A Armênia mais presente no papel

24 de maio de 2009

Destaco aqui duas matérias publicadas no Jornal Folha de São Paulo. Se antes tínhamos que nos contentar com notícias na Folha Online, Estadão Online, e etc, aonde a maioria delas era uma simples tradução ou cópia da BBC, Reutters e etc, agora temos um pouco mais de notoriedade em matérias editadas por bons jornalistas.

Tudo bem que não são matérias explicando a Armênia, a cultura e história , mas pelo menos temos uma certa conquista de espaço em matérias cotidianas. Vale a pena gastar uns minutos lendo.


A primeira foi publicada no dia 14/05/2009, por Janaina Melo na coluna Comida do caderno Ilustrada da Folha.

A melhor da esfiha.

Onipresente nos restaurantes árabes, esfiha fechada de carne é avaliada em dez casas paulistanas.

Olinda Isper tinha 12 anos quando começou a ajudar a mãe a fazer esfihas. Recheava os círculos e fechava, minuciosamente, um a um. Levou anos até que a tarefa de fazer também a massa fosse confiada a ela. Hoje, aos 48, é ainda Olinda quem cuida das esfihas. Não as da casa da mãe, mas as servidas no Tenda do Nilo, no Paraíso.No início do restaurante, tocado por ela e pela irmã, Xmune, os salgados eram feitos na hora. À medida que o movimento começou a aumentar, ficou inviável dar conta da tarefa num espaço tão diminuto, ainda mais com a assumida “mania de perfeição” de Olinda.”Toda comida daqui é feita pela Xmune. Só as esfihas são minhas, faço em casa e trago. Vou ser sincera, sou neurótica. Demoro muito. Tem gente que brinca e fala que eu pego a régua e o compasso para medir, porque são sempre iguais, do mesmo tamanho, com o mesmo formato”, diz Olinda.A esfiha do Tenda do Nilo foi a mais bem avaliada em degustação feita pela reportagem da Folha em dez casas de comida árabe paulistanas. Em todas, foi provada apenas a versão fechada e recheada com carne. 

O que faz diferença?

Grande inimiga das esfihas, a terrível estufa -capaz de deixar o salgado ressecado e numa temperatura abaixo da ideal- não é problema no Tenda do Nilo. Lá, elas são aquecidas na hora, num forno elétrico.Mas está na carne o grande diferencial do salgado. Tem tomate e também cebola, como as demais, mas numa proporção tão pequena que o sabor da carne predomina e casa perfeitamente com um toque de canela.”Aqui, as pessoas associam canela a doce. No Líbano, usa-se muita canela na comida salgada. Ela chama a atenção, tem um adocicado que combina. “No Líbano, diz Olinda, a esfiha mais famosa e saborosa é a de Baalbeck. Assim, o melhor elogio que ela pode receber é ter seus salgados comparados aos de Baalbeck. “Só que lá, não se faz esfiha fechada, só aberta”, diz Olinda.

Direto do forno a lenha
Na armênia Casa Garabed, em Santana, as esfihas também não padecem na estufa. Modeladas no momento em que são pedidas, passam rapidamente por um enorme forno a lenha da época em que o pai do atual proprietário, Roberto Deyrmendjian, 51, chegava a assar 10 mil esfihas num sábado.Se hoje o cliente se senta, pede o salgado e espera alguns minutos para ele ficar pronto, nem sempre foi assim. Nos primórdios da Casa Garabed, fundada em 1951, os clientes armênios se encarregavam de levar o recheio de suas esfihas. “Vinham de manhã, deixavam o recheio, de carne ou queijo, e voltavam na hora marcada para buscá-las”, conta Roberto. “Tudo, exceto o recheio, era por nossa conta. Com o tempo, as pessoas que não eram da colônia queriam comer e não sabiam fazer. Foi quando meu pai começou a vender a esfiha pronta. “O traço de identidade armênio, segundo Roberto, vem de elementos como a hortelã acrescida ao recheio. E a carne, limpa e moída no próprio restaurante, recebe sempre a mesma proporção de gordura.Gordura? Sim, uma boa esfiha precisa levar um pouco de gordura -alguns põem também um bocado de manteiga. Esse é um dos fatores que faz o recheio ficar úmido.”As pessoas querem caprichar e compram carne de primeira. Aí é que está o problema. Precisa ter gordura. Se coloco patinho ou um corte sem gordura, a carne encolhe, e a massa fica dura”, diz a chef Leila Kuczynski, 55, do Arabia. Outra grande dica, segundo Leila, é a temperatura do forno. “O problema é que o doméstico não atinge 300ºC, e a esfiha, originalmente, é feita em fornos de pizza, a lenha.”


A Segunda matéria é de Mariana Barros e foi publicada no dia 16/05/2009 no caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo.

Multicultural, Bom Retiro tem 215 opções de patrimônio.

Iphan escolhe no 2º semestre a expressão cultural mais representativa da regiãoDistrito, onde há imigrantes de diversas origens, foi escolhido pela diversidade; será o primeiro patrimônio imaterial da cidade de SP.

A dança tradicional coreana, a feira boliviana Kantuta e a procissão grega de Sexta-Feira Santa estão entre as 215 expressões culturais do Bom Retiro (centro de SP) candidatas a virar patrimônio nacional. O Iphan, órgão federal de preservação do patrimônio, elegerá no segundo semestre a principal expressão cultural do distrito, que se tornará patrimônio cultural imaterial. A cidade de São Paulo não possui nenhum bem nessa categoria, que abrange tudo o que não é palpável e que tem importância histórica, como festas, técnicas e receitas culinárias.Entre os 15 bens imateriais já registrados pelo Iphan, estão a celebração do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, o frevo pernambucano e o modo das baianas de fazer acarajé. A diversidade cultural do Bom Retiro, onde convivem famílias de imigrantes italianos, poloneses, gregos, húngaros, búlgaros, armênios, coreanos, bolivianos e paraguaios, colocará SP nesse mapa cultural. O levantamento sobre o distrito, iniciado em 2004 e concluído neste ano, será divulgado em formato de CD-ROM no segundo semestre. “A partir do inventário, faremos a escolha do bem mais representativo”, afirma Simone Toji, técnica do Iphan responsável pelo estudo.Segundo ela, é preciso que o órgão eleja apenas uma das manifestações, porque dificilmente a região como um todo poderia ser preservada. “Em um amplo território, nossa [do Iphan] preservação do patrimônio é insuficiente”, explica.De acordo com Simone, integram o levantamento do Bom Retiro mais de 60 edificações consideradas símbolos do multiculturalismo local, como a igreja ortodoxa grega da rua Matarazzo ou o Taib (Teatro de Arte Israelita Brasileiro).

Origens:

O nascimento do bairro coincide com a criação do Jardim da Luz, em 1825. Segundo a mestranda da USP Marcela Rufato, autora de um estudo sobre os imigrantes do Bom Retiro, o local concentrava chácaras de veraneio. Depois de vendida pela prefeitura e loteada, a área foi se tornando polo industrial, fato impulsionado pela proximidade da linha ferroviária que chegava à Estação da Luz. No início do século 19, o Bom Retiro foi povoado por operários italianos, primeira leva de imigrantes a viver no local. A área, degradada pela ferrovia e pelas indústrias instaladas, oferecia moradia barata, vantagem aproveitada nas décadas seguintes por novas levas de estrangeiros que foram mudando a cara e os hábitos locais.

Preservação:

Depois que viram patrimônio, os bens passam a receber auxílio do Iphan para a manutenção de suas atividades. As baianas do acarajé, por exemplo, tiveram ajuda para formar uma associação e passaram a usar a declaração para justificar seu trabalho quando abordadas por policiais. Já o samba de roda do Recôncavo Baiano recorreu ao Iphan para reformar o edifício que virou sua sede em Santo Amaro da Purificação.

Quem chega não sai mais, afirma grego“.

Imigrante que vem, conhece e aprende português não vai outro lugar (sic)”, resume Thrassyvoulos Petrakis, o seu Trasso, ícone da comunidade grega do Bom Retiro, onde fica seu restaurante, o Acrópoles.Aos 91 anos -e há 40 no Brasil-, seu Trasso presenciou as mudanças que as diferentes levas de imigrantes levaram ao Bom Retiro: a substituição dos armarinhos mantidos por judeus por lojas de vitrines chamativas criadas por coreanos e a posterior vinda de bolivianos. Egípcios, armênios e angolanos também pertencem ao seu círculo de relações. Os primeiros judeus, vindos do Leste Europeu, estabeleceram-se no Bom Retiro de modo significativo no entre guerras e, depois que enriqueceram vendendo material de costura, migraram para Higienópolis. É lá que vivem hoje os avós de Celso Kocinas, judeus poloneses fugidos da perseguição na Europa. “Sem falar a língua local, é mais fácil vender coisas do que exercer uma profissão como médico ou advogado”, diz Kocinas, dono de uma corretora de imóveis no Bom Retiro. A barreira da língua e a oferta de trabalho também levou os coreanos ao setor de confecções. “Todos os povos prosperam no Bom Retiro”, afirma o empresário Renato Kim, que veio da Coreia em 1975 e achou trabalho costurando para patrões judeus. Em pouco tempo, sua família comprou máquinas e, em 1982, abriu uma loja na rua José Paulino. Hoje, ele e a mulher têm loja na Aimorés e moram na Aclimação.


A Casa Garabed fica na
R. José Margarido, 216
Santana – SP
Tel. (11) 2976-2750/(11) 2979-3943
Aberta de Terça à Domingo e Feriados das 12h às 21h 

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Co-criador do Portal Estação Armênia, engenheiro mecânico e baterista nas horas vagas. Foi a descoberta tardia da própria ascendência armênia que o levou a se dedicar à produção de conteúdo online para a comunidade. Escreve de Toronto.

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