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Baú Armênio: A luta de Missak Manuchian contra o Nazismo

Escrito e publicado por Charles Apovian no website Armênia-Brasil.

Na Segunda Guerra Mundial, a França foi derrotada fragorosamente pela Alemanha de Hitler. Em seis semanas a França foi invadida e ocupada por quatro longos anos. Passados os primeiros momentos de estupor, os franceses começaram a se reorganizar sob a batuta do General Charles De Gaule, que tinha conseguido escapar refugiando-se na Inglaterra.

De Londres, De Gaule exortou os franceses a resistirem e fazerem de tudo para expulsar o inimigo do território francês. Assim nasceu a “Resistência”. Consequentemente, criou-se na França uma imensa rede formada de homens e mulheres abnegados, que foram chamados de “Resistentes”. Imediatamente, os alemães trataram essas pessoas como terroristas e avisaram que não seriam tratados como soldados, mas sim como bandidos, e que qualquer Resistente preso seria fuzilado incontinênti.

Hoje em dia, existe um assunto polêmico: um indivíduo que faz de tudo para expulsar o invasor de seu país é um Resistente ou um Terrorista?

Um dos maiores Resistentes daquela época foi Missak Manuchian, considerado um verdadeiro herói por muitos franceses e para o qual foram erigidos vários monumentos em diversas cidades do país.

Missak Manuchian, herói da resistência francesa

Missak Manuchian nasceu em 1906, no vilarejo de Adijaman, na Turquia. Com oito anos de idade, seu pai foi assassinado durante os massacres perpetrados pelos turcos. Logo em seguida, sua mãe também morreu. Foi recolhido num orfanato até a idade de 19 anos e, a seguir, rumou para a França.

Ali trabalhou em várias fábricas e, em 1934, entrou no Partido Comunista Francês, integrando-se ao grupo Armênio do “MOI” (Mão de Obra dos Imigrantes).

Homem de cultura, adorava escrever poesias, colaborou com várias revistas armênias e fundou duas revistas: Tchank (Esforço) e Mëchaguyt (Cultura).

Após a derrocada e a ocupação da França pelos alemães, torna-se o responsável da seção armênia do “MOI”, na clandestinidade. Em 1943, é incorporado aos Franco-Atiradores do “MOI”, sob as ordens de Joseph Epstein. Manuchian passa a ser o chefe de um grupo de 22 homens e uma mulher.

Já em 1942, esses homens tinham realizado uma incessante guerrilha contra os alemães. A cada dois dias, aproximadamente, realizavam um atentado, um descarrilamento de trem ou colocações de bombas. Mas o grande feito deles foi a execução do cruel e famigerado general SS Julius Ritter, amigo íntimo de Hitler. (A família de Charles Aznavour ajudou de maneira significativa esse grupo).

No dia 16 de Novembro de 1943, Missak Manuchian tinha um encontro marcado com seu chefe Joseph Epstein, nas margens do rio Sena, perto do vilarejo de Evry. Não sabia que estava sendo seguido desde a sua residência em Paris. Antes de chegar ao ponto de encontro, é detido por policias franceses.

Neste mesmo dia todo o grupo desmorona.

Até hoje as opiniões estão divididas entre os historiadores a respeito dessa detenção. Há, em princípio, três versões:

1. A polícia francesa (naturalmente aquela que colaborava com os alemães), teria feito um trabalho de cerceamento até o dia da detenção. (É a versão menos plausível).

2. O comandante Joseph Epstein teria sido aprisionado e torturado pela Gestapo até indicar o paradeiro de seus companheiros.

3. Este grupo pertencia ao Partido Comunista Francês que, por seu turno, devia obedecer sem discussão às ordens de Moscou. Os membros do governo soviético, achando que o grupo estava se expondo demais, temia que um dos seus elementos falasse sob tortura, contando tudo sobre esconderijos da Resistência. Por isso, mandaram um recado à Gestapo revelando o dia, o lugar e a hora do encontro de Manuchian com Epstein.

Os alemães aproveitaram-se do julgamento do grupo para fazer uma publicidade fora do comum. A imprensa foi convidada e estavam presentes mais ou menos 28 a 30 jornalistas nacionais e internacionais. O processo durou 3 dias. Foi um “processo espetáculo”, até o cinema estava presente. O alvo era evidente: “Era preciso mostrar à opinião pública francesa o quanto seu país estava em perigo.” Claro! O que poder-se-ia esperar de estrangeiros?!

Com efeito, além de 3 franceses, o resto do grupo era composto de estrangeiros: 8 poloneses, 5 italianos, 3 húngaros, 2 armênios, 1 espanhol e 1 romeno. Nove deles eram judeus e todos comunistas. O chefe desse grupo era Missak Manuchian.

Paralelamente, as fachadas, muros e paredes da França são cobertos com o famoso cartaz: “L’AFFICHE ROUGE”. A propaganda alemã quer demonstrar com isso que esses homens, longe de serem libertadores, são, na verdade, criminosos de alta periculosidade.

Cartaz de “procurados” dos “terroristas” que se opunham à ocupação nazista

Os realizadores do cartaz tentaram fazer uma imagem que causasse grande impacto na mente das pessoas:

1. A escolha da cor: vermelho cor de sangue; o sangue dos assassinatos cometidos pelo “exército do crime”.

2. Na parte superior do cartaz, uma pergunta: LIBERTADORES? Em baixo do cartaz a resposta: NÃO! SÃO ASSASSINOS! E, um pouco acima, as provas: esconderijo das armas, sabotagens, mortos e feridos.

3. Em baixo da palavra LIBERTADORES, tal como legenda, aparecem dez rostos, barba por fazer, inseridos em círculos pretos e repartidos simetricamente. Sob cada um desses rostos, um nome de consonância estrangeira. Claro que não colocaram nenhum francês nesse cartaz. Missak Manuchian é qualificado de “chefe de gangue”, não é um Resistente, não é um Libertador, é um assassino!

Confeccionaram também panfletos “L’Affiche Rouge” em tamanho reduzido e acrescentaram no verso:

“Se alguns franceses roubam, sabotam e matam, podem estar certos de que o chefe deles é um estrangeiro. São sempre vagabundos, desempregados e assassinos profissionais que executam a tarefa, e são sempre os judeus que maquinam tudo.”

Os alemães e Vichy (Capital da França durante a Ocupação. Ninho de todos os colaboradores) queriam transformar esse processo em propaganda contra a Resistência. Queriam demonstrar que a Resistência era um conluio de estrangeiros contra a França e os franceses. Estavam apostando na xenofobia visceral dos franceses, no seu anti-semitismo, no seu anticomunismo. O rádio e os jornais de Vichy dão seguimento a esse mesmo tema, conclamando o perigo “judeu-bolchevique”, agente do banditismo. Trata-se de desestabilizar a Resistência num momento em que está muito bem organizada e de enfrentar problemas cada vez mais graves contra as forças de repressão.

Missak Manuchian, antes de ser fuzilado junto com seus vinte e um companheiros no dia 21 de Fevereiro de 1944, fez questão de dirigir-se primeiro aos alemães durante o processo, dizendo: “Não tenho nada contra vocês. Cumpri meu dever, que era de combatê-los. Não me arrependo de nada. Agora podem também cumprir o vosso papel: estou em vossas mãos.”

E, voltando-se para o público que era todo colaborador dos alemães (pois eram convidados dos Nazistas), proferiu esta frase lapidar: “Quanto a vocês, vocês são franceses! Nós combatemos para a libertação da França e vocês venderam a vossa alma ao inimigo. Vocês herdaram a nacionalidade francesa, e nós a merecemos.”

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