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Ugur Ümit Üngör é um acadêmico da nova geração emergente da Turquia que encara diretamente o Genocídio Armênio. Professor assistente no Departamento de História da Universidade de Utrecht na Holanda e pesquisador do Centro de Estudos de Holocausto e Genocídios em Amsterdã, seu principal interesse reside na sociologia histórica da violência em massa e do nacionalismo. Ele recentemente publicou três livros sobre o Genocídio Armênio e assuntos afins.
Üngör estudou nas universidades de Groningen, Utrecht, Toronto e Amsterdã. Após obter o grau de mestre em 2005 nessa última universidade, ele continuou seus estudos até defender sua tese de doutorado em 2009. Proferiu palestras na Universidade de Sheffield na Inglaterra entre 2008-09 e foi pesquisador de pós-doutorado no Centro de Estudos da Guerra da Universidade de Dublin (Irlanda) entre 2009-10.
De acordo com uma entrevista de 17 de setembro de 2009 para Vahram Emiyan, publicada no jornal armênio de Beirute Aztag, Üngör despertou o seu interesse sobre o Genocídio Armênio através de leituras sobre o Holocausto, em particular com o livro de Yehuda Bauer, Repensando o Holocausto. Bauer faz comparações com outros genocídios, incluindo o armênio. Apesar das suas origens familiares serem da mesma região do genocídio, Üngör diz “eu nunca tinha ouvido falar sobre nada e isso despertou a minha curiosidade. Quando eu fiz a minha pesquisa, eu estava assombrado com a diferença entre o negacionismo da história oficial turca e o que dizia a população no leste da Turquia, que sabia sobre o Genocídio. “Eu viajei pela Turquia oriental e fiz várias entrevistas com idosos, que falaram abertamente como os armênios haviam sido massacrados pelo governo”.
Em 2007, Üngör publicou o seu primeiro livro Vervolging, Onteigening en Vernietiging: De Deportatie van Ottomaanse Armeniërs tijdens de Eerste Wereldoorlog, um pequeno volume em holandês que dava um panorama do Genocídio Armênio. A publicação incluía também uma análise sociológica do conflito identitário. No conflito turco-armênio, como Üngör resumiu “os armênios lembram-se de uma história que os turcos querem esquecer (…) memórias construídas são os primeiros componentes da identidade de um grupo e, tanto armênios quanto turcos encaram desvios dessa memória como ataques diretos as suas identidades. Para os turcos, muito disso está relacionado também com uma consciência de culpa, o chamado ‘trauma do perpetrador’: encarar a dura realidade do genocídio é simplesmente doloroso e vergonhoso”.
Há poucos anos atrás, Üngör publicou sua tese de doutorado The Making of Modern Turkey: Nation and State in Eastern Anatolia, 1913-1950 (Oxford University Press, 2011). Nesse livro, ele examinou o processo de engenharia social dos Jovens Turcos e de seus sucessores republicanos engajados num projeto mal-sucedido de criar uma Turquia homogenia, por meio da violência de massa e genocídio contra armênios e curdos. Üngör se concentrou nos eventos na província de Diyarbekir para ilustrar o processo de formação do Estado e da nação. Ele utilizou fontes ocidentais e turcas, além de alguns trabalhos armênios traduzidos e lançou mão da história oral por meio de entrevistas com pessoas de Diyarbekir. Sua tese ganhou alguns prêmios holandeses em 2010 e 2011.
Seu mais recente trabalho Confiscation and Destruction: The Young Turk Seizure of Armenian Property (Londres: Continuum, 2011) foi feito em co-autoria com Mehmet Polatel. Essa obra examina como o nacionalismo econômico turco conduziu o confisco de riquezas e propriedades armênias e como essas foram redistribuídas. Novamente, a análise foi ilustrada com detalhados estudos provinciais, no caso das províncias de Adana e Diyarbekir. O papel das elites locais, seu relacionamento com as autoridades centrais e a participação da população turca comum nos saques e redistribuição também são abordadas.
Üngör e Polatel finalizam o livro com uma nota pessimista no que diz respeito à possibilidade de solução para a questão da restituição, mas pontuam casos modernos como potenciais referências. Um desses casos nos quais Üngör estava pensando antes de publicar o livro era a relação polaco-ucraniana. Em 1994, acadêmicos dos dois países convocaram uma conferência para discutir abertamente a violência. Entretanto, segundo Üngör, há uma grande assimetria na violência no caso turco-armênio. “Minha visão sobre isso mudou após o ‘Confiscation and Destruction’, que foi um livro profundamente frustrante e deprimente para se escrever. Talvez pela primeira vez na minha carreira, a enormidade do crime se tornou evidente para mim. Quando eu finalizei o texto, eu estava convencido que a injustiça, em toda a sua magnitude seria impossível de ser revertida ou reparada. Em essência, essa é a natureza do genocídio: destruição irreversível e irremediável”.
As reações turcas e curdas aos livros de Üngör são ambíguas e estão “entre a fúria e os elogios”. Üngör explica: “turcos nacionalistas me mantém nos seus radares de traidores e têm me ameaçado de várias maneiras, enquanto turcos liberais têm me encorajado e elogiado meus esforços. Isso não é nada inesperado, mas algumas reações me surpreenderam. Membros de algumas famílias me atacaram sem terem lido uma única frase dos meus livros. Mas então, alguns turcos me contataram em particular e explicaram que eles haviam crescido com histórias sobre o Genocídio. Eu nunca vivi na Turquia, eu não tenho uma titulação específica na história da Turquia e por isso eu não me considero um ‘turcologista’. Eu sou um tanto desconhecido e isolado da comunidade acadêmica turca. Isso deve mudar, pois meus livros estão atualmente sendo traduzidos para o turco”.
Por outro lado, os armênios recebem bem e apóiam a pesquisa de Üngör. Muitos dos e-mails que ele tem recebido são de interessados leitores armênios, embora a situação tenha mudado quando ele criticamente atacou tabus históricos e mitos nacionais. Üngör diz “alguns armênios nacionalistas se perturbam e questionam porque um ‘turco’ deveria revirar a história ‘deles’. Nesses momentos, suspeitas recaem sobre as minhas intenções e lealdade.
Contudo, a pesquisa de Üngör tem sido facilitada pelas suas origens. Membros de sua família eram camponeses em uma vila ao sul da cidade de Erzincan. Ele pode traçar sua árvore genealógica até cinco gerações atrás. Ele sente que “a cultura regional de Erzincan afetaram fortemente minha infância. E essa cultura se sobrepõe significativamente à cultura armênia otomana, a qual eu considero que também faz parte de mim”.
Historicamente, Üngör diz que “armênios, turcos e curdos viveram em cidades etnicamente miscigenadas nas quais os nomes eu costumo escutar na minha família”. Culturalmente, ele teve contato com armênios de Erzincan através da obra literária de Hagop Mntzuri, que foi publicado em turco pela Aras Publishing House de Istambul. Üngör entendeu ainda melhor a semelhança entre os diferentes povos da região depois de seus primeiros encontros com os armênios dali: “eu tive outro abrir de olhos quando eu encontrei a senhorita Haygan Mardikyan na rememoração do genocídio na Holanda. Ele é neta de Hayganas Cordikoglu (Djordikian), uma mulher do vilarejo de Zimara (que está no nosso documentário), que sobreviveu ao genocídio e morreu há poucos anos atrás. Haygan foi a primeira armênia “Yerznkatsi” que eu conheci e isso era como olhar para um espelho: ela conversava, gesticulava e cozinhava como qualquer mulher de Erzincan na minha família. Isso soa ingênuo e óbvio, mas na época foi como uma revelação para mim. Eu também formulei questões: por que esse povo, tão similar a nós, foram excluídos da sociedade?”
Sua origem ajudou a provê-lo de habilidades com idiomas. Üngör fala diversas línguas orientais e obviamente, é fluente em turco. Além disso, ele diz: “eu considero tanto Zazaki quanto Kurmanci minhas línguas mãe porque ambas são faladas na minha família, ainda que meu Zazaki seja melhor do que meu Kurmanci”.
Üngör se esforçou para aprender o alfabeto armênio e pode entender pequenas conversações. Entretanto, ele não está apto ainda a usar o idioma para suas pesquisas e depende de colegas e amigos para ter acesso às fontes armênias. Ele comenta que “no princípio, eu estava muito motivado a aprender armênio, mas isso dependerá na verdade dos planos futuros para a pesquisa, que por sua vez dependem de oportunidades de emprego”.
A habilidade de Üngör de estudar a região é realçada, segundo ele, por uma combinação de conhecimento interior e certo grau de distanciamento pessoal: “eu normalmente me caracterizo como um ‘nativo estrangeiro’: eu nasci na Turquia, mas cresci na Holanda. Minhas origens facilitam muito a minha pesquisa. Minha família consegue os contatos pessoais nos quais eu costumo pesquisar arduamente a memória local. Ter sido educado no exterior me dá um senso de imunidade moral e política, dos quais poucos pesquisadores estão embebidos”.
Ele tem avaliado os pontos fortes e fracos dos estudos do Genocídio Armênio em vários textos, incluindo em um capítulo no New Directions in Genocide Research. Üngör acredita que a “dedicação de seus acadêmicos, a quantidade e a qualidade das memórias armênias e o contexto internacional relativamente bem pesquisado e bem documentado” são os pontos fortes; enquanto os documentos operacionais otomanos, uma profunda análise dos trabalhos sobre o regime dos Jovens Turcos entre 1913-18 e histórias locais e regionais que mostram como o genocídio foi perpetrado por soldados regulares, gendarmes e outros ainda são lacunas importantes. Üngör está convencido que uma exploração nos arquivos de registros de terras otomanas (Tapu Kadastro), os arquivos militares (ATASE), a Diretoria Geral de Segurança (Emniyet-i Umumiye Müdüriyeti) dos períodos otomano e republicano e os arquivos do Ministério de Relações Exteriores levariam a novas descobertas, ainda que o acesso a eles não esteja livre no futuro, pois “o governo turco teme a memória coletiva da própria população que está em seus próprios arquivos”.
Colocar o Genocídio Armênio num contexto comparativo ajuda a mostrar que uma procura por documentos que provem a “intenção” do ato genocida é infrutífera, uma vez que não existem documentos em qualquer caso que explicite a intencionalidade de extermínio de um povo: “o que faz o caso armênio um genocídio é simplesmente que os armênios otomanos foram tidos como alvos por uma categoria abstrata de identidade de grupo: todos os armênios, leais ou não-leais, seculares ou religiosos, rurais ou urbanos, trabalhadores ou intelectuais, foram deportados e massacrados”. Além disso, genocídio é mais que apenas assassinatos em massa: “É uma tentativa ilusória de destruir uma identidade coletiva odiada, por exemplo, através da destruição da cultura material (logo após a morte das vítimas) e mudança forçada de identidade (como a conversão ao Islã, ou a troca de nome de lugares).
Fazer o seu trabalho sobre armênios, curdos e turcos ser acessível para pessoas de outras culturas tem sido um desafio. No momento, diz ele “eu leciono principalmente para holandeses de classe média que tem origens similares entre eles e tem que ouvir sobre os armênios, deixados sozinhos na sua história. Eles se esforçam para tentar imaginar e compreender uma sociedade cem anos e quatro mil quilômetros distante deles. Na Grã-Bretanha, o problema é parecido, mas com leituras profundas e material visual em abundância em um curso intensivo de história, as crianças podem alcançar um nível respeitável de conhecimento sofisticado”. Não é muito diferente nos círculos historiográficos, nos quais o Genocídio Armênio só muito recentemente começou a ser integrado aos estudos mais amplos como os da I Guerra Mundial.
Üngör participou de um documentário que foi ao ar pela televisão pública holandesa em 24 de abril de 2008, intitulado “O país de nossos avós”, no qual ele e o roteirista armênio Alexander Geokjian (co-diretor desse filme) viajaram juntos para as terras de seus respectivos ancestrais na Turquia. A família de Geokjian é originária de Sis e Kozan na Cilícia. O filme ganhou o prêmio de melhor documentário no Pomegranate Film Festival em Toronto em 2008.
O próprio Üngör diz que adoraria fazer um documentário usando a história oral de pessoas comuns na Turquia que são filhas ou netas de testemunhas oculares do Genocídio Armênio. Ele já fez várias entrevistas em 2002 e entre 2004-07 e deve também escrever um artigo baseado nelas. Ele chama a atenção que “turcos e curdos idosos frequentemente se lembram de histórias de membros da família ou de vilas que assistiram ou mesmo participaram dos massacres”. Por enquanto, o pesquisador não tem os recursos para transcrever e publicar essas entrevistas e outras, mas ele acredita que isso seria um grande projeto que ele pretende concluir até 2015. É um material importante, afirma o professor. “Isso seria indubitavelmente a prova que há um racha entre a memória oficial de estado e a memória social popular: o governo da Turquia está negando um genocídio cuja sua própria população lembra”.
Üngör está atualmente envolvido numa variedade de novos projetos. Ele está escrevendo uma comparação entre o Genocídio Armênio e as deportações soviéticas de chechenos e tártaros da Criméia em 1944. “O estudo do Genocídio Armênio pode nos ajudar a entender a natureza das deportações, ou das “migrações forçadas”. Já tendo publicado artigos sobre a colaboração curda no Genocídio utilizando materiais curdos, Üngör se sente curioso para saber mais sobre o que os intelectuais curdos escreveram sobre esse período. Ele está trabalhando com um amigo, autoridade na história de armênios curdófonos da província de Şırnak, que sobreviveu graças à proteção do líder de uma tribo curda da região.
Até que os novos livros sejam lançados, Üngör está alterando o tema dos seus estudos, se debruçando agora sobre a violência genocida nos impérios Habsburgo, Otomano e Russo. Üngör afirma “Atualmente, eu estou expandindo meu horizonte intelectual. Até agora, minhas pesquisas e minhas aulas tem focado na formação da nação e no conflito étnico durante a dissolução do Império Otomano, incluindo o Genocídio Armênio. Eu ainda gostaria de manter um pé fincado nesse campo, mas também gostaria de colocar o outro pé no problema global da violência em massa em geral. Afinal, eu cheguei até o Genocídio Armênio através dos estudos do holocausto e eu tenho trabalhado também em Ruanda e nos Bálcãs”. O pesquisador está também na primeira fase da escrita de mais um livro sobre a violência em massa.
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Muito legal! Obrigado pela notícia. Vou procurar os livros …