Ao longo do último mês, a Rússia restringiu a venda e importação de frutas, flores, água mineral e bebidas alcoólicas da Armênia, intensificando a pressão econômica sobre o país justamente quando busca uma aproximação com a Europa.
Oficialmente justificadas por supostas violações sanitárias e de segurança, as restrições chegaram às vésperas das eleições parlamentares na Armênia, em que o partido Contrato Civil, do primeiro-ministro Nikol Pashinyan, enfrentou um conjunto de grupos de oposição alinhados a Moscou.
O presidente russo, Vladimir Putin, já recorreu ao que chamou de “cenário ucraniano” para advertir a Armênia contra estreitar laços com a União Europeia, afirmando ser “impossível” pertencer ao mesmo tempo ao bloco europeu e à União Econômica Eurasiática, liderada pela Rússia.
Os produtos restritos
As flores foram o primeiro alvo. Em 22 de maio, o serviço russo de fiscalização agrícola, o Rosselkhoznadzor, restringiu a importação de produtos florais armênios.
Três dias depois, em 25 de maio, foi a vez das bebidas. A agência de proteção ao consumidor Rospotrebnadzor suspendeu a venda de diversos produtos alcoólicos fabricados pelas armênias Vedi-Alco, a Fábrica de Conhaque de Abovyan e a Casa de Vinhos e Conhaques Shakhnazaryan.
Em 28 de maio, vieram as hortaliças e as frutas frescas. O Rosselkhoznadzor barrou a entrada de “tomates, pepinos, pimentões, ervas frescas e morangos originários ou expedidos da Armênia”. A lista foi depois ampliada para incluir cerejas, damascos, ameixas, pêssegos, nectarinas e uvas frescas, alcançando inclusive o trânsito desses produtos rumo a outros países da União Econômica Eurasiática.
Em 3 de junho o cerco se ampliou de novo. A agência proibiu a importação de frutas pomáceas — maçãs, peras, marmelos e similares —, além de berinjelas, batatas e frutas secas.
A água mineral também entrou na lista. Em 29 de maio, o Rospotrebnadzor bloqueou a venda da Jermuk, uma das marcas mais conhecidas da Armênia, alegando “níveis excessivos de íons bicarbonato, cloretos e sulfatos”.
Na segunda-feira, 1º de junho, o Rosselkhoznadzor suspendeu as importações de frutos do mar de quase todas as fábricas de processamento armênias, poupando apenas duas. A decisão veio após uma semana de inspeções em instalações de processamento de peixe e em fazendas de criação de truta — metade das quais se recusou a passar pela vistoria. Segundo a agência, “a Armênia deve suspender toda a certificação veterinária para remessas de peixes vivos e frutos do mar destinadas a importadores russos, vindas de todas as empresas armênias”.
Yerevan desmente rumor sobre os damascos
Em meio à enxurrada de notícias, a inspetoria de segurança alimentar da Armênia veio a público, em 27 de maio, desmentir relatos de que a Rússia teria decidido interromper por completo a importação de damascos armênios neste ano. “Essa informação não é verdadeira. Decisões desse tipo são tomadas apenas pelos órgãos competentes dos países, que então notificam a outra parte de forma oficial e direta”, afirmou o regulador.
A agência disse não ter recebido qualquer notificação oficial do Rosselkhoznadzor sobre o tema e pediu o fim da circulação de informações falsas, garantindo atuar com transparência e seguir negociando.
O lado russo
Em Moscou, Dmitry Leonov, vice-presidente do conselho da Rusprodsoyuz, disse à agência TASS que os damascos armênios podem ser substituídos pelo aumento das importações da Turquia, do Uzbequistão e do Tadjiquistão, enquanto as cerejas podem vir do Uzbequistão, do Azerbaijão, da Turquia e da Moldávia.
Segundo Leonov, as uvas armênias seriam supridas por Turquia, Uzbequistão, Egito, Índia e China; os pêssegos, por Turquia, Azerbaijão, Uzbequistão e Geórgia. “Os importadores poderão ampliar o fornecimento a partir de países alternativos, já que as cadeias logísticas existentes estão adaptadas para uma troca rápida entre diferentes fornecedores”, afirmou.
Ele acrescentou que as frutas armênias representam apenas uma pequena fatia do total importado pela Rússia. “Portanto, as restrições não terão impacto significativo sobre os volumes gerais de abastecimento”, disse, descrevendo o mercado russo de frutas e hortaliças como “altamente diversificado” e capaz de se adaptar com rapidez a mudanças de oferta. As restrições sobre cerejas, damascos, ameixas, pêssegos, nectarinas e uvas passaram a valer em 2 de junho de 2026.
Pressão nas eleições
A ofensiva comercial acontece num momento delicado para Yerevan. Enquanto Pashinyan aposta na aproximação com Bruxelas, a oposição pró-Rússia tenta capitalizar o desgaste econômico, e Moscou parece disposta a lembrar, produto a produto, o peso que ainda exerce sobre a economia armênia.
