Entre as histórias que resistem ao tempo e continuam vivas nas casas das famílias armênias, há uma que atravessa gerações e continua sendo contada de avós para netos: a Lenda da Ilha de Akhtamar.
Há muitos séculos, quando reis e dinastias ainda governavam a Armênia, reinava o poderoso Rei Artashes. Ele era sábio e forte, mas seu maior tesouro não era o trono, e sim sua filha, a jovem Tamar. A beleza da princesa era tamanha que se tornara conhecida para além das fronteiras de Nairi. Seus olhos brilhavam como estrelas refletidas no lago, sua pele lembrava a neve das montanhas, e o som de sua risada ecoava como as águas frescas que nascem dos rochedos. Poetas e músicos falavam de Tamar em canções, e reis e príncipes distantes mandavam emissários pedindo sua mão em casamento.
Temeroso de que algum pretendente tentasse conquistá-la pela força — ou pior, que uma criatura das antigas lendas, o terrível Vishap, o dragão das águas, a levasse embora — o rei ordenou a construção de um palácio para Tamar no meio do Lago Van, tão extenso que era chamado “o Mar de Nairi”. Lá ela viveria protegida, rodeada apenas por servas, isolada do mundo dos homens. Assim acreditava o rei poder preservar a pureza e o destino de sua filha.
Mas o que Artashes não sabia é que o coração da princesa já não lhe pertencia. Tamar havia se apaixonado, não por um príncipe, mas por um jovem humilde, belo e corajoso, dono apenas de sua força e determinação. Trocaram olhares em uma solenidade no palácio, depois palavras furtivas, e mais tarde um juramento selado por um beijo. Quando o rei descobriu, era tarde demais: o amor já ardia como fogo.
Entretanto, o lago os separava. Tentar cruzá-lo era um desafio quase impossível. Guardas vigiavam dia e noite para impedir que qualquer barco se aproximasse da ilha. Ainda assim, o amor dos jovens não conhecia medo. Uma noite, enquanto o rapaz caminhava triste nas margens do lago, viu ao longe uma chama vacilante, um pequeno ponto vermelho tremendo na escuridão. Era Tamar. O fogo que ela acendera queria dizer algo. Ele entendeu: era um chamado. Com o coração incendiado, o rapaz lançou-se às águas e começou a nadar.
Durante longas horas, lutou contra o frio e as ondas, guiado pela luz distante. Quando enfim chegou à margem, exausto, encontrou Tamar o esperando junto à fogueira, o rosto iluminado pela chama e os olhos cheios de alegria. A lua, tímida, se escondeu entre as nuvens, testemunha silenciosa daquele encontro proibido. Na manhã seguinte, quando o sol nasceu atrás das montanhas, o jovem partiu de volta, desaparecendo novamente nas águas do Van.
Assim foi por muitas noites. O amor dos dois crescia, protegido pela escuridão e pelo fogo de Tamar, que servia de farol. Dizem que o fogo também os protegia dos espíritos das águas, seres do submundo que tentavam afogar os homens nas profundezas do lago. Mas o destino, como todo amor trágico, guardava um fim cruel para os amantes.
Certa manhã, um servo do rei viu o rapaz saindo das águas, cansado e molhado, mas com o semblante sereno. Desconfiado, o servo observou à noite seguinte e percebeu a luz na ilha e o som leve de alguém entrando no lago. No dia seguinte, contou tudo ao rei. Artashes ficou furioso. Em sua fúria, não via a inocência do amor da filha, apenas o insulto de um pobre se atrever a amar uma princesa. Ordenou então que, ao cair da noite, seus homens remassem até a ilha e extinguissem o fogo de Tamar antes que o rapaz chegasse.
Quando o crepúsculo caiu sobre o Lago Van, o jovem mais uma vez mergulhou na água e nadou rumo à chama distante. Mas naquela noite, os servos do rei chegaram antes. Encontraram Tamar vestida com suas melhores roupas, sentada diante do fogo, alimentando-o com galhos de zimbro — a planta sagrada usada para espantar maus espíritos. Ao ver os guardas, Tamar gritou desesperada:
“Servos do meu pai! Matem-me, se for preciso! Mas, por piedade, não apaguem o meu fogo!”
Eles hesitaram por um instante, comovidos, mas o medo da ira de Artashes falou mais alto. Arrastaram Tamar à força de volta ao palácio e, com as botas, apagaram as chamas que ela tanto protegia. As fagulhas se perderam na areia, e com elas se apagou o último fio de esperança que ligava os amantes.
Do meio do lago, o jovem viu a luz se extinguir. Subitamente, tudo ficou escuro e silencioso. As águas tornaram-se frias e pesadas, e os ventos sopravam com uma tristeza que parecia presságio. Sem saber para onde nadar, o rapaz lutou contra as ondas, caindo e voltando à tona várias vezes, até perder as forças. E nos últimos instantes, exclamou com o fôlego que lhe restava:
“Ah, Tamar!”
O vento repetiu o grito pelo lago, levando seu eco até a ilha:
“Ah, Tamar! Ah, Tamar!”
Quando soube da morte do rapaz, Tamar foi tomada por uma dor sem fim. O rei, cego pela culpa e pelo orgulho, mandou trancá-la no palácio dourado para sempre. Lá, a princesa viveu o resto dos seus dias envolta em luto, com o cabelo solto e um véu negro, chorando junto às janelas que davam para o Lago Van, o mesmo que havia engolido seu amor.
Dizem que até hoje, em certas noites, quando o vento sopra forte sobre o lago, é possível ouvir ao longe um eco suave que parece repetir: “Ah, Tamar…”. E desde então, a ilha passou a ser chamada Akhtamar, em memória das últimas palavras do jovem que se afogou por amor.
Com o passar do tempo, o nome “Akhtamar” ganhou outros significados. Na era soviética, surgiu com ele um dos produtos mais exclusivos e simbólicos da Armênia: os cigarros “Akhtamar”, de filtro preto, tão raros que só podiam ser conseguidos por meio de conhecidos. Mais tarde, foi criado o famoso conhaque “Akhtamar”, produzido desde 1967. Com sua cor profunda e sabor rico, dizem que a bebida representa a dor e a paixão eterna da princesa, e é por isso que muitos armênios o chamam de “a bebida dos amantes”.
Assim, de geração em geração, a lenda de Tamar continua a ser contada, lembrando que até as águas mais frias podem guardar o calor de um amor impossível — e que, às vezes, basta uma única chama para iluminar a eternidade.
