Algo parece estar faltando no novo passaporte biométrico da Armênia. É o que afirmam muitos no país, que notaram uma imagem incomum no documento.
Entre as páginas que exibem o patrimônio e a cultura da Armênia há uma foto de Khor Virap. O mosteiro do século XVII é famoso principalmente por ter como pano de fundo espetacular o Monte Ararat. No passaporte, porém, o mosteiro é retratado de um ângulo que mostra apenas montanhas indistintas no horizonte. Críticos classificaram a imagem incomum como uma “manobra” para evitar incluir o Ararat no documento oficial.
O Monte Ararat está situado dentro da Turquia e é oficialmente conhecido pelo nome turco Monte Ağrı, mas se ergue de forma proeminente acima de Yerevan em dias claros.
A montanha de 5.100 metros fez parte de antigos reinos da Armênia, mas armênios étnicos foram expulsos de assentamentos ao redor do Ararat durante as mortes em massa conduzidas pelo Estado Otomano, reconhecidas como genocídio por dezenas de países, incluindo Brasil e os Estados Unidos. Quando as fronteiras na região foram redesenhadas após a Primeira Guerra Mundial, os dois picos do Ararat passaram a integrar a borda oriental da Turquia moderna.
O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, recentemente insinuou a controvérsia sobre a imagem de Khor Virap no passaporte, dizendo durante uma transmissão ao vivo com a ministra do Interior, Arpine Sargsian, que “escolhemos essa perspectiva para adequá-la às nossas políticas e ao que discutimos há muito tempo”.
“Considerando que é o passaporte da República da Armênia”, acrescentou Pashinian, o documento reflete “o território da República da Armênia”.
A ausência da montanha nos passaportes, que devem começar a ser emitidos no outono de 2026, segue uma decisão do governo no fim do ano passado de remover ícones nevados do Monte Ararat dos carimbos de passaporte. Essa decisão provocou indignação no país, incluindo uma ação judicial contra o governo.
O político de oposição Hayk Mamijanian condenou a remoção da montanha dos carimbos, dizendo a repórteres: “nunca deixa de me surpreender com que zelo Pashinyan está disposto a agradar a Turquia ou o Azerbaijão.”
Desde a invasão do Azerbaijão da região de Artsakh(Nagorno-Karabakh) em 2023, a Armênia tem buscado normalizar relações com os países vizinhos Azerbaijão e Turquia, ambos historicamente adversários.
Armênia e Azerbaijão rubricaram um acordo de paz em 2025 que inclui uma cláusula proibindo indefinidamente que qualquer dos dois países faça reivindicações territoriais sobre o outro. A Turquia, uma aliada próxima de Baku, há muito se opõe ao uso do Ararat pela Armênia como símbolo nacional, inclusive no brasão de armas da República Socialista Soviética da Armênia.
Joshua Kucera, analista sênior do International Crisis Group, afirma que a imagem de Khor Virap parece fazer “parte da narrativa mais ampla da ‘Armênia real’ que [Pashinyan] está promovendo, tentando redirecionar a atenção dos armênios para questões dentro de suas próprias fronteiras, em vez da ‘Armênia histórica’ fora delas.”
O especialista no Cáucaso diz que esse esforço de reformulação também inclui a região de Artsakh, tomada pelo Azerbaijão.
Alguns temem que um alvo mais significativo do governo Pashinyan possa ser o atual brasão de armas da Armênia, que traz o Ararat como elemento central, encimado pela Arca de Noé. A embarcação mítica é considerada por alguns cristãos como tendo repousado no topo do Monte Ararat após o dilúvio bíblico. Em 2023, Pashinyan criticou o emblema por representar “uma dicotomia entre a Armênia histórica e a Armênia real”.
Edmon Marukian, político e ex-aliado do primeiro-ministro armênio, afirmou que o apagamento do Monte Ararat dos carimbos em 2025 pode ser um precursor para a reformulação do brasão. “Remover [o Ararat] exigiria mudar a constituição e a lei”, observou, acrescentando: “estamos, como cidadãos, prontos para tolerar isso?”
Em abril, o serviço armênio da RFE/RL perguntou a Pashinyan sobre a possibilidade de o Ararat ser removido do brasão. O primeiro-ministro respondeu apenas que “não estou levantando essa questão”.
