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O passado armênio da Praça Taksim

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Há poucos dias, o Portal Estação Armênia publicou o primeiro artigo da série “A Turquia em ebulição”, no qual o professor Onnig Tamdjian fez uma análise do cenário de manifestações que se espalham pela Turquia. 

No artigo intitulado “O que a Praça Taksim e o Parque Gezi tem haver com os armênios?“, Onnig foi mais a fundo na questão da praça Taksim, onde a revolta se iniciou por meio de ativistas que tentavam paralisar o corte de árvores de uma área do Parque Gezi para construções do governo turco. 

A Praça Taksim e parte do Parque Gezi eram oficialmente concedidos a comunidade armênia de Istambul, onde foram construídos o Hospital de Surp Hagop e o cemitério de mesmo nome. 

Seguindo essa linha, a conceituada revista The New Yorker publicou, na sexta-feira, 28, em seu site o artigo ‘The Armenian Past of Taksim Square” (O passado armênio da Praça Taksim), o qual oferecemos a tradução ao nosso leitor (abaixo).

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Via NewYorker.com – 

O passado armênio da Praça Taksim, por Emily Greenhouse do The New Yorker 

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“Black’s Guide: A Guide to Constantinople,” por Demetrius Coufopoulos.

A Praça Taksim, assim como a Praça Tahrir e o Parque Zuccotti, é só um lugar comum numa cidade: pode ser um lugar a mais para encontrar os amigos ou ler um livro debaixo de uma árvore. Mas o primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdoğan decidiu que ele gostaria de construir réplicas dos quartéis otomanos na Taksim, além de construir um Shopping Center e uma mesquita. No final de maio, dezenas de ambientalistas começaram a protestar contra as ações de Erdoğan no Parque Gezi, a ilha de árvores na Praça Taksim, e foram atacados pela polícia turca com gás lacrimogêneo e canhões de água. Logo, conforme Elif Batuman escreveu, “somente 50% estavam protestando contra a derrubada das árvores, enquanto 49% protestavam contra a violência policial contra as pessoas que estavam lá protestando pelas árvores”. Desde então, aproximadamente oito mil manifestantes foram feridos. Por enquanto, a manifestação se alargou para englobar uma oposição a agenda religiosa de Erdoğan e seu autoritarismo. Hoje, a Praça Taksim não é só um emaranhado de pessoas numa praça, mas também é sinônimo de um choque de ideias, um movimento, um campo de batalha.

Considerando o simbolismo no qual o lugar tem sido imbuído, é estranho e desagradável o fato histórico que, para um povo inteiro, a Praça Taksim já representa a demolição do passado. Em um Beco no Parque Gezi, ativistas instalaram recentemente um túmulo provisório onde se pode ler “Cemitério Armênio de Surp Hagop, 1551-1939: vocês tiraram o nosso cemitério, mas vocês não terão nosso parque!”

A maioria dos corajosos manifestantes de Istambul desconhece que, séculos atrás, membros da comunidade armênia de Istambul foram enterrados no lugar onde eles protestam. Dizem que, no século XVI, quando Suleiman, o Magnífico era o sultão do Império otomano, um grupo de conspiradores assediou o cozinheiro do sultão, Manuk Karaseferyan, com um plano para envenenar o jantar do sultão. Karaseferyan, contudo, revelou ao sultão o plano de envenená-lo e, em sinal de gratidão, Suleiman deu-lhe o direito de pedir um favor. Karaseferyan pediu então um lugar para que seu povo, armênio, fosse enterrado. Assim surgiu o cemitério armênio de Pangalti, que se tornaria o maior cemitério não muçulmano da história de Istambul, ainda que após uma epidemia de coléria nos anos 1860, os sepultamentos armênios foram transferidos para o distrito de Şişli.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, havia dois milhões de armênios vivendo no Império Otomano; por volta de 1922, restavam menos de 400 mil – o assassinato de 1,5 milhão de armênios é chamado pelos historiadores de genocídio. (A palavra “genocídio” foi criada por Raphael Lemkin, um advogado judeu e sobrevivente do Holocausto, após estudar os massacres dos armênios). A campanha contra os armênios envolveu confiscação de terras, tais como o cemitério, que foi destruído nos anos 1930. Agora parte do Parque Gezi, é um espaço ocupado por hotéis, prédios, uma rádio e uma TV turca. Entretanto, as lápides ainda permanecem visíveis: elas foram usadas na construção de escadas. (Esse não é o único exemplo de reaproveitamento de lápides: o Tablet publicou uma série de fotos nesse verão de lápides judaicas transformadas em oficinas de artistas, quadras de basquete e caixas de areia para crianças em toda a Polônia).

Quase cem anos depois, o governo da Turquia não reconheceu o genocídio armênio. Poucos armênios restaram na Turquia. Recentemente, o Washington Post publicou um artigo sobre uma idosa chamada Asiya – a última armênia em Chukush, uma cidade onde eles eram 10 mil.

Em 1919, um memorial para o genocídio armênio foi construído no cemitério de Pangalti, mas foi destruído em 1922, anos antes do Parque Gezi ser erguido. Todo ano, um grupo turco de direitos humanos chamado DurDe organiza uma rememoração silenciosa no dia 24 de abril, quando, em 1915, centenas de intelectuais armênios foram presos para serem executados. Há a ideia de reinstalar um memorial no Parque Gezi, mas a pressão dos grupos nacionalistas tem evitado esse propósito. Cengiz Alğan, membro do DurDe, disse ao Le Monde, “Os partidos políticos estão se matando, mas quando se trata dos armênios eles entram em acordo”.

Aqueles que protestam contra Erdoğan na Turquia desejam por em práticas as suas liberdades e honrar o passado, livres de gás lacrimogêneo, derramamento de sangue, negacionismo ou dor. Eles não estão sozinhos.

Tradução: H.A.C.L

Ilustração:  “Black’s Guide: A Guide to Constantinople,” por Demetrius Coufopoulos.

 

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