Home Da Redação Heitor Loureiro : “Um século se passou, e agora?”

Heitor Loureiro : “Um século se passou, e agora?”

Efemérides sempre dão ensejo a uma série de comemorações e rememorações. Jubileus e “datas redondas” funcionam para dar visibilidade a um determinado evento histórico que um grupo de indivíduos acreditam que seja importante lembrar.

Dois mil e quinze é um ano especialmente profícuo nesse sentido. Em 1945, com o final da II Guerra Mundial, muitos povos co/rememoram grandes acontecimentos. Os italianos celebram a libertação do país do jugo fascista em 25 de abril de 1945; o mundo lembra a libertação dos campos de concentração e extermínio nazistas que causaram a morte sistemática de milhões de judeus e outras minorias; em 9 de maio, todas as nações que compunham a URSS celebram, sob a liderança da Rússia, o “dia da vitória” e a derrocada do nazifascismo; os japoneses choram duas bombas atômicas detonadas sobre suas cabeças em cidades sem alvos militares e com uma população civil completamente indefesa, em um evento cujo grau de violência e motivação ainda são poucos discutidos. Os 500 mil mortos na Indonésia, em 1965, em um genocídio completamente banalizado por aquela sociedade também devem ser mencionados. O genocídio de Srebrenica, na Bósnia, completa 20 anos em 2015 e, assim como ocorre na Indonésia, ainda não é uma questão resolvida naquele país, uma vez que o nacionalismo sérvio ainda consegue manifestar abertamente sua satisfação por terem conseguido matar 8 mil bósnios, além de causar a expulsão de outros 20 mil.

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Marcha em direção ao Memorial do Genocídio Armênio em Yerevan, 24 de abril de 2015. Foto: Pedro Bogossian Porto

Em meio a tantas efemérides, o centenário do genocídio armênio destaca-se tanto pela magnitude do acontecimento histórico no qual cerca de um milhão de armênios foram mortos de maneira sistemática pelo governo otomano, quanto pelo fato desse crime ter completado um século sem ter sido admitido pelos seus perpetradores (ou seus herdeiros), tampouco amplamente reconhecido pela comunidade internacional e seus principais atores.

Já há algum tempo, os armênios organizavam as atividades para o 24 de abril de 2015 e projetavam uma série de expectativas para o ano do centenário. Nos países onde há comunidades armênias organizadas e ativas, foram criados comitês especiais para gerenciar os trabalhos de divulgação da causa armênia e pedir por justiça e reconhecimento por parte da República da Turquia. Esses comitês, centralizados pelo governo da República da Armênia por meio de suas representações diplomáticas ao redor do mundo, tiveram a difícil tarefa de aglutinar anseios e demandas de diferentes instituições diaspóricas em prol de uma agenda comum sintetizada pela declaração pan-armênia promulgada pelo presidente Serzh Sargsyan em janeiro de 2015. Paralelamente as atividades “oficiais”, as entidades seguiram suas próprias agendas, encorpando as atividades de rememoração e propondo ações convergentes que dificilmente poderiam ser encampadas por órgãos oficiais, como a “marcha pela justiça” em São Paulo, que levou cerca de 250 pessoas à frente do Consulado da República da Turquia a pedir por justiça, reconhecimento e reparação.

Passadas algumas semanas do 24 de abril de 2015, data que marcou o centenário do início do genocídio armênio, a avaliação que deve ser feita é de vitória do povo armênio ante ao desconhecimento e ao negacionismo. De um tema distante e pouco familiar à sociedade brasileira, o genocídio armênio é agora um assunto mais conhecido, graças a enxurrada de reportagens, artigos, publicações e eventos ensejados pela efeméride. Em poucas semanas, tanto a imprensa quanto a academia brasileira abordaram o genocídio armênio mais do que nos últimos dez anos. Ações como a declaração do Papa Francisco e do presidente alemão colaboraram, obviamente, para esse crescente interesse, além das tentativas de tergiversação do governo turco com a rememoração adiantada da batalha de Gallipoli, numa tentativa de mitigar o centenário do genocídio, numa manobra que se mostrou um tiro de Erdogan no próprio pé.

Os armênios podem reivindicar vitória na batalha pela memória travada em abril contra o governo turco e seus lugares-tenentes como o Azerbaijão e o Paquistão. Mas e agora? Após tanto tempo, energia e dinheiro gastos, o que ainda resta para ser feito? O que esperar do centésimo primeiro aniversário do genocídio armênio? E dos demais?

No Brasil, após o crescente interesse da sociedade pelo assunto, o compromisso é gerar conteúdo e informação a um público que buscará mais informação pelo assunto. Publicações e seminários acadêmicos são importantes e necessários, mas não podem perder força depois de 2015. Esse é um trabalho de médio e longo prazo. Nesse intervalo, não se pode deixar o genocídio armênio hibernar, caso contrário, todo o trabalho de 2015 irá pelo ralo. O mesmo acontece com a coletividade armênia organizada: o centenário do genocídio foi o ensejo para a reunião de diversas entidades e indivíduos em torno de uma pauta (relativamente) única, o que gerou uma mobilização raramente vista em São Paulo. Aceitar o sentimento de “dever cumprido” em 2015 e acreditar que o que deveria ser feito já foi feito e há muito pouco ou quase nada ainda por fazer é o mesmo que implodir um prédio recém-construído.

Ademais, haverá a reação. O sucesso das atividades de 2015 não será aceito passivamente pelo negacionismo, que intensificará suas ações a fim de colocar o genocídio armênio no esquecimento, onde ele ficou por décadas. Os armênios e os que lutam por justiça não podem voltar a ter apenas uma postura retroativa, reagindo afoitos à negação e à tergiversação. Os armênios marcaram um gol e têm a posse da bola. Mas se fechar na defesa e esperar o jogo acabar é um erro grave. Mesmo porque não sabemos quando essa partida irá terminar. Espero que não estejamos no intervalo entre os dois tempos, mas já mais próximos do apito final.

Mas se for assim, que seja. Os circassianos relembram em maio o 151º aniversário do genocídio cometido contra eles pelo Império Russo e ainda lutam bravamente por reconhecimento. As comunidades armênias de países como Uruguai e Argentina não baixaram a guarda depois de terem obtido o reconhecimento de seus governos e ainda permanecem na vanguarda da luta por justiça e memória para os acontecimentos de 1915. Há fôlego para continuar lutando e avançado, mesmo que devagar. O que não pode acontecer é um retrocesso causado por desmobilização ou pela inebriante sensação de dever cumprido. Não adianta ganhar todos os rounds nos pontos e perder a luta no último assalto, por nocaute.

Ademais, o reconhecimento do genocídio armênio é apenas uma parte (importante, sem dúvida) da luta dos armênios no século XXI. A República da Armênia ainda enfrenta sérios desafios para os quais não há soluções simples. A normalização de relações com a Turquia e a reabertura de fronteiras é um imperativo a fim de diminuir a dependência da Geórgia e facilitar o abastecimento da população armênia. A saída de milhares de pessoas por ano do país rumo à Rússia ou ao ocidente é outra questão delicada e que deve ser atacada de frente e rapidamente, pois a depopulação da República da Armênia é uma realidade assustadora e é uma ameaça ao futuro do país. A resolução definitiva do conflito em Nagorno-Karabakh é essencial para a manutenção do equilíbrio na região. A proteção do patrimônio histórico armênio e de sua população na Síria também tem que ser prioridade: os danos à comunidade e à herança armênia no Levante são irreversíveis. Mas ainda há o que ser salvo, inclusive vidas.

É necessário encarar todas essas questões como uma só e perceber que a luta pelo reconhecimento do genocídio armênio não é apenas um acerto de contas com o passado, mas uma questão do presente e do futuro. Há que se consolidar os laços de solidariedade com outros povos e grupos oprimidos no mundo a fim de somar esforços em prol de um mundo mais justo e igualitário. Há que se trabalhar no interior da sociedade turca com as centenas de milhares de pessoas que tomam as ruas de Istambul todos os anos desde o assassinato de Hrant Dink. Há que se entender que a causa dos armênios não é apenas dos armênios, mas de todos os povos. Por fim, há que entender também que a “causa armênia” é mais do que o genocídio armênio, é mais do que uma efeméride, uma “data redonda”.

Que o despertar de abril de 2015 tenha sido definitivo.

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