Contrato Civil garante maioria na Assembleia Nacional, mas fica sem os dois terços necessários para a reforma constitucional exigida por Baku

O partido governista Contrato Civil, do primeiro-ministro Nikol Pashinyan, venceu as eleições parlamentares de domingo (7) na Armênia e confirmou a aproximação do país com a Europa, em meio ao crescente afastamento de seu aliado histórico, a Rússia. Os resultados preliminares garantem à legenda maioria na Assembleia Nacional, ainda que abaixo do que o premiê gostaria.
De acordo com a Comissão Eleitoral Central (CEC), o Contrato Civil obteve 49,825% dos votos. Em segundo lugar ficou a Aliança Armênia Forte, encabeçada pelo bilionário russo-armênio Samvel Karapetyan, com 23,281%. A Aliança “Armênia” aparece na sequência, com 9,934%.
Os números, no entanto, sofreram pequenas alterações em relação aos divulgados na manhã de segunda-feira. A mudança atingiu em cheio o Partido Armênia Próspera, do empresário Gagik Tsarukyan, que recuou para 3,996% e corre o risco de ficar de fora do novo Parlamento.
Pela legislação eleitoral armênia, partidos isolados precisam superar 4% dos votos para conquistar mandatos. Com o resultado atualizado, apenas três forças políticas teriam assegurado cadeiras na Assembleia, enquanto o Armênia Próspera, que pelos números iniciais entraria com cinco assentos, ficaria abaixo do limite.
O presidente da CEC, Vahagn Hovakimyan, fez questão de frisar que se trata de resultados preliminares. “Vocês todos viram os números publicados em nosso site. Na verdade, eles não incluem os resultados do voto pela internet”, disse, em entrevista coletiva. O órgão tem até 3 de julho para anunciar os números oficiais.
Tsarukyan reagiu de imediato e exigiu a recontagem dos votos. O mesmo fizeram, separadamente, a Aliança Armênia Forte, a Aliança “Armênia” e o partido Asas da Unidade, liderado pelo ex-defensor dos direitos humanos Arman Tatoyan, que prometeram levar a contestação ao Tribunal Constitucional.
Mesmo com a vitória, Pashinyan não conquistou a maioria de dois terços necessária para aprovar mudanças mais profundas. Entre elas está a adoção de uma nova Constituição, promessa do premiê que responde a uma exigência do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev.
Aliyev afirma que não assinará um tratado de paz definitivo com a Armênia enquanto não forem retiradas do texto constitucional referências que, segundo Baku, sugerem reivindicações territoriais sobre Artsakh (Nagorno-Karabakh). O tema segue como um dos nós mais sensíveis da negociação.
Este foi o primeiro pleito nacional desde a perda de Artsakh para o Azerbaijão, em 2023, desfecho que encerrou mais de três décadas de controle armênio sobre a região e deixou marcas profundas no país. A oposição tem tentado transformar a derrota em arma política, acusando Pashinyan de entregar terras históricas ao inimigo.
O premiê, por sua vez, busca inverter a narrativa. Ele argumenta que a obsessão por Artsakh prendeu a Armênia em um conflito permanente e na dependência de Moscou, e apresenta o capítulo doloroso como ponto de partida para um futuro mais seguro e próspero.
“O povo da Armênia votou pela paz, pela prosperidade regional e pela cooperação regional, e espero que isso seja recebido com uma resposta positiva por parte da Turquia e do Azerbaijão”, declarou Pashinyan em seu comitê de campanha, à medida que os primeiros números chegavam.
Para parte do eleitorado, o discurso encontra eco. “Os armênios estão cansados da guerra. Queremos ser um país aberto, europeu, que se desenvolva e prospere, onde eu não precise temer que meu filho seja convocado para lutar”, disse Lilit Mkrtchyan, comerciante em Yerevan.
A vitória foi saudada rapidamente em Bruxelas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, celebrou o resultado como prova de “uma Armênia democrática” que se aproxima “cada vez mais da Europa”, e completou: “A Armênia pode contar conosco.” O premiê também recebeu o apoio de Donald Trump, que o chamou de “grande amigo e líder”.
Antigo jornalista que chegou ao poder na Revolução de Veludo de 2018 com a promessa de desmontar o sistema oligárquico do país, Pashinyan defende que o futuro da Armênia passa por uma integração mais estreita com o Ocidente, e já manifestou esperança de que a nação possa um dia ingressar na União Europeia.
O caminho escolhido pelo premiê o colocou em rota de colisão com a Rússia, que por décadas exerceu forte influência sobre a política e a economia armênias. A desilusão cresceu depois que Moscou não socorreu Yerevan durante a tomada de Artsakh pelo Azerbaijão, apesar da presença de uma força de paz russa na região.
O desgaste levou Pashinyan a suspender a participação da Armênia na Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), a mais drástica ruptura com Moscou desde a independência do país. Ainda assim, a Armênia mantém-se na União Econômica Eurasiática, liderada pela Rússia.
Às vésperas da eleição, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que a Armênia trilhava o mesmo caminho da Ucrânia. Autoridades e analistas armênios acusaram Moscou de tentar interferir no pleito por meio de campanhas de desinformação e do incentivo ao retorno de armênios que vivem na Rússia para votar contra o premiê.
Nas últimas semanas, o Kremlin adotou um tom mais ostensivo e impôs uma série de restrições comerciais que atingiram de flores e peixes a frutas e ao conhaque armênio, produtos sensíveis para uma economia ainda muito dependente do gás russo barato.
Apesar das tensões, Pashinyan prometeu manter uma política externa equilibrada após a votação, afirmando que “não há por que escolher” entre a Rússia e o Ocidente. O premiê tem se beneficiado do forte crescimento econômico impulsionado pela chegada de empresas e capital russos após a invasão da Ucrânia.
O clima político, porém, segue tenso. Logo após o pleito, um Pashinyan desafiador disse ter “esmagado” seus principais adversários, novamente classificados por ele como o “partido de três cabeças da guerra”, e voltou a prometer prender suas lideranças.
“Esta será uma das agendas mais importantes da maioria política e do governo, que devemos implementar sem demora e com passos muito decisivos”, afirmou. Os resultados finais e oficiais, conforme a CEC, só serão conhecidos em 3 de julho.


