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“Eu gostaria de ver algum poder do mundo destruir essa raça, essa pequena tribo de pessoas não importantes, cujas guerras foram todas lutadas e perdidas, cujas estruturas desmoronaram, literatura não é lida, música não é ouvida, e preces não são mais atendidas. Vá em frente, destrua a Armênia. Veja se consegue fazer isso. Mande-os para o deserto sem pão nem água. Queime suas casas e igrejas. Depois veja se eles não vão rir, cantar e rezar novamente. Pois quando dois deles se encontrarem em algum lugar do mundo, veja se eles não vão criar uma nova Armênia.”
William Saroyan, em “The Armenian and The Armenian”, do livro “Inhale and Exhale”, 1936
Certamente nas palavras do grande Saroyan podemos identificar, mesmo que de forma indireta, os acontecimentos que vêm agitando a vida da nação armênia nos últimos meses. Os fatores geradores de tudo isso foram as resoluções do parlamento francês que criminalizam a negação do genocídio.
No Brasil, como que do nada, apesar de sabermos que não foi assim, um infeliz artigo do ex ministro Bresser-Pereira movimentou a comunidade e mostrou nossas virtudes.
Destaco sempre o trabalho coletivo. A reação institucional, tanto do Consulado , quanto a do Conselho Representativo da Comunidade e do Conselho Nacional Armênio (CNA), foram mostras extremamente positivas. A campanha do Portal Estação Armênia foi o catalisador de tudo isso. Sem medo de errar, digo que milhares de pessoas ficaram sabendo através das redes sociais dessa ofensa a nós, armênios, publicada de forma destrambelhada pela Folha de São Paulo por intermédio da ação dos leitores do Portal.
O paralelo com as palavras de Saroyan não poderia ser melhor quando ele diz “Vá em frente, destrua a Armênia. Veja se consegue fazer isso” e depois encerra dizendo “Pois quando dois deles se encontrarem em algum lugar do mundo, veja se eles não vão criar uma nova Armênia.”
Essa é a frase que nos resume. Somos quando somos mais que um. Isso nos faz armênios. Para provar isso conto uma história.
No final de 1920, as tropas turcas ameaçavam a Armênia mais uma vez. Pressionados, os governantes armênios aceitaram um acordo com a Frente Russa Bolchevique do Cáucaso.

Assim, naquele dezembro gelado, as tropas do Exército Vermelho entraram em Yerevan, que tinha 50.000 habitantes e mais de 20.000 refugiados em tendas. Muitas dessas tendas foram destruídas para servirem de cobertores para os soldados russos e um grande número de famílias armênias foram desalojadas de suas casas para abrigar as tropas bolcheviques. Os líderes Tashnagtsagan passaram a ser perseguidos. Hamazasp, herói revolucionário, Levon Shant, intelectual de primeira grandeza e Katchazouni, político, todos foram presos injustamente. Os desmandos eram tão grandes que os Generais Dro, Nazarbekian e Siliguian foram levados forçadamente para Moscou.
Os atos de vandalismo dos soldados russos eram tão assustadores que Yerevan parecia uma cidade fantasma.
Na primeira oportunidade as lideranças do Tashnagtsutiun decidiram agir. Era chegada a hora da revolta. Em Zangezur e Karabagh o General Karekin Njdeh, lenda viva dos fedays, organizou as tropas e tomou os poucos prédios públicos nessas localidades. Njdeh enviou um emissário para Yerevan avisando do sucesso da operação. Era o código para a revolução. Os Tashnagtsagan entram em Yerevan com 5.000 guerrilheiros e o Exército Vermelho foge. Fizeram história coletivamente.
Lendo o livro de Hratch Dasnabedian – História do Tashnagtsutiun – e ouvindo relatos do falecido Enguer Rupen, o único funcionário público da República da Armênia de 1918 que conheci e que nos brindava com seus relatos nos fins de tarde no Clube Armênio, constatei que Dasnabedian foi muito fiel aos fatos que narro a seguir:
Em uma reunião na sede do governo de salvação nacional, os dirigentes que chegavam encontraram Simon Vratsian chorando. Ele tinha acabado de receber a notícia do assassinato do grande Hamazasp. “Ele foi fuzilado, amarrado de costas em uma cela. A cela estava trancada! Covardes bolcheviques executaram o guerrilheiro patriota.”
Meses depois, o Exército Vermelho invadiu a Armênia e tomou o poder com apoio dos bolcheviques armênios, liderados por Alexander Miasnakian. Os invasores entenderam, graças aos revoltosos, que os armênios, assim como todos os povos, têm que ser respeitados.
Roubei carinhosamente fragmentos dessa história de um discurso feito pelo Yeghpair Garbis Bogiatzian em 2006, durante as festividades em homenagem aos heróis de fevereiro de 1921.
Nossos tempos são outros e, certamente, o debate deve sempre substituir as armas. Isso não nos deixa menos atentos quando o assunto é a causa do nosso povo. Somos ainda os mesmos guerreiros daquelas montanhas do Cáucaso e nossa tarefa é despertar os guerreiros ainda adormecidos. Como fã de Saroyan, termino com uma outra referência do grande escritor em sua obra Comédia Humana, que li muito tempo atrás. Em determinado trecho, o Sr. Ara, personagem do livro, diz para o seu filho, de forma exaltada, se lamentando do exílio e, simultaneamente, enaltecendo as possibilidades de viver na América, praticamente rogando-lhe: “Continue a minha luta. Eu te amo.”
Nossa ação conjunta no episódio de Bresser-Pereira, Saroyan e os heróis de fevereiro de 1921 são exemplos de que não existe o armênio. Existem os armênios!
James Onnig Tamdjian
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