Entrevista do astro Henrikh Mkhitaryan para a Embaixada Italiana em Yerevan

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O astro do futebol armênio Henrikh Mkhitaryan concedeu no último mês uma entrevista para a Embaixada Itáliana em Yerevan, capital da Armênia, conduzida pelo repórter Arman Suleymanyan em que falou sobre sua carreira, da transferência para o A.S. Roma e a adaptação no país.

O meio atacante começou a carreira profissional no time armênio Pyunik em 2006 e desde então passou pelos ucranianos Metalurh Donetsk e Shakhtar Donetsk, pelo alemão Borussia Dortmund entre 2013 e 2016, pelos ingleses Manchester United (2016-2018) e Arsenal e foi emprestado para o italiano A.S. Roma em setembro de 2019 com o final do empréstimo marcado para metade de 2021.

Aos 14 anos, Mkhitaryan chegou a ter uma passagem no Brasil, onde fez testes por 4 meses. O meia jogou no São Paulo e disse que sonhava ser como o Kaká. Leia mais curiosidades sobre a passagem de Mkhitaryan pelo Brasil.

Leia abaixo a entrevista e assista ao vídeo original, en inglês:

Em uma entrevista recente, você mencionou seus planos de permanecer muito tempo no Roma, quais patamares você decidiu alcançar com o clube italiano? Algo como a Copa da Liga dos Campeões?

Bem, desde o primeiro dia que cheguei aqui em Roma me senti muito bem no clube e na cidade. Tudo está ótimo e, claro, seria bom ficar aqui, o principal objetivo será ter um espaço na Liga dos Campeões e obviamente jogar e ganhar títulos.

 

Você se apresentou na Ucrânia, Alemanha e Inglaterra e está atualmente jogando na série A da Itália, o que o campeonato italiano lhe acrescentou pessoalmente?

Comparando com o futebol da Inglaterra, com o alemão ou com o ucraniano, há coisas especiais. As pessoas subestimam a liga italiana, mas eu diria que é mais do que interessante jogar aqui. É claro, talvez não seja o mesmo que era há 20 anos, mas tenho certeza de que a liga está cada vez melhor e a transferência do ano passado também pode falar por si mesma. Eu estou mais do que feliz por estar aqui. Jogar na Itália e com esses fãs, é realmente incrível. Eu ouvi muito sobre os fãs aqui na Itália, que eles são loucos no bom sentido, mas eu não poderia imaginar que eles realmente são assim. Eu estou muito contente por jogar no Roma e por ter fãs assim.

 

Não é segredo que o sucesso de cada jogador em campo também depende dos companheiros de equipe e de uma cooperação efetiva com eles. Quais são os destaques entre seus companheiros de time?

É claro que o bom desempenho não depende apenas de você, depende de todos. Com um jogador você não pode vencer um jogo, você precisa vencer com 11 e com o restante do time que está sentado no banco naquele dia. O futebol é um esporte de equipe. Não é um esporte que você acha que “estou bem hoje, então tudo depende de mim”. Depende de todo o elenco e, é claro, estou tentando dar o meu melhor, tentando ajudar meus colegas de equipe e, obviamente, eles estão tentando fazer o mesmo por mim. No primeiro dia em que cheguei aqui, fiquei impressionado com alguns jogadores que tinham uma qualidade que eu não tinha visto nem quando jogava na Alemanha, Ucrânia ou Inglaterra e não vou mencionar, como você disse, qualquer nome. Apenas direi que temos grandes talentos, grandes jogadores de futebol que podem alcançar o mais alto nível e espero que, com suas qualidades, possam nos ajudar a alcançar nosso objetivo.

 

Você pode nos dizer a situação mais engraçada que você passou na Itália, seja entre colegas de equipe ou em geral? Porque nós armênios sabemos que os italianos também têm bom senso de humor.

Acho que os italianos com sua mentalidade são semelhantes aos armênios e isso é um bom ponto para mim, porque estou me sentindo muito bem entre os italianos aqui e isso facilita a vida. A coisa mais engraçada que aconteceu acho que aconteceu quando eu estava pegando um voo no dia 2 de setembro de Londres para Roma. Eu estava sentado no avião e o comissário veio até mim e perguntou: ”Você já assinou com o Roma?”. Eu disse: “Assim como você vê, estou indo para Roma para ver se vou assinar ou não”. Quando chegamos, havia muitos jornalistas e perguntei ao assessor de imprensa do Roma: “Olha, eu ainda não assinei o contrato. Por que essas pessoas estão aqui com as câmeras e esperando que eu diga algo sobre o Roma?”. E ele disse: “Bem, você sabe que a Itália é louca por futebol e sabem de tudo que acontece, então você tem que estar preparado para esse tipo de coisa”. Eu acho que essa é uma das coisas engraçadas que aconteceram comigo. É claro, talvez a história não seja tão engraçada. Mas eu estava em uma situação em que eu não sabia se ia assinar pela Roma ou não, e eles já sabiam que eu iria.

 

Como seus familiares te motivam? Que tipo de apoio você tem por causa deles?

Mesmo antes de me casar, eu tinha pessoas que eram meus guias. Minha mãe, minha irmã, meu pai, que não está conosco há muito tempo, e outros membros da minha família, como os meus primos, meus amigos e muitas outras pessoas. Eu estou jogando futebol para mim, mas também quero que eles fiquem felizes. Se eu estiver jogando bem, isso significa que eles ficarão felizes. Mas o passo seguinte foi quando eu casei e meu filho nasceu. Posso dizer que toda vez que vou para a sessão de treinamento estou pensando neles. Infelizmente, ainda não joguei um jogo desde que meu filho nasceu, mas espero que haja muitos jogos em breve. Estou ansioso por isso, durante o treinamento eles estão sempre na minha mente e estão sempre me empurrando para a frente, que tenho que treinar mais e jogar mais.

 

É impossível ignorar o tema da deliciosa culinária armênia e italiana. Você acha que é uma vantagem viver e jogar na Itália?

Assim que comecei a provar a comida aqui em muitos restaurantes, eu dizia “oh meu Deus”. Durante todo o ano provei muitas coisas, foi incrível o que provei até agora e, é claro, isso te dá um empurrão para a frente. A comida pode servir como uma motivação para fazer você treinar muito, jogar duro e conhecer sua vida na Itália.

 

Qual é o próximo objetivo no futebol que você tem pessoalmente?

Eu conquistei muitas coisas, mas para mim isso é passado. Quero alcançar mais nos próximos anos. Não resta muito tempo para a minha carreira no futebol, mas tenho certeza de que estou fazendo o possível para alcançar algo. No final de sua carreira no futebol todos pensarão: “O que você fez pelo clube?” “Você ganhou algum título? Como jogou?”. Então, para mim, é muito importante ter um legado positivo. Vencer, ganhar um título ou fazer algo de bom pelo clube.

 

Existe alguma gíria específica para o futebol italiano? Uma forma de se referir a uma formação de ataque ou algo do tipo?

O idioma italiano é um idioma muito bonito e, para mim, era um dos meus principais objetivos quando eu era jovem. Eu tinha que escolher aprender o italiano ou o espanhol e tive a oportunidade de aprender agora o italiano e, graças a Deus, eu estou indo bem. As pessoas estão felizes com o meu italiano. Já dei algumas entrevistas e no jogo é muito mais fácil se comunicar com seus colegas de equipe. Porque você não precisa falar frases longas, só poucas palavras: esquerda, direita, na frente, atrás. É fácil, mas o jeito que me dediquei a aprender italiano acho que me saí bem graças às pessoas que me ajudaram.  Tenho certeza de que ainda tenho muito espaço para melhorar meu italiano.

 

A quarentena dá a você a oportunidade de entrar em contato com seus fãs com mais frequência pelas mídias sociais? Que tipo de pergunta você costuma receber dos seus fãs?

Sim, dei algumas entrevistas e participei de algumas lives e respondi algumas perguntas dos meus fãs. As perguntas eram sobre como eu estou durante a quarentena, como me mantenho ocupado, se estou assistindo a algum filme ou série, se posso sair para participar de uma pequena sessão de treinamento. Essas foram as perguntas que as pessoas mais me fizeram durante a quarentena e estou feliz em ter contato, conversar com elas e saber também o que eles estão fazendo nesses dias.

 

Como seus fãs recebem seu modo de jogar? Nós, armênios, estamos sempre pensando em nossas emoções, mas agora na Itália você tem algum contato com os fãs italianos e que tipo de feedback você recebe deles?

Bem, o único momento que tenho contato com eles é depois dos jogos quando eu saio com meu carro para ir para casa e, às vezes, eles me param e pedem um autógrafo ou uma foto. Também na cidade quando eu saio para uma caminhada ou vou em um restaurante. Encontro fãs em todos os lugares e fico feliz em conversar com eles. É claro que algumas pessoas são mais simpáticas, outras não gostam, é normal. Você não pode ser amado por todo mundo, faz parte do futebol. Mas é claro que estou dando o meu melhor para deixar todos felizes. Como? Depende de como eu jogo. Se eu marcar gols, se vou der assistências isso vai deixá-los felizes, é claro. Para mim o mais importante é que o meu time vença, mas também ficarei feliz se puder marcar e dar assistências.

 

Eu sei que você assistiu à um documentário da Netflix sobre o MBA e há um momento em que Michael Jordan diz que é apenas um jogador profissional, não um ativista. O que você pensa em relação a isso? É realmente difícil para um esportista profissional ser algo parecido com um ativista ou um ecologista? Qual é a sua opinião sobre isso?

Bem, se ele disse, está certo. Você não pode ser ativista se pratica esportes. Quero dizer, eu também estou totalmente focado no futebol e não penso em mais nada. Seja de ser ativista ou fazer outra coisa fora do futebol. Não é meu papel, quero dizer, eu me dedico ao futebol, estou envolvido no futebol e ainda vou estar no futebol. Não quero olhar para os lados para ver o que está acontecendo, se posso fazer algo de outra forma ou se tenho que dizer algo para provocar. Meu trabalho é jogar futebol e pronto. Eu quero aproveitar isso.

 

Você inspira aos adolescentes e pessoas que são seus fãs algo mais do que simplesmente bons dribles no campo. Você já pensou sobre o que mais você apresenta aos seus fãs e jovens, além do seu belo futebol?

Se a nova geração está vendo você como um ídolo, significa que você esteve ou está no caminho certo. Se eles veem algo em você que podem incorporar para si, significa que você está fazendo certo e está fazendo bem. Eu sempre sonhei em ser um jogador de futebol muito bom, um jogador de futebol de alto nível, para que as pessoas pudessem me olhar e se orgulhar de mim e aprender algo. Se eles aprenderem algo com você, isso significa que você está fazendo um ótimo trabalho.

 

Uma vez perguntaram a Michel Platini o que as pessoas precisam para ter um bom time de futebol e ele disse: “Apenas três coisas: dinheiro, dinheiro e dinheiro”. O que você acha que um país, por exemplo a Armênia, precisa para ter um time realmente ideal?

O que a Armênia precisa para ter um time dos sonhos?

No nível das equipes da Liga dos Campeões. O que fazemos de errado?

Na minha opinião, vejo muitas coisas erradas, mas também vejo coisas muito boas. É muito difícil falar sobre as coisas que você não faz parte. Não sou treinador, não estou na academia para ver que tipo de trabalho eles estão fazendo lá. Os treinadores, as crianças, como estão treinando, que filosofia eles adotam para treinar e, claro, o dinheiro faz diferença. Com dinheiro você pode construir mais, pode conseguir mais coisas e ele pode ajudá-lo a alcançar seus objetivos, seus sonhos.

 

Você mencionou a palavra filosofia além de dinheiro, então eu gostaria de saber, qual é a sua filosofia para se tornar um dos melhores jogadores de futebol?

Antes de ter minha filosofia, sempre tive um sonho. Sempre soube aonde queria ir, sempre soube o que queria fazer. Por causa de meu pai tornei-me jogador de futebol e sou muito grato por escolher esse esporte e este trabalho. Porque não me vejo sem o futebol. Desde o meu primeiro dia sempre tive o sonho de vencer os melhores campeonatos da Europa nos melhores clubes da Europa. O que fiz? Realizei meu desejo. Como? Trabalho duro. Misturei meu talento com o trabalho duro. Não é fácil, mas às vezes você tem que se sacrificar para conseguir essas coisas. Minha filosofia era muito simples, trabalhar duro, acreditar em si mesmo, nunca desistir. Porque se você desistir, isso significa que você está no caminho errado. Você deve pensar que está em um túnel e que vê uma luz e está trabalhando para alcançá-la e foi o que eu fiz.

 

Muitos de nós dizem que italianos e armênios são muito parecidos entre si. Qual a sua experiência?

Eu acho que a única diferença é a língua. Eu não vejo nenhuma diferença, porque eles gostam de fazer algumas piadas, eles são engraçados. Claro que eles também mentem para você, mas é normal. Estou acostumado com isso e gosto desse tipo de coisa. Eu gosto de positividade com pessoas com energia. No primeiro dia em que cheguei aqui me senti totalmente como se estivesse na Armênia e isso me faz sentir muito bem.

 

Marcelo Mirzeian Co-criador do Portal Estação Armênia. Engenheiro Mecânico e de automação, Descobri a ascendência armênia tardiamente e tenho me dedicado à criar conteúdo online para a comunidade desde então. Atualmente morando em Toronto.

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