Ícone do site Estação Armênia

Degustando história no Museu Interativo do Vinho da Armênia

A apenas 30 quilômetros de Yerevan, na pequena aldeia de Sasunik, erguem-se orgulhosas estruturas de tufo vermelho que chamam a atenção de qualquer visitante. Ali, placas ao longo da estrada conduzem ao fascinante Museu da História do Vinho da Armênia, um dos espaços culturais mais inovadores do país. Diferente dos museus tradicionais, aqui o visitante não é mero observador, mas parte viva da experiência.

O vinho sempre ocupou um lugar central na cultura e na economia da Armênia. Moedas antigas revelam essa ligação, muitas vezes retratando o rei ao lado de uma videira, símbolo da profunda conexão do povo armênio com a viticultura.

O diretor do museu, Hayk Gyulamiryan, é arqueólogo e responsável por dar vida a esse projeto. Ele não apenas expõe artefatos, cria experiências interativas que permitem compreender o vinho como parte essencial da identidade nacional. Logo na entrada, o visitante é envolvido por uma trilha sonora que leva ao antigo porão subterrâneo, restaurado com o apoio da vinícola Armenia Wine. Um longo corredor conduz ao salão principal, onde portas monumentais se abrem para revelar um cenário digno de impressionar até os visitantes mais céticos: blocos originais da Catedral de Zvartnots, numerados e cuidadosamente preservados enquanto aguardam os trabalhos de restauração.

Projeções em grandes telas e efeitos luminosos transformam o ambiente, transportando o público para os tempos em que os ancestrais armênios prensavam uvas com os pés, fermentavam o vinho e o transportavam em sacos feitos de couro animal. Gyulamiryan explica que o museu é dividido em seções: o papel do vinho na medicina, na Igreja Armênia, a viticultura em Meghri, as referências nos filmes de Serguei Parajanov e uma instalação interativa que demonstra o processo completo de produção vinícola. O visitante também encontra peças de artesanato de várias regiões da Armênia.

Uma das exibições mais impactantes é um enorme jarro de argila com capacidade para mais de 600 litros, montado a partir de fragmentos originais. Dentro dele, repousa o esqueleto de uma mulher de cerca de 40 anos, enterrada de lado — testemunho dos antigos rituais funerários que reutilizavam ânforas de vinho. Segundo Gyulamiryan, essa prática foi identificada em vários sítios arqueológicos pelo país.

Desde sua fundação, o Museu da História do Vinho da Armênia recebe mais de 15 mil visitantes por ano. Curiosamente, a maioria é de turistas estrangeiros, enquanto muitos armênios ainda desconhecem sua existência. O museu oferece visitas guiadas em armênio, russo e inglês, conduzidas principalmente por mulheres que passam por um rigoroso treinamento para responder às perguntas e curiosidades do público.

Após mergulhar nesse universo histórico, o visitante pode continuar a viagem pelo paladar no restaurante Nazani, localizado ao lado do museu. O chef Tigran Ghambaryan criou um cardápio que resgata pratos tradicionais armênios com releituras modernas. “Não queremos apenas servir comida saborosa. Queremos contar histórias por meio dos pratos”, afirma o chef.

Ghambaryan viaja pelo país pesquisando receitas regionais e tradições esquecidas, e prepara-se para abrir um novo restaurante próximo ao museu, onde cada prato será acompanhado de uma explicação sobre sua origem. Para ele, o maior desafio é vencer a desconfiança dos próprios armênios em relação à riqueza de sua gastronomia. Entre as criações mais curiosas está o pão feito com vinhos tinto e branco, cujos aromas e texturas surpreendem até os paladares mais exigentes.

“O importante é não copiar ninguém”, afirma o chef. “A Armênia é única, e precisamos redescobrir isso com nossos próprios olhos, paladares e histórias.”

O Museu da História do Vinho da Armênia conecta passado e presente ao mostrar o papel do vinho na formação da identidade armênia. Exposições com jarros, moedas, filmes e achados arqueológicos revelam uma trajetória marcada por tradição e resiliência. Visitar o museu é compreender de forma direta como o vinho acompanha a história e a cultura do país.

Sair da versão mobile