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O despertar dos armênios na Turquia

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 Via LeMonde, por Guillaume Perrier

No fundo do cannyon, as águas turbulentas do rio Munzur eram esmagadas contra as rochas, formando um enorme buquê de espuma. Dos altos das falésias, “homens e mulheres eram jogados no rio”, disse Enver Devletli, um sexagenário de bigode grisalho. “Alguns saltaram para escapar dos soldados turcos, e aqui o rio ficou vermelho de sangue. O povo da aldeia de Vank foi assassinado aqui em 1915″.

Este fluxo de água de força lendária que corre na região de Dersim, no leste da Turquia, foi usado como cemitério para milhares de armênios no Império Otomano, vítimas do primeiro genocídio do século XX. Quase um século depois, as ondas do rio levam junto as lembranças dessa história trágica, cheia de repressão e massacres. Durante séculos, crenças locais de curdos, armênios e alevitas (um ramo do Islã xiita) celebraram este rio.

Do alto, a pequena cidade de Dersim parece tranqüila no fundo de um vale. Na colina estão algumas casas, no lugar do antigo bairro armênio renomeado Kalan (“o resto”), após o genocídio. Enver Devletli mostra uma série de tumbas espalhadas no mato de um cemitério pequeno. “Lá está Boghos, o irmão do meu avô …”

De origem armênia, Enver Devletli conta que depois dos massacres de 1915, os sobreviventes foram islamizados: “Tio Apraham tornou-se Ibrahim…” no documento de registro que sai de uma pasta, Enver se chama Devletli, que quer dizer “estatista” em turco, um apelido dado à família na década de 1950.  No campo “religião” contém a palavra “muçulmano”.  Mas nos últimos meses Enver era chamado de Assadour, um nome armênio.

Ruínas armênias em Dersim

Ele começou a freqüentar as igrejas armênia às vezes, quando ia para Istambul. “Quero ter oficialmente um nome armênio, diz ele. Isto será alcançado dentro de um ano ou dois. Preciso falar com meus filhos que estão se formando, eles me pediram para esperar um pouco. Encontrar um emprego com um nome armênio é difícil… “Alguns dos seus dez irmãos e irmãs tomaram a mesma decisão. Mehmet se tornou Kevork e a irmã Nurdjan emigrou para França e agora se chama Jeannette… Outros ainda estão relutantes. Na Turquia, esse procedimento continua a ser delicado. “As pessoas já apresentaram resistência comigo por eu dizer que sou armênio”, revela Assadour.

Mas Assadour não está sozinho. Até entre os alevitas, oficialmente muçulmanos, alguns armênios começaram a reivindicar em alto em bom som uma identidade armênia ancestral que há muito tempo foi negada de forma vergonhosa. Mirhan Pirgic Gültekin foi um dos primeiros a dar esse passo: ele se converteu à Igreja Ortodoxa, mudou nos tribunais a sua identidade e criou, em 2010, uma associação de bem-estar dos armênios de Dersim. “Nós devemos proteger a nossa identidade, nossa cultura e reivindicar as nossas origens”, proclama o ativista político, envolvido em movimentos de extrema-esquerda. Mais de 600 pessoas apóiam essa visão. Mirhan Pirgic Gültekin não hesita em afirmar que “75% da população de Dersim tem origem armênia”. Uma cifra sem dúvida superestimada.

Este enclave montanhoso é também habitado por curdos desde séculos atrás e cujo culto Kizilbas mistura especial de zoroastrismo, cristianismo e islamismo. Mas dezenas de aldeias tinham nomes armênios antes de 1915. As ruínas de igrejas ou mosteiros, às vezes algumas pedras na parede de uma casa, atestam isso.

A região tinha 157 locais de culto antes do genocídio armênio, segundo o historiador Raymond Kevorkian. Em Ergen, pedaços de muros revelam uma magnífica Basílica do século X que sobreviveu à beira de um campo. A vila de Nazmiye tem seu antigo nome (Kizil Kilise, a “Igreja Vermelha”) mantido por muitas pessoas. Segundo Mirhan Pirgic Gültekin, a origem do nome Dersim é armênia e é oriundo de Der Simon (São Simão).

Durante o verão de 1915, ordens de deportação foram emitidas pelo governo dos Jovens Turcos. Em Dersim, as autoridades municipais entraram em confronto com os líderes curdos locais e se recusaram a entregar os armênios. Os fugitivos da região, incluindo os de Kharpert (Harput) a “província-matadouro” se refugiaram em massa nas montanhas de Dersim. Esta região, onde os sultões otomanos não foram capazes de recolher impostos por vários séculos abriga pelo menos 15.000 armênios, estima Raymond Kevorkian em Le Génocide des Arméniens (Odile Jacob, 2006). Temur Agha, um grande proprietário de terras na aldeia de Hagü, possuía uma milícia pessoal e empregava muitos camponeses armênios em sua propriedade. Agha se recusou a entregar seus funcionários para as autoridades. Graças a ele que Cafer Teyhanci, de ascendência armênia, hoje está vivo. É por isso que o jovem vem refletir sobre o túmulo de seu “salvador”.

Aldeias inteiras foram convertidas e suas identidades são ocultadas até hoje. Sempre avesso ao poder central, Dersim continuou a resistir a políticas de assimilação da República da Turquia, que a fez pagar um alto preço. Em 1937, Mustafa Kemal Atatürk lançou uma brutal repressão militar contra a região, ostensivamente para esmagar uma “insurreição tribal”.

O Estado turco deveria fazer Dersim pagar por ter protegido os armênios? Eles  deveriam “terminar o trabalho” começado a 25 anos atrás? Esta é a tese avançada por Saltik Hasan, um etnomusicólogo que pesquisou por dez anos o evento sangrento de 1937. Foram mais de 30 mil mortos, a maioria alevitas, incluindo milhares de armênios convertidos. Dersim foi renomeado com o nome da operação militar: Tunceli, “a mão de bronze”, em turco.

O tabu parece estar em vias de ser quebrado. No início de dezembro, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, pediu desculpas em nome da República para os massacres de Dersim. Um gesto histórico que abre caminho para um trabalho de memória sobre outros episódios sensíveis na história da Turquia, sendo o primeiro e mais importante o Genocídio Armênio

Em aldeias agrícolas, a memória dos assassinatos de 1937 continua viva. Em Alanyazi, antiga fortaleza da tribo armênia de Mirakian“todo mundo aqui é armênio”, diz sem rodeios Hidir Boztaş, um velho agricultor com roupas remendadas. Poucos admitam abertamente, por medo de represálias. “Meu avô e seu irmão foram mortos aqui. Quando os soldados voltaram em 1937, estávamos com muito medo, foi o retorno do genocídio. Desde 1915 estão nos matando porque somos armênios”, afirma o velho de 88 anos.

Seu filho, Mustafa, 57, pertence à “geração silenciosa”, aquele para quem a “Armenidade” foi um ponto fraco que em hipótese nenhuma deveria ser revelado. Os armênios tem se assimilado às massas. “Meu pai não aprendeu armênio”, lamenta o homem cujo quarto é decorado com um retrato do profeta Ali, venerado pelos alevitas. Mustafa decidiu lutar para recuperar as propriedades de seu avô Bedros, expropriados pelo Estado. Os antigos pomares de maçã no final da aldeia estão abandonados… desde 1915! “Todo mundo sabe que essas terras são de Bedros”, disse ele.

“A gente não matou armênios”, disse Hussein, 87, neto de Hampartsoun Boyadjian, costureiro em Çimenli. Sua mãe, Shogat, milagrosamente sobreviveu aos massacres numa outra aldeia. “Eles colocaram mulheres e crianças para correr e passaram a faca. Ela não morreu, mas levou por toda a sua vida as cicatrizes das facadas nos braços e ombross “, disse ele. O velho permaneceu armênio, mas deu a seus filhos nomes muçulmanos.

“Hoje, a atmosfera começa a ficar mais leve podemos falar mais facimente aos nossos netos sobre armenidade. Em Dersim, não há a mesma pressão social que existe em outros lugares do país”, disse seu filho Mehmet, um pequeno empresário. “Para meus pais, eu sou meio armênio e meio alevi. As duas culturas são muito próximas, mas eu me sinto mais armênio, mesmo que seja só porque meu pai me transmitiu a herança do genocídio”, refletiu. Sua irmã se considera “Alevi”. Mas em seguida, acrescenta: “Mas também armênia… Minha filha vai orar na igreja, em Istambul. “

São poucas as famílias em que a pessoa não consegue  facilmente encontrar uma tataravó ou tia armênia, já que todos os homens foram massacrados. Mas os sangues se misturaram em Dersim. Alguns definem a si mesmos como  curdos, alevitas e outros como armênios. As danças e canções folclóricas, as festas de São Sérgio, são comumente compartilhadas. “O Kochar, para nós, desde sempre foi uma dança curda. Mas agora eu entendo que era armênia. E quando eu ouvi pela primeira vez o coral armênio de Istambul, percebi que  já tinha ouvido todas essas músicas em curdo”, disse Mirhan Pirgic Gültekin.

Este verão, para o grande festival anual de Munzur, quinze músicos de uma orquestra tradicional da Armênia, pela primeira vez irão tocar em Dersim, onde se encontrarão e tocarão com músicos locais.

Assim conseguimos compreender melhor, mergulhando na história, porque o povo de Dersim lutou por vinte anos contra um projeto de barragem que iria iria alterar o vale selvagem asfaltando e cimentando o curso d’água até o lado da montanha. O Estado turco, que domou com golpes de concreto o Tigre e o Eufrates, agora quer domar o Munzur.

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