O bilionário russo-armênio Samvel Karapetyan, dono do grupo Tashir e controlador das Redes Elétricas da Armênia (ENA), saiu da condição de magnata discreto e filantropo ligado à Igreja Apostólica Armênia para se tornar o principal inimigo político do governo de Nikol Pashinyan depois de defender publicamente o Catholicos Karekin II e criticar os ataques oficiais contra a Igreja, o que levou à sua prisão em junho de 2025 sob acusação de “apelos à usurpação de poder” e desencadeou uma ofensiva sem precedentes contra seu império econômico.
Nascido em Tashir, na província de Lori, Karapetyan fez fortuna na Rússia e é listado pela Forbes com patrimônio estimado em 4,4 bilhões de dólares, valor que se aproxima de metade do orçamento público anual da Armênia, combinando investimentos em energia, construção, varejo e imóveis na Rússia e na Armênia, com uma imagem cuidadosamente cultivada de benfeitor nacional graças a doações para projetos como a renovação da Catedral de Etchmiadzin, sede espiritual da Igreja Apostólica Armênia.
Ao longo de décadas, ele evitou se envolver diretamente na política armênia, preferindo atuar nos bastidores por meio de investimentos e do suporte à Igreja, mas o clima de confronto aberto entre Pashinyan e o clero — já marcado por declarações vulgares do primeiro-ministro contra o Catholicos — acabou colocando o empresário no centro da disputa quando, em entrevista, afirmou que sempre esteve ao lado da Igreja e do povo armênio e que, se os políticos falhassem, ele e seus aliados passariam a “participar à sua maneira” dos acontecimentos no país.

Horas depois dessa declaração viralizar, a casa de Karapetyan em Yerevan foi alvo de uma operação espetacular e ele acabou detido, enquanto Pashinyan usava as redes sociais para atacá-lo pessoalmente, prometer “desativar” o bilionário e a Igreja “para sempre” e insinuar que iria “se meter com ele à sua maneira”, consolidando a percepção de que a prisão era uma retaliação política disfarçada de defesa da ordem constitucional.
A partir daí, o governo passou a mirar os principais ativos do grupo Tashir na Armênia: a ENA sofreu multas, buscas simultâneas em dezenas de endereços e, em seguida, uma ofensiva legislativa para permitir ao Estado intervir na gestão e, se necessário, nacionalizar a empresa, culminando na nomeação de um administrador temporário ligado ao partido governista e no início de um contencioso internacional em Estocolmo, onde um tribunal arbitral concedeu medidas cautelares para impedir a tomada de controle definitiva até o exame do caso, decisão que Yerevan indica que pode não cumprir integralmente sob o argumento de “ordem pública”.
Outros negócios de Karapetyan também entraram na linha de fogo: todas as 30 unidades da rede Tashir Pizza foram inspecionadas, com várias lojas fechadas por supostas violações sanitárias e a planta de laticínios em Tashir tendo a produção suspensa, enquanto o governo moveu ação para reverter ao Estado o imóvel do Circo de Yerevan, alegando descumprimento de obrigações contratuais, ao mesmo tempo em que a promotoria abriu múltiplos processos por lavagem de dinheiro, evasão fiscal e desvio em larga escala ligados a empresas do grupo.
Mesmo detido, Karapetyan reagiu em duas frentes: no exterior, ampliou a batalha arbitral e anunciou um processo de investimento contra o Estado armênio pedindo 500 milhões de dólares em compensação pela “expropriação” da ENA, e no plano interno passou a bombardear integrantes do partido governista com ações civis por difamação e insulto, num total de 15 processos contra deputados, porta-vozes oficiais e blogueiros pró-governo, exigindo retratações públicas e indenizações.
Em paralelo, o bilionário decidiu abraçar explicitamente a política ao anunciar, em julho de 2025, a criação de uma “força política fundamentalmente nova” que ele próprio lideraria, estruturada em torno do slogan “vamos pelo nosso próprio caminho” e organizada com a ajuda de seu sobrinho Narek Karapetyan, movimento que pode transformá-lo em protagonista das eleições legislativas de 2026, embora sua cidadania russa o impeça, pelas regras atuais, de ocupar o cargo de primeiro-ministro, reservado a quem tenha apenas cidadania armênia nos quatro anos anteriores.
A escalada também teve forte dimensão externa: enquanto o governo apresenta Karapetyan como veículo de “ameaças híbridas” e “influência estrangeira” associadas à Rússia, Moscou se apressou em tratá-lo como cidadão russo injustiçado, com o Ministério das Relações Exteriores prometendo assistência e figuras midiáticas pró-Kremlin atacando Pashinyan, o que levou Yerevan a convocar o embaixador russo e a denunciar publicamente a cobertura hostil da mídia russa como interferência inaceitável na soberania armênia, ainda que sem romper completamente os canais diplomáticos.



