Home Entrevistas Entrevista: Maestro Alexey Kurkdjian

Entrevista: Maestro Alexey Kurkdjian

0

Alexey Kurkdjian, natural do Rio de Janeiro, é maestro, multi-instrumentista e descendente de armênios. Seu trabalho envolve elementos tradicionais da música armênia com heavy metal e música clássica.

Há muitos anos é o maestro à frente do Coral Vahakn Minasian, do SAMA – Clube Armênio. Alexey também trabalha com o projeto Sphaera e muitas outras frentes.

Confira mais, abaixo, na entrevista exclusiva que o maestro concedeu para o portal Estação Armênia.

__

Maestro, como você começou a se interessar por musica e quando começou a estudar? 

Alexey Kurkdjian - Foto: Aline Matiazzo
Alexey Kurkdjian – Foto: Aline Matiazzo

AK: Meu interesse pela música creio que desde que me entendo por gente, no entanto, por mais que tenha estudado música quando criança, considero mesmo quando completei 13 anos de idade, época em que entrei de cabeça no mundo da música através da guitarra. Ouvia muito rock, ao mesmo tempo em que ouvia música clássica, aliás desde que nasci, influência da minha mãe e de meu avô, que veio da Armênia. 

E quais são as suas maiores influências?

AK: Tenho influências e referências, o que todo músico possui, no entanto creio que minha maior influência seja o próprio som.

Mas com certeza posso citar Ludwig Van Beethoven como um músico que me inspira até hoje, assim como o “oceano musical” Johann Sebastian Bach. Aram Khatchaturian não poderia ficar de fora assim como Soghomon Soghomonian mais conhecido como Komitas Vartabet. No rock, são muitos, não teria como listar, pois ao contrário da musica clássica, no rock precisamos de várias referencias para que se complete um todo, pois é muito difícil achar um músico realmente completo que me influencie, como seria na música clássica. Mas isso não é ruim, é apenas diferente, e quando você pode juntar, abraçar e amar vários estilos e influências, sua experiência como profissional tende a ser mais satisfatória. A música de cinema também me influencia desde o início. Compositores como John Williams, Jerry Goldsmith, Bernard Hermann, Danny Elfman, Basil Poledouris e muitos outros. Mas principalmente, minha mãe foi a pessoa que mais me influenciou. Desde pequeno me fazia tocar acordeão e piano junto com ela. Ótimas lembranças.

 

Qual o papel da musica armênia em sua formação como músico?

AK: Minha mãe nasceu no Egito com seus irmãos, onde, com meu avô e avó viveu por muitos anos. Mas como uma família armênia, tinham grande paixão pela música, não apenas de seu país de origem, mas da arte mundial. Então, desde muito pequeno, ouvíamos em casa alguns discos de música armênia, mais tradicionais mesmo, e clássicas. Meu pai dizia que minha mãe cantava em armênio para mim, quando estava ainda em seu ventre. Então, a música armênia tem parte importantíssima na minha formação, mas principalmente como pessoa, como ser humano, mas claro que carrego essa influência por toda minha carreira, desde os primeiros estudos até hoje, e levarei para sempre.

 

Quais são os seus músicos armênios preferidos?

AK: Aram Khatchaturian e Komitas estão no topo da lista.

É claro que a arte de Sayat Nova é maravilhosa e importantíssima, aprecio muito. Existem muitos outros compositores e ainda estou descobrindo muito sobre a música armênia, pois ao contrário do que muitos pensam, é muito rica e possui um vasto repertório bem como artistas e compositores. Tenho como missão pesquisar o que tem acontecido na música em nosso tempo, então gostaria de citar alguns músicos e compositores com os quais venho fazendo trabalhos de intercâmbio cultural e construindo uma bela amizade e frutífera colaboração: David Balasanyan, Aram Hovhannisyan, Anna Hacobjanyan, entre outros. São músicos muito cultos, tocam tão bem quanto compõem, e têm feito carreira dentro da Armênia bem como na Europa. Embora já tenha apresentado parte do repertório deles com minha orquestra, a Sphaera Ensemble, adoraria apresentar para os armênios da nossa comunidade. É uma pena que os nossos armênios-brasileiros não conhecem a grande arte destes jovens músicos, mas tenho fé que podemos mudar isso.


(Assista abaixo a música Bari Arakeel, interpretada pela Sphaera no último dia 23 de março na FNAC (SP). Bari Arakeel (doce cegonha), é uma música composta pelo renomado Alexey Hekimian, mas que ganhou maior notoriedade na voz de Serj Tankian, vocalista do System of a Down, em parceria com seu pai, Khatchadour Tankian.)

 

O que você destacada de peculiar e único na musica armênia?

AK: As escalas musicais são uma atração a parte, bem como os instrumentos usados e até mesmo seus ritmos. Se assemelha em alguns aspectos com a música de alguns países vizinhos, no entanto, a nossa música reserva uma espiritualidade única, uma beleza ímpar e tecnicamente possui uma forte identidade.

 

Quando entrou e como foi o convite para participar do coral da SAMA?

AK: Eu andei procurando contato com alguém da comunidade há muitos anos atrás. A única pessoa que me respondeu através de e-mail foi o Denis Tchobnian, o qual se prontificou em me apresentar ao clube e às pessoas. Eu não sou de São Paulo, por isso ainda não conhecia a comunidade. Nasci no Rio de Janeiro mas vivi muito tempo em Santos. Somente após o falecimento da minha mãe eu vim para São Paulo para morar, pois já estudava e trabalhava aqui. Após a introdução que o Denis proporcionou, conheci o Garo Sapadjian, o qual me levou para conhecer os diretores do SAMA – Clube Armênio. Como me mostrei muito interessado em retomar contato com minhas raízes, e principalmente através da música, após lerem meu curriculum vitae me convidaram para ser o maestro do Coral Vahakn Minassian, no qual estou até hoje e onde aprendi muita coisa. Me sinto honrado em trabalhar com este grupo. Estou sempre desenvolvendo ideias para que possamos dar continuidade. Já trouxe minha orquestra várias vezes para tocar junto ao Coral, já me apresentei tocando violino, trouxe um excelente pianista que não é de origem armênia, mas se apaixonou pela nossa arte e a executa muito bem. Ainda tenho muito a contribuir, sinto como uma de minhas missões, e também muito a absorver com esta experiência.

 

Como surgiu a Sphaera?

AK: Já era um projeto mesmo antes de entrar na faculdade.

Sempre quis ter um grupo meu com o qual pudesse executar minhas idéias e ser independente das amarras públicas, que quase sempre prejudicam a parte artística de um grupo.

O Projeto Sphaera é complexo no sentido de amplitude, mas basicamente podemos imaginar uma “esfera” na qual várias formas de arte e música se encontram e compartilham força e beleza. É um ideal que se torna realidade a cada concerto.

A partir da Sphaera Ensemble, com a qual apresentava música clássica contemporânea, incluindo a dos armênios citados acima, criei também a Sphaera Rock Orchestra, onde agrego instrumentos de uma banda de Rock’n Roll e faço arranjos orquestrais das músicas que, acredito, levam intrinsecamente consigo potenciais da música clássica. Também estou trabalhando em composições próprias escritas especialmente para este formato. Ainda no campo do Rock com Orquestra, também apresentamos música armênia num formato completamente original. É muito gostoso de fazer, e estamos cativando um público cada vez maior e que topa ter essa experiência nova, contemporânea e, acredito, presenciar a formação de uma nova estética musical.

Assista abaixo ao vídeo com a música patriótica “Hay Herosneri yerke” (Canção dos heróis armênios): 

Que tipo de sons você escuta além dos clássicos?

AK: Rock, Jazz, Bossa, Choro, Música Incidental de filmes,

Música Étnica….gosto de tudo que é feito com integridade e paixão. De qualquer lugar deste vasto mundo e de qualquer povo.

 

Como foi o processo de produção dos arranjos para o Cd do Sepultura?

AK: Conheci o Andreas Kisser (guitarrista e líder da banda Sepultura) em 1997, quando eu estava tocando na abertura do show de uma banda norte americana. Ele veio me convidar para fazer teste no Sepultura, pois o ex-vocalista acabara de deixar a banda.
Depois disto, ficamos amigos. Fiquei um tempo afastado do meio do rock, principalmente por ter ingressado na faculdade de música, o que toma todo o seu tempo. Após me formar, e já tendo certa experiência profissional como violinista, compositor e regente, resolvi entrar em contato com ele novamente para saber das novidades. Foi quando ele me convidou para assistir a um show dele para conversarmos sobre um novo projeto. Eu já tinha a Sphaera Ensemble formada, e como o próximo álbum da Sepultura na época teria como tema o livro “Laranja Mecânica”, no qual o personagem principal é fanático por Beethoven, ele me convidou para participar escrevendo os arranjos e regendo na gravação. O álbum “A-LEX” foi lançado e a faixa na qual participei, que se chama “Ludwig Van”, se tornou um grande sucesso no mundo todo. Me lembro em que, quando a banda Metallica lançou um disco e dvd com a Sinfônica de San Francisco, em 1998 aproximadamente, eu assisti ao dvd, fiquei de boca aberta e prometi a mim mesmo que um dia faria algo do gênero com a banda que eu tanto apreciava, o Sepultura. O sonho se tornou realidade e nossa parceria ainda continua para novos projetos de rock com orquestra.

 

Qual seu pensamento sobre essa sua relação do rock e do erudito.

AK: Desde pequeno quando ouvia rock, já imaginava linhas melódicas sobrepostas de uma orquestra tocando simultaneamente. Era uma fantasia, algo que minha mente fazia automaticamente. Portanto, como ouvia muita musica clássica desde a infância, isso foi ficando cada vez mais frequente. Não faço muita distinção entre uma coisa e outra, desde que ambas sejam íntegras. Para mim é muito natural.

E a Sphaera Rock Orchestra está aí para provar que é perfeitamente possível essa interação (risos).

 

Você conhece algo do cenário atual da música erudita e do rock na Armênia?

AK: Da música erudita sei mais do que do rock. Gostaria de saber mais, e estou em contato com muitos músicos de lá. Mas sei que lá existem muitos fãs de rock, assim como da música popular em geral e dos clássicos também.

 

Tem planos para turnês na armênia e quais são seus próximos projetos?

AK: Planos para ir a Armênia com certeza eu tenho, e levar meu projeto principal seria ótimo. Precisamos de apoio para isso. Precisamos de parceiros que queiram ter seus nomes e/ou suas marcas ligadas ao projeto, que ajudem as coisas a acontecer, investindo e acreditando nessa contemporaneidade. O “mecenato”, ou investimento num trabalho artístico sempre existiu no mundo das artes, assim todos saem ganhando: investidor, artista e o público.

Quanto aos próximos projetos, são tantos que nem sei por onde começar (risos). Continuar com o Coral Vahakn Minassian e melhorar cada vez mais. Dar continuidade ao Projeto Sphaera, gravar um cd e um dvd e tocar muito. Tenho recebido muitos convites para trabalhar ao lado de outros artistas também, como o Sepultura novamente, o Rafael Bittencourt, da banda Angra,
a Seleção Brasileira de Rock’n Roll, que contará com a participação da Sphaera Rock Orchestra. Músicas de filmes e vídeo games também estão nos planos. Como compositor e regente, venho fazendo algumas parcerias com a Disney, o que tem sido maravilhoso. Continuar levando ao público essa nova proposta de música a qual estou desenvolvendo, o que envolve certamente a música armênia.

Acompanhe mais sobre o maestro em seu trabalho com a Sphaera, acesse: www.facebook.com/SphaeraRockOrchestra

Crédito da imagem de capa: Felipe Gomes.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *