-Porque o fracasso do processo de paz, por um lado, e as crises internas de dos países de Oriente Médio provocaram um conflito que já não é bilateral ou interno. Hoje estamos falando dum conflito que traspassa as fronteiras e as questiona. Esse é problema. Também não estamos falando de todos os países. Egito, Marrocos e Argélia têm problemas internos. Tunez os tem também, mas não chegam ao grau de fragmentação em que se encontram países como Síria, Iraque, o Líbano. É claro que há setores muitos vulneráveis que vêem perdendo quase nos últimos 20 anos, que são os cristãos de Oriente Médio. O desastre dos cristãos é um desastre humanitário, mas por outra parte também lhe está tirando à região um passado que é próprio do cristianismo. No fim das contas, o cristianismo nasceu lá. Está desaparecendo uns dos rasgos da civilização de Oriente Médio, e essa é a barbárie. Sobre isso há de se falar também.

– E por que esse tema está invisível?

-Não quero ser muito pessimista, mas em Ruanda houve um genocídio e ninguém se mexeu. Outra pergunta é: o que pode se fazer? Aqueles que na administração de Bush organizaram a intervenção militar e a ocupação de Iraque baseados em mentiras tiveram a capacidade de convencer à opinião pública e ao eleitorado que estava sob o impacto do 11 de Setembro. Não encontraram nem as armas de destruição massiva nem havia vinculação com o terrorismo. Nesta invasão, o primeiro prédio que as forças estadunidenses ocuparam e protegeram foi o do Ministério do Petróleo em Bagdá, num momento em que se queimava a biblioteca. É uma ingenuidade pensar que aqueles que planejaram essa incursão iam a considerar Bagdá como patrimônio cultural da humanidade. Se você faz um paralelo e pensa na revolução na Praça Tahrir, no Cairo, os que se mobilizaram para pedir o fim do regime, para a democracia, formaram uma corrente humana no Museu do Cairo, para que não acontecesse o que aconteceu em Bagdá e em outras partes.

-Voltando ao conflito de Gaza, acredita que uma solução territorial é a saída?

-A solução territorial de forma alguma é uma saída mágica, mas abre um processo muito distinto do horizonte de conflito que agora se vê. Se há um ponto por onde há que começar, neste caso, é uma solução dos Estados e a criação do Estado palestino. Agora, a criação do Estado palestino não vai ter um impacto imediato no conflito de Oriente Médio, porque são coisas distintas. Ao contrário, provavelmente a criação deste Estado vai ser explorada por alguns setores islamitas para fomentar um ódio maior e uma rejeição maior. Mas é inevitável avançar neste sentido se há vontade de enxergar o futuro em termos de tréguas que duram seis meses, um ano ou dois anos… até a preparação da próxima guerra.

– E si no futuro não houvesse vontade, de nenhuma das partes, de por fim ao conflito?

-Acredito que, do lado palestino, a falta de um consenso nacional em torno de uma estratégia desde que Gaza e Cisjordânia se separaram não facilita as coisas. Qualquer iniciativa deve ter um consenso geral de como seguir em frente. A iniciativa de Mahmoud Abbas de ir às Nações Unidas e tentar outra via que não for as das negociações sob o auspício dos EUA poderia ser um caminho, mas necessita de apoio interno. A fragmentação que se viu em 2006 é a grande fragilidade dos palestinos. Quando Hamas ganhou as eleições foi rejeitado no mundo. Isso levou a Hamas começar sua própria luta e querer dominar. Do lado de Israel, nos últimos dez anos, o que se vê é a desaparição do ‘centro’ no qual a ideia de ‘terra por paz’ predominava. Hoje não se fala disso, e a razão é provavelmente uma ‘direitização’ da política israelense. Desde 2001, a centro esquerda não chega ao poder. Netanyahu é o dono da política israelense hoje. Vozes dos setores mais de centro esquerda ou até de centro direita mais racional, pensando numa paz eventual, tem desaparecido da política israelense.

-Se amanhã houvesse um cessar fogo, começasse uma trégua e as negociações, como imagina o cenário do dia depois?

-Em primeiro lugar, acredito que para que haja um processo de paz deve haver um governo de unidade palestino, a aceitação desse governo de unidade e reconhecimento da declaração do Estado palestino por parte dos atores mais imediatos: Israel, EUA, os países europeus. E deixar os outros problemas em um processo de negociação entre dois Estados reconhecidos.

-Não será fácil a convivência.

-Não, mas também não se pode ser determinista. Este conflito também esconde processos de convivência, de diálogo, projetos em comum entre israelenses e árabes, entre judeus e muçulmanos, entre judeus, cristãos e muçulmanos, que acontecem na sociedade civil, entre médicos, engenheiros, na música. Todo isto existe, mas o conflito o esconde. Se de alguma forma começa a haver um declínio nos conflitos provavelmente estes setores que rejeitam a violência começaram a achar as formas de fazer valer uma convivência entre todos.

 


UM FUTURO POSSÍVEL. COMO DESCREVE A INFLUÊNCIA DO ISLAMISMO NA ESCALADA DO CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO?

A narrativa dos grupos islamitas se baseia na dor e na vitimização dos muçulmanos por parte dos colonos, as Cruzadas de Israel. Quando digo “narrativas” não quero dizer ficção. Tudo isso existe. Existe uma historiografia árabe que olha para as Cruzadas de forma bem distinta da historiografia cristã. Para os árabes, aqueles que vieram o fizeram para matar e para roubar uma civilização brilhante naquele tempo. Tudo isto está explorado. Evidentemente, quando olham o mapa e sabem que isto foi consequência do acordo entre a Grã Bretanha e França em 1916, dizem que isso aconteceu para separar á comunidade muçulmana. Estas narrativas outorgam credibilidade e justificam seu agir. Outra narrativa é a da criação de Israel, que se apresenta como a continuidade do colonialismo britânico. Todos estes elementos históricos se transformam em narrativas e tem uma função de mobilização, recrutamento e de levar adiante o conflito. Mesmo que as causas estruturais sejam outras, estes discursos são agravantes e é fácil brincar com as emoções em contextos de conflito.

Frente a frente. VIVER, ESTUDAR e PENSAR A GUERRA

Seu sotaque e a cadência no seu jeito de falar revelam, imediatamente, origens estrangeiras. De família armênia, Derghougassian nasceu no Líbano e veio à Argentina em 1987, aos 24 anos, quando lhe ofereceram ser editor dum jornal vinculado à comunidade armênia. Não falava uma palavra de castelhano nem conhecia Argentina, mas sempre lhe havia fascinado América do Sul, a arqueologia e o mundo incaico e, também, a figura do Che Guevara. Quando chegou, em plena transição democrática, ficou atraído pela figura de Alfonsín, seu reconhecimento público do genocídio dos armênios e a mobilização em defesa da democracia, “que não é algo tão familiar no Oriente Médio”, conta alguém que sabe o que é viver num país em guerra. Hoje, visto à distância, acredito que o ano 91 foi um ponto de inflexão, quando teve a oportunidade de fazer o mestrado em Relacões Internacionais em Flacso (Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales) e, portanto, a possibilidade de ingresso ao mundo acadêmico no qual hoje é uma referência. Desde aquele momento, Derghougassian, que não tem dissociado a política da guerra na historia da sua vida, tem se especializado em temas vinculados aos conflitos bélicos e segurança internacional.

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