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Por Ece Temelkuran no The Guardian
Incluindo meu emocionado “obrigado”, o telefonema durou menos de um minuto. “O dono do jornal decidiu… é… não… não renovar o seu contrato… sinto muito.”
Eu já havia sido alertada sobre escrever “demais” sobre duas prisões de jornalistas e os meus últimos dois artigos – um sobre a guerra do primeiro-ministro contra os jornalistas e outro sobre os direitos do povo curdo – foram considerados controversos. Então, o telefonema não era inesperado.
Mas então veio o alvoroço dos leitores no Twitter. Alguns dos meus colegas colunistas também protestaram sobre as motivações políticas por trás da minha demissão – enquanto os apoiadores do governo diziam: “Ela mereceu!”.
Demorei alguns dias para ter a visão geral do que estava acontecendo. Mas quando tive, percebi que tudo estava conectado com a perda de três colegas: um morto, dois presos e uma história que começou cinco anos atrás.
Em 19 de janeiro de 2007, o jornalista armênio Hrant Dink foi morto a tiros em plena luz do dia em frente ao seu escritório em Istambul. Um rapaz, que só tinha 17 anos na época do assassinato, foi declarado culpado do crime há cinco anos. Desde o dia do ocorrido, era evidente para todos aqueles que conheciam a história dos assassinatos na Turquia que essa era uma execução política.
O assassinato ocorreu apenas dois dias antes de eu encontrar Hrant para discutirmos um livro que ele queria que eu escrevesse sobre a diáspora armênia. Ao invés de encontrá-lo, corri para o local e me vi parada do lado de fora de seu escritório, numa poça de seu sangue.
No final, me senti profundamente culpada por aceitar as ameaças de morte contra ele tão facilmente, mas isso me fez ficar mais determinada a escrever Deep Mountain – o livro que ele pediu. Eu não sabia, mas dentre as 100 mil pessoas que marcharam no funeral de Hrant, estavam duas outras ávidas por dedicar seus trabalhos a ele: meus amigos e colegas Nedim Sener e Ahmet Sık.
Durante quatro anos, os artigos no jornal Milliyet apontaram para a negligência policial no caso, com o serviço de inteligência ocultando as evidências e o conhecimento em detalhes por parte de departamentos governamentais do plano contra Dink.
Logo, o autor desses artigos, Nedim Sener, foi preso. A prisão foi feita três meses depois da publicação de seu livro “A Sexta-Feira Vermelha – Quem quebrou a caneta de Dink?”, no qual ele mostra o resultado de suas investigações no caso Dink e liga os assassinos ao Estado. Enquanto isso, o repórter Ahmet Sık não teve tempo suficiente para publicar seu livro sobre o mesmo assunto antes de ser preso, no mesmo dia 03 de março de 2011.
Ambos estão presos há onze meses e são acusados de serem membros de uma organização terrorista que poderia ter assassinado Dink. A Ergenekon é uma organização clandestina supostamente formada por generais aposentados, jornalistas e políticos que declaram estar planejando uma série de assassinatos de grande destaque, a fim de criar o caos e preparar o terreno para um golpe militar.
A acusação disse no tribunal que seus anos de trabalhos jornalísticos eram apenas uma capa para esconder suas reais identidades terroristas. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan fez ameaças abertas contra os jornalistas que continuassem a cobrir as notícias sobre os colegas presos, sendo que os protestos contra as prisões foram diminuindo gradualmente antes da primeira audiência de Nedim e Ahmet, acontecida meses após a prisão de ambos.
Mas no dia 27 de dezembro, apesar do medo da prisão, bravos jornalistas turcos começaram a tuitar do julgamento. A fraca evidência deixou claro que qualquer um de nós, repórteres, poderia também ser preso acusado de terrorismo; porque tudo que ligava Ahmet e Nedim à organização Ergenekon era um documento de Word implantado em seus computadores, ligações telefônicas casuais e entrevistas que eles deram sobre seus respectivos livros. A acusação era tão ridícula que causou constantes gargalhadas na sala de audiência.
Antes da última audiência em 23 de janeiro, cinco anos após o assassinato, houve um veredito sobre o caso Dink. A Corte se recusou a reconhecer as óbvias conexões entre os assassinos e o Estado, levando a protestos com cerca de 30 mil pessoas. Três dias mais tarde, Nedim, durante a sua defesa, deixou claro que acreditava ter sido mantido preso como parte de uma tentativa de ocultar as evidências do caso Dink. Nedim disse: “Na verdade, é bom que eu ainda esteja na prisão enquanto o veredito de Dink é dado.” Isso sem mencionar a promoção governamental de todos os oficiais que tinham alegadamente conexões com o assassinato.
Ahmet, um expert em organizações paramilitares, escreveu um livro (O Exército do Imam) explorando como o serviço de inteligência se infiltrou no movimento Fethullah Gülen – uma rede islâmica moderada. “Como um socialista”, ele disse em sua defesa, “acho desdenhoso ser acusado de ser um membro de uma rede terrorista nacionalista e militarista como a Ergenekon”. Pela quinta vez, Ahmet e Nedim foram forçados a se defenderem na corte com a continuidade do caso.
As investigações sobre a Ergenekon começaram há cinco anos e, apesar de milhares de prisões e investigações, nenhum veredito foi dado. De acordo com defensores da liberdade de expressão, o caso Ergenekon, junto com o caso KCK – contra a organização civil ligada ao movimento curdo PKK – tem se tornado uma ferramenta para o governo assediar a oposição.
Ambos usam uma infame lei antiterrorista para se livrarem dos oponentes do regime. E poucos dias antes do veredito no caso Dink, o ministro do interior, Idris Naim Sahin, disse: “O Terror é um fenômeno multifacetado que inclui psicologia e arte… Às vezes ele está numa tela, às vezes num poema, em artigos nos jornais ou até mesmo em piadas. Nós sabemos que células terroristas podem estar em uma cátedra universitária, em uma associação ou em ONGs.”
Graças a essa mentalidade, a Turquia está agora na 148ª posição dentre 179 países no relatório sobre a liberdade de imprensa do Repórteres sem Fronteira – somente um pouco acima do Afeganistão e caindo constantemente no ranking. Mais importante, no entanto, é o medo silencioso dos jornalistas, impossível de contabilizar, considerando que 3.500 políticos turcos e curdos, 500 estudantes e 100 jornalistas estão agora presos no país.
No dia 26 de janeiro, o primeiro-ministro fez um discurso no qual disse que os jornalistas presos não estão atrás das grades por causa das atividades jornalísticas, mas sim graças aos seus crimes sexuais ou terrorismo. Como Dink disse cinco anos atrás em seu último artigo, nós, jornalistas, estamos “como pombas assustadas”. Um morto, dois presos e eu desempregada – e como Nedim disse em sua última defesa: “Isso dói.”
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